Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
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Texto 10. O Ocidente contra o resto do mundo: atenção aos sobressaltos da besta
Publicado por
em 9 de março de 2026 (original aqui)

A história do mundo nos últimos 500 anos é a da irrupção da Europa, cujos exploradores desencadearam a terceira globalização. Nela, o que hoje chamamos de Ocidente inscreverá a “revolução industrial”, cujo alavanca é o modo de produção capitalista, e que lhe permitiu assentar, com uma brutalidade sem nome, a sua dominação do mundo. Primeiro infligindo essa violência às suas próprias populações, depois entregando-se a uma pilhagem do mundo baseada em extorsão de riquezas, massacres e genocídios. E não nos devemos esquecer: resolvendo as suas contradições internas por meio de duas guerras mundiais absolutamente monstruosas. Para acabar agora por impor ao planeta uma globalização capitalista neoliberal que é a forma moderna da sua dominação. Este processo contraditório combinou progressos materiais espantosos, sempre acompanhados de uma violência sem limites. Para citar apenas um exemplo — o de um estudo recente do The Lancet, a principal revista médica do mundo —, ele revela que as políticas do Ocidente, sejam diretamente militares ou económicas, provocaram a morte de 32 milhões de pessoas desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
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Seria ridículo reduzir a civilização ocidental a este balanço mortífero, mas é igualmente ridículo negá-lo e não reconhecer a sua natureza fundamental. Estamos a ver as consequências disto em ação na crise mundial com que nos confrontamos no início do século XXI.
Hegel e Marx, na sua esteira, ensinaram-nos a leitura dialética da História. É preciso utilizá-la para compreender a crise presente. Começando pela identificação daquilo a que Mao Tsé-Tung chamava a «contradição principal». E esta é, para ser muito sumário, aquela que estrutura realmente a marcha da história e à qual se podem associar todas as outras. Para a aplicar ao período que nos ocupa, mesmo que se encontrem contradições secundárias importantes que se exprimem, por exemplo, na guerra da Ucrânia ou no conflito do Médio Oriente, é forçoso constatar o peso desta contradição principal. É ela que define todas as outras contradições ou, melhor dizendo, a expressão das outras. A agressão criminosa da aliança americano-israelita contra o Irão só se compreende verdadeiramente quando a associamos a esta contradição principal. Uma breve nota sobre o seu carácter criminoso: trata-se simplesmente de uma análise do direito internacional resultante da Segunda Guerra Mundial e, nomeadamente, dos estatutos do Tribunal de Nuremberga. O lançamento destes bombardeamentos com o assassínio dos dirigentes iranianos no preciso momento em que decorriam negociações prestes a concluir-se entre os Estados Unidos e o Irão constitui, de facto, um «crime contra a paz». E a aplicação da jurisprudência de Nuremberga implicaria que os autores deste crime acabassem na forca, tal como os seus predecessores nazis. A duplicidade americana é particularmente abjeta, mas não é ela que determina a qualificação jurídica — é o próprio desencadeamento da guerra que o permite. Os grotescos balbuciamentos do profundamente desprezível Thierry Breton, interpelado por Rochebin sobre o crime anterior da agressão ao Iraque em 2003, em nada alteram isto: «dura lex, sed lex».
