Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
O Liberalismo económico terá dado origem a Hitler?
Trémarec, Le libéralisme économique a-t-il enfanté Hitler? texto disponível em L’Espoir, cujo endereço electrónico é o seguinte:
http://lespoir.jimdo.com/2011/10/31/le-lib%C3%A9ralisme-%C3%A9conomique-a-t-il-enfant%C3%A9-hitler/
Parte I
O Reichstag
O « General Social ».
Berlim, 15 de Dezembro de 1932. Quando o inverno já estava bem avançado, a jovem democracia alemã nascida em Weimar, 13 anos antes, vacila. Certamente a República apareceu de repente e, depois da derrota, passou e ultrapassou muitas dificuldades. Não teve ela que destituir o imperador William II, herdeiro de uma família que governava desde há mais de dois séculos a Prússia? Não soube ela afastar a Revolução comunista, esmagando no sangue aqueles que a pretendiam substituir pela vanguarda proletária que, tendo tomado o poder em Moscovo, pretendiam agora alcançar a Revolução mundial? Não tinha ela conseguido estabilizar o Marco, que chegou a atingir em 1923, a comparar com 1913, uma taxa de inflação de 15 437 000 000 000%? Finalmente a ligação da direita a esta revolução social-democrata, simbolizada pela lealdade do militar mais reputado do país, o chefe do Estado-maior da Grande Guerra, o vencedor dos russos em Tannenberg, o Marechal Von Hindenburg, eleito Presidente em 1925, não era também isto o sinal de um novo prestígio, tanto no interior como no exterior, para um regime que tanto precisava dele até então?
Mas, em 32, a situação deteriora-se consideravelmente. A Alemanha está mergulhada numa crise económica. O seu PIB está em queda e acaba de cair novamente 7%, as exportações caem 31%, a sua taxa de desemprego passa de 13% para 17%. Sobre 18 milhões de assalariados, 6 milhões estão no desemprego total, 8 milhões no desemprego parcial. Os Fundos de Desemprego, esgotados pelas políticas de rigor apenas indemnizam 1,8 milhões de pessoas. Os outros, entregues a eles mesmos, lutam para tentar matar a fome, a agricultura, organizada pelas principais propriedades dos Junkers, tinha entrado em crise tal como o artesanato e o comércio, os serviços e a indústria. Por outro lado o capital estrangeiro fugiu da Alemanha, arrastando em parte a falência de um sistema bancário reorganizado e parcialmente nacionalizado.
Esta situação favoreceu o surgimento de partidos extremistas. O partido nazi de Adolf Hitler, se bem que em crise interna no final do ano e em forte perda de velocidade, é o primeiro partido do país e tem 196 lugares no Reichstag, ou seja, um terço do Parlamento alemão. O partido Social-Democrata (SPD) tem 121 lugares, o partido comunista (KPD), em plena progressão, 100 e os democratas cristãos (Zentrum) 70. Esses resultados tornaram impossível a formação de qualquer maioria na Assembleia e depois de incessantes dissoluções, os Chanceleres, nomeados finalmente pelo Presidente Hindenburg, governam agora sem nenhum apoio parlamentar, com base apenas do artigo 48 da Constituição
O Marechal Hindenburg, durante a Primeira Guerra Mundial
Não se podendo exercer a representação no Reichstag, é agora na rua que a luta política se desenvolve, e em que esta já não utiliza mais os discursos dos deputados mas sim os das armas das milícias.
Cada dissolução é uma oportunidade para aumentar ainda mais a violência existente, o desenvolvimento da propaganda, tornando a organização das eleições cada vez mais arriscadas. A 17 de Julho, em Hamburgo, um afrontamento entre nazis e comunistas deu origem a 18 mortes (o domingo vermelho de Altona). No dia 1 de Agosto, os combates de rua provocam 20 mortos. No dia 10 desse mês, um trabalhador comunista é pisado até à morte na sua casa por militantes SA. Julgados, condenados à morte, foram duramente defendidos por Hitler e eles acabaram por finalmente serem amnistiados vergonhosamente no 2 de Setembro.
É assim que a política da violência das milícias nazis se impõe pouco a pouco na sociedade e na justiça. Porque é que nestas condições, a milícia não se substitui ao exército como o fez Mussolini na Itália oito anos antes? Porque é que Hitler insiste que deve ser ele nomeado chanceler em plena legalidade republicana? Porque, naquela altura, o exército alemão, o Reichswehr, se opõe a Hitler e defende o regime. À sua frente, homem de sombra, homem de low-profile e organizador de gabinetes, está o General von Schleicher. Primeiramente ministro da Defesa do gabinete de Von Papen, de facto a eminência cinzenta de Hindenburg, ele lutou obstinadamente contra os nazis. É o último baluarte contra Hitler, porque, tendo o exercito nas mãos, ele é o dono dos destinos da Alemanha e do mundo.
