É um voto frequentemente expresso (e mais agudizado nestes tempos de austeridade imposta) que se compreende, não só como expressão óbvia de um desejo de reestabelecimento de condições de vida digna semelhantes às que se conseguiram após Abril de 74, mas também como um preito de saudade pelo clima vivido na altura, fruto das circunstâncias extraordinárias então ocorridas (e não particularmente “criadas”…).
Neste último plano, reforço (e identifico-me com) o sentimento de aguda nostalgia pelo ambiente de solidariedade activa sentido e vivido nessa data, criador de laços de amizade na construção de alternativas (muitas prenhes de utopia) para as soluções mecânicas avançadas para os problemas da sociedade de então. Foi um período indiscutivelmente épico, só frustrado progressivamente pelo oportunismo partidário de muitos e (mea/nostra culpa) pela obstinação de outros em fórmulas desligadas (sabemos hoje) da realidade existente – só assim se compreende que tenhamos embarcado acriticamente (mas também sem real envolvimento) na aventura integracionista europeia …
Chegados aqui, é viável o apelo à repetição do fenomeno historico-social acontecido há 39 anos ? Sinceramente creio que não como réplica “actualizada” do golpe militar de então e alimentarmos tal ilusão não julgo que seja de qualquer utilidade.
Reconheço ser por convicção avesso ao conceito pouco analítico de que “a História se repete“. Se é facto evidente que alguns países (ou sociedades) historicamente se encontraram em circunstâncias parcialmente análogas, por um lado é discutível se essa “repetição” é devida essencialmente à natureza desses povos e, por outro, como as situações nunca são sobreponíveis, duvido se o mais interessante e profícuo não é precisamente analisar o porquê das dissemelhanças verificadas, como sinal duma evolução sociológica (positiva ou negativa) e tentar perceber em que sentido prospectivo apontam – até para antever novos acontecimentos necessariamente (para mim) diferentes.
No nosso caso, penso que o circunstancialismo de 1974 é único e irrepetível. Nem a situação de opressão ditatorial (e colonizante) tem paralelo (ou é sentida maioritariamente como tal), nem as forças de oposição (hoje quase sem patronos externos e sem ideologia sólida), nem sobretudo as forças armadas (cuja hierarquia formal era então contestada pelos militares e milicianos politizados – versus um edifício castrense actual exclusivamente “mercenário”, com honrosas excepções) se comparam e muito menos se identificam.
Por muito que custe a muitos aceitar, não foi o “brio militar” dum exército semi-derrotado que o levou à revolta, nem paralelamente foi a capacidade revolucionária das massas de então guiadas pela sua vanguarda operária que desequilibrou as forças políticas em presença dando vantagem aos insurrectos sobre o salazar-marcelismo. Foi a circunstância muito particular e única de oficiais inferiores + milicianos politicamente conscientes terem tentado (esperavam, mas não saberiam qual o resultado certo…) utilizar a capacidade operacional ao seu alcance (fruto da prática africana) para dar expressão a um descontentamento amplo (e não só económico) perante uma situação política sem saída e historicamente condenada. Ora hoje tal não tem qualquer equivalente !…
Outra atitude (possível) será reconhecer as modificações verificadas na nossa sociedade nestes 40 anos, nacional mas também internacionalmente (e muitas foram) e identificar bem quais os elementos dinâmicos de hoje e quais as forças de bloqueio (mesmo em estruturas nominalmente vocacionadas para a mudança, até para a revolução). Sem dar o devido valor (e palavra, logo lugar) a participantes mais novos que, apesar de reconhecidamente menos imbuidos das doutrinas políticas dos seus antecessores (doutrinas que os não levaram longe, reconheça-se), tem uma largueza de perspectivas (senão mesmo uma mundivivência) claramente superior e, sem os quais, nenhuma mudança se fará – não iremos lá.
Daí a importância promissora de movimentações como as de 15 de Setembro e 2 de Março últimas !
