MINIBLOGOTEATRO – 2 – PALAVRA DE MULHER – por Rachel Gutiérrez

Publicamos hoje a segunda peça de Miniblogoteatro – Palavra de Mulher, de Rachel Gutiérrez põe em palco quatro  mulheres que usaram a palavra como utensílio de trabalho: Carmen da Silva,  escritora e psicanalista, Eneida de Moraes, uma cronista social, autora de uma obra sobre o Carnaval carioca e dois nomes que dispensam qualquer explicação, duas grandes escritoras — Clarice Lispector e Cecília Meirelles. Quatro feministas dão um espectáculo de inteligência e de subtileza em Palavra de Mulher.

Vamos então ler com atenção este texto teatral de Rachel Gutiérrez. Imagem1

Rachel Gutiérrez

Palavra de Mulher

Peça – recital em 1 ato

                              

Personagens:

Clarice Lispector
Cecília Meireles
Carmen da Silva
Eneida

Quando abre a cortina, Carmen e Eneida se encontram numa sala fechada, uma espécie de reservado de um clube que tem, ao fundo, uma grande estante cheia de livros e uma só porta à esquerda do proscênio. Na parede da direita, um modelo antigo de interfone. Poltronas confortáveis, um sofá de dois lugares e mesinhas auxiliares, (copos, um balde de gelo e uma garrafa de uísque), que compõem a decoração muito enxuta,(muita madeira e muito couro) quase “masculina”. Num canto, perto da estante, uma vitrola e discos de vinil.
Ouve-se ( no piano de Clara Sverner) a valsa Heloísa, de Chiquinha Gonzaga. E o som vai se perdendo…

As duas conversam animadamente enquanto esperam pelas outras. Carmen veste um chemisier de seda, simples e elegante, sapatos baixos; Eneida está de calças compridas, tênis de corrida e um blusão solto com 3 grandes botões, que lembram vagamente suas fantasias de Pierrô. A luz é baixa e há uma certa névoa no palco, que, pouco a pouco vai se desfazendo…

Enquanto conversam, ambas se servem de uísque. Pouco a pouco, a luz aumenta.

Eneida: É claro, acho a idéia muito boa. Quem mais você convidou?
Carmen: Cecília e Clarice.
Eneida: Ah! você não fez por menos: a poeta e a escritora ! E eu, como é que fico? Sou uma simples cronista, simples jornalista , a carnavalesca, a debochada…
Carmen: E uma extraordinária democrata, mulher sem papas na língua, não é você…a mulher que nunca topou chantagens? Eneida, acredito que elas a admiram tanto quanto eu. Você foi um exemplo de coragem! Até na doença, segundo eu soube.
Eneida: (com um suspiro)Exageraram sempre porque não me viram sozinha. Eu é que sei…Câncer não é brincadeira, minha nega!
Carmen: ( cordial) E além de tudo – modesta!
Eneida: (no mesmo tom)Com você foi de repente, não é? Fulminada durante uma conferência fora do Rio! Você estava lá no seu papel de, como você mesma dizia…..de “mulheróloga itinerante”! E me contaram que ainda falou para o médico que gravidez com certeza não era!. Você é que foi incrível, sempre com esse seu maravilhoso senso de humor . (Dá uma gargalhada)
Carmen: É. Eu estava em Volta Redonda , num auditório, falando… e senti uma violenta dor no ventre. Ainda fiquei no hospital uns 3 dias, parece. Na UTI.
Eneida: ( Com sarcasmo) A U.T.I. costuma ser o começo do túnel que vem bater aqui! Bom! Mas aqui estamos, como merecemos, na Biblioteca das Bibliotecas!…Quem é mesmo que a dirige?
Carmen: Quem você queria que dirigisse a “Biblioteca das Bibliotecas”, mulher? ( e com pronúncia portenha:) Jorge Luís Borges, por supuesto!
Eneida: Ah! mas é claro! Como é que fui esquecer! Não foi à-toa que Borges sempre disse que o Paraíso, para ele, era uma grande Biblioteca! Hum… mas … se entendi bem, você quer que a gente se reuna para falar do nosso trabalho, de tudo o que deixamos como Obra ( que palavrão!) a fim de… de quê mesmo?
Carmen: Para lembrar, simplesmente! Para não esquecer – aliás, esse é um dos lindos títulos da Clarice… Porque se algumas pessoas ainda falam em nós, já não nos lêem, não nos comentam… Então!… vamos nós mesmas falar sobre isso. Para não esquecer. Que é que você acha?
Eneida: Da Clarice falam muito! Agora virou moda até. É peça pra cá, é monólogo pra lá!…E haja biografia…E acho que Cecília é ensinada nas escolas.
Carmen: Eu sei, mas deixa eu terminar: isso não quer dizer que leiam, não lêem, não lêem! Portanto, já que no mundo dos vivos a escrita foi substituída pela imagem, vamos nós mesmas falar de nossos escritos, bolas!
Eneida: Já entendi, a escrita, l’écriture! O que fica!
Carmen: É isso aí: Scripta manent!
Eneida: Isso é que se chama gastar o latim! Mas dizem que a Clarice é muito lida em outros países.
Carmen: Com certeza! Fora do Brasil até eu sou lida…(encabula)… um pouquinho só, eu sei, mas ainda sou lida na Argentina, por exemplo. É verdade que a traduzem muito e escrevem muito sobre Clarice pelo mundo afora, só que em nosso próprio país pouca gente dá valor…como sempre!. E ela corre o risco de virar personagem de teatro – o que não é tão ruim assim… – só que antes de ter sua obra devidamente conhecida e re–conhecida!!…

Ouve-se baixinho algumas batidas à porta. Uma, duas vezes. Carmen não ouve.