Mas, com o fracasso do gabinete Von Papen, com o aprofundamento da crise, com a conversão insidiosa dos homens de influência à ditadura de Hitler, assim a ascensão deste ao poder tornava-se, cada vez mais, muito provável. Havia forças invisíveis a actuar na sombra a seu favor e a República de Weimar estava já à beira de cair de forma irrecuperável.
Face a estes perigos, Hindenburg, no limiar da morte, sujeito a várias influências, lança a última carta da democracia e nomeia Von Schleicher, tanto como ministro da Defesa como chanceler também. Não tendo uma maioria, como a não tinham os que o precederam, tem que governar com os sindicatos e com a ala esquerda do partido nazi, que ele terá tido sucesso em a dividir e provavelmente em a destruir. Para isso, ele compreendeu que era essencial sair da crise económica e de escapar aos dogmas económicos que estavam a levar a Alemanha ao caos. O rigor não funciona, é necessário que haja uma política de expansão económica liderada pelo Estado e apoiado pelo Reichsbank.
O General Social’ fala aos alemães
Esta política, ele decidiu explicá-la. Nesse 15 de Dezembro, sozinho face ao “enorme movimento “, ‘face às “forças secretas da história e da necessidade“ (para citar Hannah Arendt) que se aprontavam para lançar os homens para os braços do totalitarismo nazi, Kurt Von Schleicher, “o general social” como ele próprio se define, fala à rádio para o povo alemão:
«Senti uma grande relutância em aceitar o encargo de chanceler. Em particular porque ver um ministro da Defesa tornar-se Chanceler tem como que um perfume de ditadura militar e porque existe o perigo de que a acumulação destas duas posições venha a arrastar muito o exército para a política. Mas a ideia de que fazer isso esclarecerá fortemente a gravidade da situação na qual nos encontramos e tenderá a tornar mais tranquilos alguns agentes da perturbação e da desordem, tornando assim desnecessário a utilização do exército para esse efeito, foi tudo isto que me convenceu a deixar de lado as minhas dúvidas.
Portanto, quero pedir aos meus concidadãos que vejam em mim , não só o soldado, mas também o administrador dos interesses de todas as camadas da população para, assim o espero, um breve período de emergência. Eu não vim para trazer a espada, mas sim para trazer a paz.
Eu acho que posso dizer isto, pois as minhas opiniões sobre a ditadura militar não datam de ontem e são bem conhecidas. Como já o disse, não nos podemos sentar confortavelmente sobre as bordas afiadas das baionetas. A longo prazo, não se pode legislar sem o largo apoio do povo atrás de si. Um tal apoio, o meu governo deve alimentá-lo pelas suas próprias acções.(…)
O [meu] programa consiste apenas num ponto: criar emprego! Todas as medidas que o Reich vai apresentar nos próximos meses terão mais ou menos este único objectivo. Ao viajar ao longo da Alemanha nas últimas semanas, alimentei a crença de que os alemães de todos os estratos sociais estão dominados por um pensamento: dêem-nos trabalho e, assim, a esperança de uma recuperação económica! Na verdade, nada mais nos interessa, e o que menos nos interessa são as alterações constitucionais e outras subtilezas e isto não nos enche os nossos estômagos.
No nosso povo está bem presente uma vontade de criar, produzir, que não pode ser abafada por nenhum falhanço. Em todas as camadas da sociedade, há a mesma coragem e a mesma determinação que nós vimos durante a guerra para lutar contra o sofrimento económico profundo do nosso tempo. Isto merece a maior admiração, o maior apoio e, portanto, apoiar essa determinação e essa luta deve ser a lei suprema da direcção do Estado, independentemente das condições económicas ou outras. Uma moral do desespero e do desastre devem ser evitadas. E isso só será possível se considerações psicológicas, tanto quanto as económicas, forem aplicadas à nossa política de criação de emprego. (…)
Ninguém pode consolar as pessoas que estão próximas do desespero por elaborações que, na base das leis da ‘racionalidade’ afirmam que cada depressão será finalmente seguida por uma retoma da economia. As pessoas querem ver uma assistência tangível e imediata. Assim nós devemos construir barragens a tempo, para que as ondas não nos inundem antes que a retoma económica de um ciclo de actividade faça sentir os seus efeitos. Isto é o que nós devemos fazer, mesmo que estas barragens não correspondam em 100% às leis estritas da “racionalidade económica” . (…)
Provavelmente uma tal política de criação de emprego gera mais riscos do que uma expansão normal o faria. O programa deve basear-se sobre os meios existentes de produção não utilizados, para fins de manutenção e de melhorias. O que é decisivo é que tenhamos encontrado a solução para financiar o programa do qual está categoricamente excluída qualquer inflação. Isto será assegurado através da colaboração do Presidente do Reichsbank Luther, que pode ser chamado o supremo protector da moeda. (…)
Resumindo: nós podemos caracterizar a situação financeira da seguinte forma: ” conseguiremos ter sucesso com o orçamento do Reich, sem a introdução de novos impostos e sem reduzir os salários dos funcionários públicos. Trata-se de um claro progresso em comparação com os últimos dois anos de crise.(…) »
