A importância da Revolução dos Cravos, de 1974, para a luta então realizada também no Brasil para sair definitivamente da ditadura militar estabelecida no país desde 1964, não tem recebido os devidos testemunhos.
Quando Portugal reconquista os seus ideais democráticos, a vida sócio-política brasileira ainda vivia sob os ditames do regime totalitário dos militares. Continuava a farsa de bipolarismo controlado, com um parlamento que hospedava representantes de somente dois partidos, um governativo e o outro de uma difícil oposição. A um tal parlamento vinha atribuída a função de dar corpo definitivo às decisões do executivo que, em verdade, exercia igualmente as funções específicas do poder legislativo. Ao parlamento também competia votar para a eleição do novo Presidente militar e de seu Vice, ambos já precedentemente escolhidos pelo general-presidente de posse do Estado. O terceiro poder da República, o judiciário, também estava nas mesmas condições do legislativo ou quase, isto porque o regime substituíra os antigos antigos magistrados dos grandes órgãos federais por seus fiéis servidores. Além disso, a presidência militar tomava para si igualmente poderes do judiciário, assim como fazia para com o legislativo.
Assim se encontrava o Brasil quando, com a Revolução de 25 de Abril de 1974, Portugal restabelece a ordem democrática para a vida civial e as instituições oficiais. Por todo o mundo de expressão portuguesa corre o vento que provinha de Lisboa, ainda que no Brasil somente pela parte da comunidade social que começa já neste 1974 a alargar o ansiado espaço da liberdade civil.
O primeiro grande ato de encontro entre as duas diferentes realidades políticas se verifica quando Portugal e Brasil concordam, a pedido do novo governo português, a respeito do acolhimento pelo Estado brasileiros dos dois maiores personagens do antigo regime de natureza salazarista então depostos: o presidente da República, Américo Thomaz, e o presidente do Conselho, Marcelo Caetano. A opinião pública brasileira recebe tais acolhências com as mais diversas tomadas de posição, porém sempre predominando a linha da cordialidade típica do brasileiro.
O Brasil segue sempre os progressos alcançados nos anos pela Revolução dos Cravos
e, com os correspondentes progressos políticos que a vida do país começa a conquistar a partir de 1975, procura sempre mais intensamente comparticipar com as conquistas democráticas do novo tempo português. Um dos muitos atos que traduzem a nova atmosfera institucional predominante em Portugal se dá com a concessão de asilo político para o ex-governador do estado do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. A Brizola foram cassados pelo poder militar todos os direitos, por dez anos. Inicialmente refugiado no Uruguai, dali escapa, indo para os Estados Unidos. Mas nem nos USA encontra um ambiente conveniente à sua liberdade individual. Foi quando o democrático governo português oferece a Brizola completo asilo político. Assim como se deu para com o ex-governador gaúcho, igualmente outros brasileiros banidos encontraram acolhimento em terras portuguesas.
A atenção especial do governo brasileiro, principalmente por parte de sua ação
diplomática, se dirige, em particular, aos atos que o governo revolucionário passa a observar nas suas relações com as antigas colônias, quase todas elas em constante ebulição armada, em modo especial Angola. Seguindo a síntese enunciada pelo presidente provisório do Governo revolucionário, António Spínola, de que as relações com esses países deviam subordinar-se mais às razões políticas do que àquelas militares, começa igualmente no continente negro a circular a área da Revolução de Abril.
Sempre muito integrado com o universo africano, uma das suas referências históricas principais, o Brasil acompanha com grande entusiasmo as modificações que Portugal faz quanto à sua antiga política colonial. A partir desse encontro ideal os dois países mais se aproximam.
A política portuguesa na África possibilita ao Brasil o alargamento de um novo espaço institucional. Chegado o início da década de 80, tais linhas passam a predominar na vida política brasileira, em particular quando em 1978 vem cancelado definitivamente o famigerado AI-5. Principia assim uma nova fase da reconstituição institucional do país.
A política de descolonização praticada por Portugal fica sendo desta maneira um marco importante igualmente para o Brasil. Com a definitiva tomada de indipendência das antigas colônias portuguesas, e com o não sempre bem considerado encontro daí derivado entre o Brasil e Portugal, praticamente começa a surgir a idéia, realizada posteriormente, da grande Comunidade Internacional dos Países de Expressão Portuguesa, sempre aspirada pelos democratas brasileiros.

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