POESIA AO AMANHECER – 189 – por Manuel Simões

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JOSÉ DURO

(1875 – 1899)

EM BUSCA…

Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,

E choro de me ver tão outro, tão mudado…

Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado

Que sofro de meu mal – o mal de que provenho.

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,

Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,

Não sei do meu amor, saúde não na tenho,

E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.

A minha alma rasgou-ma o trágico Desgosto

Nas silvas do Abandono, à hora do sol posto,

Quando o Azul começa a diluir-se em rastros…

E à beira dum caminho, até lá muito longe,

Como um mendigo só, como um sombrio monge,

Anda o meu coração em busca dos seus astros…

Autor de um único livro, “Fel” (2ª ed. 1916), é legível na sua poesia uma concepção decadentista e sentimental de influência “fin-de-siècle”. Neste soneto, José Duro aborda ainda o tema da mudança, da nostalgia do tempo passado rasgado pelo «trágico Desgosto».

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