A contratação de José Sócrates para comentador político da RTP mereceu reacções numerosas e as mais variadas. Foram atribuídas à iniciativa da direcção da nossa televisão nacional intenções variadas, desde favorecer o partido socialista até prejudicar o partido socialista, passando por vários outros cálculos, mais ou menos intrincados. Uma possível intenção, talvez menos badalada, foi a de procurar aumentar o número de pessoas que preferem a RTP, em vez da concorrência. Mas todo o espectáculo que se formou à volta do assunto, chama-nos a atenção para a importância cada vez maior da classe dos comentadores políticos.
Alguns considerarão exagerado considerá-los uma classe. Contudo, todos reconhecerão que se trata de uma função com uma missão específica, de informação e de esclarecimento junto do cidadão comum, que não tem tempo para se inteirar das subtilezas da política, mas que procura acompanhá-las, até para conseguir uma participação maior e melhor na vida do país. Numa época de crise como aquela em que estamos, é natural que muitas pessoas procurem informar-se mais e melhor. Contudo dois problemas surgem logo à cabeça. O primeiro, a descrença generalizada (e muito compreensível) que domina muitas pessoas, que faz mesmo com que desistam de participar na vida política, ou, quando o fazem, é como se estivessem a desempenhar-se de um encargo espinhoso e indesejável. O segundo, a manifesta impreparação, e falta de isenção de muitos, para não dizer da maioria dos comentadores.
Um aspecto particularmente preocupante é o da promiscuidade entre o exercício da política propriamente dita e o do comentário político. São numerosos os casos de políticos em exercício, que aparecem regularmente na televisão a comentar. Fazer este reparo não constitui de modo nenhum uma tentativa de limitar os direitos de seja quem for. Também é verdade que nunca existirá um comentador político totalmente isento, melhor dito, totalmente asséptico, que encara a política como um exercício puramente especulativo. O que falhará muitas vezes, é os comentadores políticos em exercício assumirem as suas convicções. È verdade que alguns o fazem, mas que isso não chega.
Outra questão é a manifesta impreparação e falta de capacidade que é notória em muitos comentadores. Falta notoriamente preparação a muitos, que recorrem a cartilhas que inclusive conhecem mal, quando se pronunciam sobre os assuntos que lhes couberam. Outros usam declaradamente a função para passarem mensagens, e não para fazerem comentários aos factos políticos. Para não falar dos que parecem ter lugar cativo nas televisões, com maior ou menor êxito mediático.


Esperando não estar a cometer infracção grave, transcrevo – com a devida vénia – o artigo “Um ineditismo português”, de J.-M. NOBRE-CORREIA, publicado no DN de hoje:
«Decididamente, Portugal é um país estranho! Com uma vida política e tenores políticos do género “cassete”, com uma falta de espírito criativo particularmente evidente. E com um jornalismo cuja primeira característica é a de um grande unanimismo temático, sendo a segunda a quase ausência de aprofundamento dos assuntos. O que explica o batuque em torno do anunciado regresso de José Sócrates à televisão.
Frequentando o prestigioso Instituto de Estudos Políticos de Paris, é provável que o antigo primeiro-ministro se encontre mais bem apetrechado em termos de politologia do que a grande maioria dos que inundam as incrivelmente numerosas emissões de palavreado das televisões portuguesas e pretendem fazer análise política. Só que, de facto, o problema que se põe não é esse. Mas, sim, o de saber se a análise, a interpretação pedagógica da vida política deve ser feita por políticos.
Ora, um dos dramas dos media portugueses é precisamente o de terem delegado em profissionais da política o encargo de analisar a vida política. De terem criado a figura inédita de “comentador político”. E de terem atribuído mesmo a alguns deles o estatuto de gurus, cujas opiniões mais ou menos bombásticas encontram eco em boa parte dos media concorrentes. Esquecendo algumas das mais elementares precauções do jornalismo. Como a de não ser juiz em causa própria. E a de não assumir concomitantemente reais funções de Estado e pseudo-funções jornalísticas.
Em países onde os media sabem o que quer dizer anunciar, pôr em perspetiva, analisar e comentar a atualidade, esta última função é atributo de jornalistas seniores especializados ou de universitários de reconhecida competência, gente cujo estatuto profissional exige distância em relação aos assuntos tratados e forte sentido de pedagogia para procurar equacionar e explicar claramente a vida política da sociedade democrática. E não, como em Portugal, para jogar aos atores de segunda zona da vida política. Ou pior do que isso: procurar instrumentalizá-la.»
Está aqui tudo: simples e conciso. Até lhe perdoo seguir o Aborto Ortofágico (ou estar-se nas tintas para as decisões pressurosas da direcção do jornal…) Não valeria a pena tentar expressar de outra maneira (decerto, menos clara) uma análise em absoluto coincidente com a minha.