SOBRE AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU E QUE ESTAMOS A DEIXAR FECHAR – por Júlio Marques Mota

Hoje estou triste é o texto que um antigo aluno me enviou e que abaixo reproduzo. Partiu de um emprego algures no norte do país onde não lhe foi renovado o contrato, perdeu o emprego por causa de um acordo, de um pequeno negócio em que não participou mas de que foi a vítima. Vítima do que não fez. O desemprego bateu-lhe à porta e com violência, como agora se faz aos milhares neste país em que as portas que Abril abriu já se deixaram fechar e em que as pessoas são assim despedidas e lhes chamam, depois,  a verdade do mercado de trabalho.Imagem1

Um acordo simples. Uma agência bancária, poucos recursos aí a trabalhar e o responsável de balcão era casado e a mulher não tinha emprego. Procurou-o, encontrou-o. Com um acordo. Simples, portanto. E o acordo era que ele arranjasse emprego para o filho do empregador da mulher. E assim o filho do empregador arranjou emprego, assim este meu antigo aluno encontrou o reverso do acordo, do deal[F1] , encontrou o desemprego. No país das portas que Abril abriu, as pessoas são assim despedidas e lhes chamam, depois,  a verdade do mercado de trabalho.

Depois de muitas peripécias concorre a uma grande empresa portuguesa, com sede em Lisboa. Sujeito a apertada selecção, realizada em três fases é finalmente admitido. Um contrato de 6 meses, renovável e depois entrada para os quadros. O trabalho era duro e pela parte que me toca sentia esse meu antigo aluno a crescer e muito. Como? Simples também aqui a resposta.

Muitos dos textos por mim editados passeavam-lhe pelas mãos e aos mais complicados exigia-lhe uma nota crítica para depois discutirmos. E desses textos, lembro alguns de   Fabius Maximus como por exemplo Outra maneira mais reconfortante, menos assustadora, de  olhar para o problema da dívida pública, ou de Edward Hugh, como por exemplo, Depois de a senhora gorda cantar. Lembro-me depois das discussões havidas à volta das nossas semelhanças e diferenças na leitura dos referidos textos, a sua janela para o mundo como por vezes afirmava. Mostra-me um homem já com uma maturidade a milhas de distância dos tempos em que andava na Universidade. Há cerca de 15 dias telefona-me muito contente, afirmando que o contrato lhe iria ser renovado, o que significava não apenas emprego mas ainda uma clara melhoria das condições de trabalho.

Foi há cerca de 15 dias num país em que as portas de  Abril abriu. Depois, 15 dias depois, num país em que as portas de Abril já se fecharam, recebo um telefonema. Fico sem palavras, peço-lhe a quente um pequeno texto sobre o que se passou. A quente, com a raiva e a dor na alma, recebo a descrição do que se passou. Uma hora depois deste meu antigo aluno voltar a ser enviado para o fim do destino, para o inferno do desespero, de ser enviado para o desemprego de novo, senti com a leitura do texto abaixo escrito ainda a quente e com que serenidade meu Deus que Te já não sinto, senti a brutalidade de um país em que as pessoas se despedem assim e chamam-lhe depois a verdade do mercado de trabalho.

Leio  a nota que o antigo aluno me envia. Leio e releio. Quase que não quero acreditar na violência do que leio. A realidade está ali, naquelas letras, naquelas palavras, naquelas linhas e ainda tenho no ouvido a tensão e a serenidade da voz do meu antigo aluno a dizer-me há uma hora antes: acabo de ser despedido.

E lembro um filme que uma vez projectei, Africa em Pedaços. Ouço ainda nos meus ouvidos a voz que creio  de Ismael Lô na canção Jammu Africa, como um enorme grito que enche o auditório da Faculdade e lembro a longa marcha para a miséria total de milhares de homens e mulheres com que o filme se inicia, a caminho do exílio e do nada. Milhares de homens e mulheres a caminho do inferno e em que levavam as suas poucas coisas enroladas num pano à cabeça ou num saco às costas: Os poucos haveres de toda uma vida, uma vida de nada, portanto. Impressionante. E ouço agora a voz do meu antigo aluno a dizer-me que quando sair de Lisboa passará por Coimbra para me dar um abraço. Sou um homem de poucas coisas, é fácil sair da camioneta e ir abraçá-lo e agradecer-lhe pessoalmente o seu apoio, diz-me. Uma outra longa marcha, também aqui, esta à procura de emprego, é o que o espera, um outro sítio para morar será o que deve procurar e entretanto os nossos governos, verdadeiros lacaios dos assassinos políticos que estão por Bruxelas ou Frankfurt ou algures mais, os nossos governos tudo fazem para ficarmos parecidos com aquelas milhares de pessoas que vi no filme Africa em Pedaços a caminho do inferno na terra. Uma longa marcha que outros repetirão em Espanha, em França, na Itália, na Grécia, em Chipre, na Eslovénia, na Irlanda e noutros países que se lhes seguirão. A Europa a transformar-se numa outra Africa? Talvez, com a diferença que em África a fragmentação política e económica começou nos grandes espaços, os mais ricos, aqui, começa-se pelos mais pobres, pelos países da dita periferia. E a tudo isto, chamar-lhe-ão, depois, a verdade  dos mercados.

Deveremos claramente reflectir nas palavras de John Donne: “nenhum homem é uma ilha, nenhum homem é completamente dono de si-mesmo… Nunca queira saber por quem os sinos tocam, eles tocam por si. ” Penso nelas e  sinto pois então o clique final das portas de ferro de Abril a fecharem-se, com os sinos a tocarem por cada um de nós.Relembro o poeta que nos diz que é necessário, é urgente, avisar toda a gente… de que é  tempo de as voltarmos a abrir, de novo,  as portas que outrora Abril abriu.

Júlio Marques Mota

Texto do meu antigo aluno:

“Boa noite professor,

Simplesmente lhe quero dizer que hoje fiquei triste ao saber pelo meu responsável hierárquico direto, uns escassos minutos depois de terminar o dia de trabalho na minha ex-entidade patronal (uma grande empresa em Portugal), que o meu contrato laboral não iria ser renovado e que hoje seria o meu último dia de trabalho. Fiquei ainda mais triste, muito triste por ser enviado desta forma directamente para o desemprego. Fiquei triste, estupefacto, sem chão, pois cerca de duas semanas antes o meu responsável hierárquico direto (aquando a avaliação dos colaboradores da que era a minha empresa) me tinha comunicado que estivera em reunião com o superior hierárquico dele, e que dessa reunião resultou a decisão de que me iriam dar mais uma oportunidade, ou seja, o meu contrato iria ser prolongado. Fiquei feliz, felicidade que perdurou por cerca de 2 semanas apenas. Como sabe, sou natural do interior, cerca de 450 km de distância do local aonde me encontrava a trabalhar (Lisboa – Baixa/Chiado) aproximadamente 6 horas de viagem de autocarro, em média, metade destas seis horas, eu trabalhava, dedicava-me, empenhava-me, esfolava-me todos os dias para além do meu horário laboral (7h+3h), com o objectivo de me adaptar o mais rapidamente possível ao meu novo trabalho, ser o mais eficiente possível, tornar-me num profissional capaz de responder da melhor forma aos desafios que me fossem colocados pela minha entidade patronal. Fiquei triste, por saber que depois de tanta dedicação diária, não fui reconhecido e, fui informado que iria para o desemprego uns minutos antes de sair do departamento, dos serviços centrais aonde trabalhei durante cerca de seis meses.

Hoje fiquei triste.”


 [F1]!

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