Voltemos a esta famosa “contradição principal. Vemos florescer no debate um florilégio de análises sobre as razões deste acontecimento e sobre a incrível e estúpida decisão de Donald Trump de fazer sua a criminalidade israelita — lançando-se numa aventura que tem todas as chances de terminar para ele numa catástrofe pessoal. Encontramos aí um leque de hipóteses particularmente variado, chegando até à vontade messiânica de alcançar o Armagedão, para permitir a Parusia e o fim dos tempos com o retorno de Cristo. Isso é para os cristãos. Para os sionistas fanáticos construtores de templos, trata-se de chegar à reconstrução do terceiro templo e desencadear a vinda do Messias judeu. Não nos enganemos: existem loucos suficientes de ambos os lados para sonhar com isso. Mas esse não é o verdadeiro problema., porque o problema são as consequências do confronto fundamental que vivemos. Aquele que opõe um Ocidente em declínio ao resto do mundo, simplesmente. E todos os acontecimentos que se têm desenrolado desde 24 de fevereiro de 2022 — com a intervenção russa na Ucrânia como faísca que ateou fogo à pradaria — ligam-se a esta contradição principal. A própria intervenção russa, o 7 de outubro, a dinâmica da emergência dos BRICS, o genocídio de Gaza, as agressões israelitas contra o Líbano, as revoluções coloridas na Geórgia (fracasso), na Roménia (sucesso), os desvios fascizantes da União Europeia, a guerra dos 12 dias contra o Irão, o episódio venezuelano, a Gronelândia, o bloqueio a Cuba, etc., etc. — cada um destes acontecimentos, para além das suas especificidades, e por mais terríveis que sejam, só pode ser verdadeiramente compreendido se o ligarmos a este confronto.
Então, o que está em jogo na agressão americano-israelita de 28 de fevereiro? O derrube do “regime dos mulás”, que seriam demasiado malvados? Para instaurar na Pérsia um regime feminista que organize Paradas do Orgulho Gay? Para proteger o Estado teocrático genocida de Israel, porque seria “a única democracia do Médio Oriente” e disporia do “exército mais moral do mundo”? Porque a missão do Ocidente, dotado de uma formidável superioridade civilizacional e moral, seria precisamente a de impor os seus “valores extraordinários” a outros países, para os colocar no caminho do progresso? Pretextos grotescos avançados para mascarar — hoje de forma cada vez mais ridícula — um objetivo muito simples. Em primeiro lugar, o controlo americano sobre a Ásia Ocidental, espaço estratégico onde se encontram consideráveis recursos energéticos, que é essencial dominar. Conferindo em seguida a Israel — entidade puramente ocidental e de vocação colonial — o papel de polícia direto. Ao mesmo tempo que se utiliza o pretexto da sua proteção para justificar tanto a tutela ocidental sobre a região como as atrocidades mortíferas que essa dominação implica. Mas há mais: a dominação desta zona deve também servir de trampolim para a continuação da guerra travada contra a Rússia — uma verdadeira caverna de Ali Babá em matéria de recursos, com a qual o Ocidente há muito tempo sonha.
Desde 1978, o Irão constitui um obstáculo à perenidade deste domínio. É preciso, portanto, eliminá-lo. Essa é a única razão verdadeira, todo o resto não passa de conversa fiada.
O que o demonstra ainda mais é que a China e a Rússia, os dois protagonistas do confronto Ocidente contra o resto do mundo, sabem-no perfeitamente. E que, por conseguinte, a questão iraniana é decisiva na estratégia que ambos desenvolvem para esse confronto. Claro que apoiam o Irão, mesmo que discretamente. E não o afirmamos para nos agradar a nós próprios, ou para nos tranquilizar, mas simplesmente porque esta convicção se deduz desta realidade incontestável do confronto, e consequentemente da existência desta “contradição principal”. Isso não significa que esses apoios serão suficientes para impedir os Estados Unidos de atingirem os seus fins — será a História quem decidirá isso. Mas não se pode analisar o que se passa de forma pertinente sem ter em conta este fator.
E é precisamente esta realidade que explica tantos dos acontecimentos a que assistimos. Não retomaremos aqui os elementos que examinámos desde 28 de fevereiro, em particular sobre os bloqueios intelectuais das elites ocidentais que já não compreendem grande coisa do que se passa, que reprimem tudo o que é suscetível de as incomodar, e que as conduzem cada vez mais frequentemente a decisões absurdas. A guerra contra o Irão desencadeada por Netanyahu e Trump é uma delas, de proporções gigantescas. Arrogância, subestimação do adversário, ausência de objetivos concretos, ausência de estratégia, ausência de plano, erros táticos grosseiros — o assunto está mais do que mal encaminhado. O pior é que tudo isto era perfeitamente previsível e que foram muitos os que, no Ocidente, fizeram soar o alarme: «sobretudo não façam isso!» A retaliação iraniana, preparada e organizada há muito tempo, é formidável, e a evidência de uma possível «derrota» ocidental rapidamente saltou à vista. Com as suas consequências em termos de relações de força, e o risco existencial que representa para a perenidade do projeto sionista.
