EM 4 DE MAIO DE 1949 – A TRAGÉDIA DE SUPERGA – por Carlos Loures

Adaptação de artigo publicado no Estrolabio

A 3 de Maio de 1949, realizou-se o jogo de despedida do capitão do Benfica, Francisco Ferreira. A equipa convidada para esse jogo foi a do Torino. Era de longe a melhor equipa italiana do momento. O Benfica ganhou, vitória que não foi festejada ou só o foi durante umas horas. Quando regressavam a Turim, o Fiat  G212 que transportava a equipa do Torino Calcio chocou com a fachada da basílica de Superga, perto de Turim. A equipa, jornalistas, directores e técnicos e a tripulação, todos morreram – 31 pessoas. Foi na madrugada de 4 de Maio – fez hoje 64 anos.

  Foi ao ler a evocação desta tragédia no livro de Sílvio Castro, Um Novo Coração, que relembrei esse dia . Uma pleurisia atrasou a minha vida escolar – sabia ler desde os quatro anos, mas não pude entrar para a escola aos sete anos como era regra na época. Quando fiquei curado estava perto dos oito anos e o ano escolar ia  adiantado.

 Fui então para um colégio da Rua da Madalena, o Colégio Peninsular. Era um colégio feminino, mas a directora resolveu admitir-me. Entre dezenas de miúdas, apenas eu e um gordo. Não me sentia mal.

Em Outubro de 1948 lá entrei na Escola 44. Estava matriculado na primeira classe, mas na mesma manhã passei para a 2ª e depois para a 3ª. Os professores vendo o que sabia, foram-me chutando para cima – Deveria ter ido para a 4ª, mas havia um exame na 3ª e daí a lei já não permitiu que passasse.

Adaptei-me logo, embora as diferenças fossem abismais – menos gentileza, por dá cá aquela palha, pegava-se tudo à porrada, mas também guardo boas recordações. O Edmondo de Amicis e o seu Cuore, é considerado uma pessegada, mas li-o por essa altura e achei que retratava com algum realismo a vida nas escolas.

Jogos de berlinde, troca de cromos, e a violência com que se puniam desacatos. Em toda aquelas dezenas de apazes, haveria malucos, mas hiperactivos nem um, nem tipos com excesso de personalidade. O excesso de personalidade, ali pagava-se caro. Naquele dia de Maio, com exame e férias à vista, percorri o caminho de todos os dias, caminhando até ao Largo de Santa Justa, subindo as escadinhas da mesma santa e chegando assim à Rua da Madalena.

E naquela manhã lá trilhei esse caminho até ao cimo da rua da Madalena, pois a escola ficava quase no ponto em que a rua desce na direcção da Sé. E fui vendo rostos fechados, gente às portas dos estabelecimentos. Percebi que se passava qualquer coisa de anormal. Só quando cheguei à escola 44 soube o que se passara. É uma das recordações mais tristes das que conservo daqueles anos.

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