NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 95 – por Manuela Degerine

Mafalda, a contestatária

A minha companheira de carteira chamava-se Ana mas assinava “Mafalda”. Nos tempos livres líamos uma à outra poesia-de-Álvaro-de-Campos, isto é, inspirada pelo heterónimo de Fernando Pessoa, desenrolávamos no estilo de Nathalie Sarraute o dito-não-dito das peripécias sentimentais e, no resto do tempo, que era infinito, sobrando-nos sempre um resto, dávamos pontapés ao “spleen” pelas ruas e cafés de Queluz. Ah, como as detestávamos, as – ainda belas – ruas de Queluz… Ignorávamos que aos quinze anos qualquer espaço é uma prisão. (Como aliás também o tempo.)

Tínhamos dezasseis quando fomos à Praia do Pedrógão. Na época balnear a avó da Mafalda alugava parte da casa, por isso dormíamos as três numa divisão onde havia várias camas. No rés-do-chão. Logo que chegámos, poisámos as bagagens, vestimos biquínis, demos a volta pela praia; onde fui apresentada aos amigos da minha amiga. Vários rapazes, várias raparigas.

Ali o tempo correu sem prevenir. Conversávamos. Mergulhávamos. Voltávamos a conversar. Voltávamos a mergulhar. Despedimo-nos dos companheiros na véspera da partida.

– Já?!

– Os meus pais vêm buscar-nos.

– Então vamos esta noite à Vieira!

Tanto os meus como os pais da Mafalda não autorizavam que saíssemos à noite, falar nisto era chamar a atenção, por conseguinte regressámos a casa antes da hora regulamentar. Não protestámos quando a avó declarou que chegara o momento de nos deitarmos. E não ficámos, como era costume, a murmurar na escuridão… Ouvimos por fim a respiração da senhora: levantámo-nos. Preparáramos sacos com a roupa e o calçado. Pegámos neles. Abrimos a janela. Com muito, muito cuidado… Saltámos para a rua. E fomos encontrar-nos com os nossos amigos.

(O que nos unia era a oposição aos adultos. Os pais, claro. Que tinham quarenta anos mas víamos muito velhos. Nós nunca seríamos como eles. Queríamos viver. Não: queríamos VIVER.)

Se descobrisse que fugíamos durante a noite, a menos suspeitosa das mães, isto é, a minha, ter-se-ia no mínimo inquietado. E os pais da Mafalda… Na verdade os rapazes nem na mão nos pegaram. Caminhámos na areia húmida até à Vieira. E regressámos. O padeiro estava a tirar do forno pão com chouriço: comemos pão quente. E, depois de vermos o sol nascer, voltámos a saltar pela janela.

Passava do meio-dia quando a avó nos acordou. Eram as últimas horas antes da partida.

– Não vão à praia?… Estão doentes?!

Naquela noite eu apanhara na areia uma pedra minúscula que mais tarde me acompanhou através da Europa, da Ásia, da América… Era – digamos – a pedra da liberdade. Da rebeldia. Da insubmissão. (Foi-me roubada com o bilhete de identidade em 18 de outubro de 2009 mas creio que já não precisava dela.)

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