Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro de meu mal – o mal de que provenho.
Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.
A minha alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do Abandono, à hora do sol posto,
Quando o Azul começa a diluir-se em rastros…
E à beira dum caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus astros…
Autor de um único livro, “Fel” (2ª ed. 1916), é legível na sua poesia uma concepção decadentista e sentimental de influência “fin-de-siècle”. Neste soneto, José Duro aborda ainda o tema da mudança, da nostalgia do tempo passado rasgado pelo «trágico Desgosto».