Desde então, os discursos evoluem sem parar, as decisões absurdas sucedem-se às decisões absurdas, os discursos ineptos sucedem-se aos discursos ineptos, até mergulhar na loucura. Como acabou de demonstrar o episódio religioso organizado na Casa Branca. Ou os discursos alucinados de Hegseth, o perfeito idiota fanático que serve de “secretário da guerra” dos EUA, falando quase da destruição do Irão pelo fogo. O niilismo e a brutalidade americanos deduziam-se do apoio incondicional aos horrores cometidos pelo Estado de Israel. Doravante, os Estados Unidos participam neles sem complexos. Acompanhados dos delírios messiânicos que em nada ficam a dever aos que animavam os fanáticos muçulmanos do Daesh.
O Ocidente, que se via no comando por 1 000 anos após a queda da URSS, iniciou o seu declínio há já algum tempo. Já não dispõe dos meios económicos, culturais e militares para impor a sua hegemonia, e as coisas estão a evoluir muito rapidamente. Terá de entregar o poder, cabendo aos países que o compõem compreendê-lo e trabalhar para encontrar o seu lugar no Novo Mundo que se está a construir. No que diz respeito à França, ter à sua frente um narcisista ao mesmo tempo ridículo e incapaz não constitui uma vantagem.
Até 2022, tínhamos diante de nós um Ocidente doente, mas que não estava ciente do seu estado. À derrota na Ucrânia, sucederá uma derrota no Médio Oriente. É provável que isto mostre ao mundo o quanto o rei está realmente nu.
No modo de animal ferido, num planeta nuclearizado, os sobressaltos da besta serão particularmente perigosos.
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O autor: Régis de Castelnau [1950 – ], advogado francês, é licenciado pela Universidade de Paris Pantheón Assas, especializado em direito social e económico. Advogado empenhado, tornou-se próximo do movimento operário francês e nos anos 70 tornou-se um dos advogados do Partido Comunista Francês (PCF) e da CGT. Em especial, liderou a defesa dos trabalhadores da indústria siderúrgica entre 1978 e 1982. A partir desta experiência, escreveu um livro, La Provocation2, escrito com o escritor François Salvaing. Os seus compromissos valeram-lhe no Eliseu a alcunha de “Barão Vermelho. A partir dos anos 90, ao analisar a importância crescente das questões jurídicas no processo iniciado em França pelas leis de descentralização de 1982 e 1983, reorientou as suas actividades para o direito público local. Foi membro do Conselho Sindical do Sindicato dos Advogados Franceses entre 1974 e 1975 e Presidente da Associação França-América Latina entre 1981 e 1985. Foi Vice-Presidente, Presidente e então Presidente Honorário da Associação Francesa dos Advogados do Governo Local (Association française des avocats conseils des collectivités). É também Presidente do Instituto de Direito e Gestão Local desde 1997. Ensinou direito urbanístico na Universidade de Borgonha e direito da responsabilidade pessoal dos decisores públicos locais na Universidade de Paris II Panthéon Assas. Publicações e escritos: paralelamente a uma forte atividade doutrinal que assistiu à publicação de vários trabalhos, incluindo Le Fonctionnaire et le Juge pénal em 1997, Portrait des chambres régionales des comptes em 1997, Pour l’amnistie em 2001, Les Chambres régionales et territoriales des comptes em 2004, escreveu também muitos artigos na imprensa especializada e geral. Em 2019, aderiu ao Partido da República Soberana de Djordje Kuzmanovic, uma cisão de La France insoumise. Dirige o site Vu du droit.