Eneida: Também sou surda, mas acho que escutei. Estão batendo! (Abre a porta)

Cecília , elegante, sobriamente vestida, entra timidamente, seguida de Clarice, que veste um tailleur que lembra Chanel, mais tímida ainda.

Carmen: (adiantando-se muito alegre e receptiva) Entrem, entrem! Que bom que vieram. Eu já estava ficando ansiosa.

Eneida e Carmen, sem largar os copos, abraçam as recém-chegadas.

Eneida: ( brincalhona e arrogante) Quanta honra! Meus respeitos, senhoras!
Clarice: ( um pouco aliviada mas hesitante) Então era você, …Carmen …da Silva, sim, eu a conheço. Minha sobrinha lia tudo o que você escrevia, você foi um modelo de mulher para ela. Acho que lembro de um de seus livros: A Arte de Ser Mulher. Não é?
Carmen: (modesta) Uma coletânea de artigos que eu publicava na Revista CLAUDIA.
Eneida: Artigos, aliás, que fizeram a cabeça de muita gente. Mas Carmen escreveu dois romances também. Gostei muito de Sangue sem dono.
Carmen: (um pouco constrangida) Depois a gente fala nisso.

Enquanto falam, Eneida mostra os copos, o gelo e o uísque e vai servindo as recém chegadas, que fazem gestos indicando que só aceitam muito pouco ( Clarice) , ou apenas água (Cecília). Eneida reforça as doses dela e de Carmen.

Cecília: ( delicada, para Clarice) E por falar em “arte de ser mulher”, Clarice, você esteve num Congresso de Mulheres, não foi?
Clarice: Ah! aquilo deu tanto o que falar! Eu nem era feminista, nunca tive tempo para essas coisas, mas eu andava meio deprimida e me convidaram para um Congresso de Bruxas, em Bogotá, na Colômbia, então fui, só por curiosidade.. Participei muito pouco. Na verdade, não fiz discurso algum, mas…..oh! meu Deus! como a imprensa me incomodou o resto da vida… por causa do tal congresso !
Carmen: (brincalhona) É o preço que pagamos!
Eneida: (no mesmo tom)Então você acha que foi um erro ter se misturado com as Bruxas?
Carmen: (interrompendo): …Como diz Eneida, “errar é humano, mas como é chato!” (para Eneida) Adoro essa frase sua! (volta-se para Clarice) Quer dizer que você se arrependeu?
Clarice: (ainda hesitante)Não, não me arrependi, ao contrário, nem acho que tenha sido um erro. Se houve erro foi o de não saber me esquivar da Imprensa, depois. Na volta, tive de fazer não sei quantas declarações e cada uma ia ficando mais confusa do que a outra… Mas eu jamais quis prejudicar o trabalho das feministas!
Carmen: (num tom brincalhão, mas convicta) Nem prejudicaria. Jamais! A sua obra sozinha, minha amiga, eleva o conceito do feminino na literatura e no mundo. Sim, eu diria que à sua maneira, e talvez até sem querer , você foi uma grande feminista.
Eneida: Acho que estou entendendo. Não se precisa ser militante para ser feminista. Basta que não se seja… ( com alegre ironia) … reacionária! É como em relação ao saudoso socialismo, … não falávamos sempre em progressistas e …conservadores? Belo eufemismo!
Carmen: Exatamente! E ser a favor da mulher é ser a favor do ser humano , pois repercute no homem também! O que sempre me irrita é o machismo da língua que diz homem querendo dizer ser humano ou humanidade!
Eneida: Ih!… Isso dá pano pra manga!
Carmen: (continuando, para as outras)É como acreditar nos ideais socialistas, sim, apesar dos pesares, embora … bom! para o feminismo ainda parece haver esperança…Mas vamos ao que nos interessa! Se estivermos de acordo, é claro.

Pequena pausa.

Cecília: (educadíssima) Você tem uma proposta…
Eneida: ( desenvolta, interpondo-se entre as duas)A Carmen entrou numa crise de nostalgia, eu acho. O mundo mudou e parece que já não se lê como no nosso tempo. (Pausa)Você, Cecília, que além de grande poeta, foi educadora e divulgou a literatura brasileira por esse mundo afora, você também acha que as pessoas já não lêem como antes?(e sem deixá-la responder:) Sei que você foi a vida toda uma leitora voraz …e, se não me engano, criou até uma biblioteca infantil, não é?
Cecília: É verdade, foi em 1934, em Botafogo, no antigo Pavilhão Mourisco. Sempre acreditei que o gosto pela leitura se adquire na infância. Depois é muito mais difícil.
Carmen: Ah! se lessem os seus poemas, Cecília, os de “Ou Isto ou Aquilo”, como a infância seria mais bonita!
Clarice: Bonita e poética … como acredito que foi a nossa infância!

Ressoa, ao longe, Stances à Madame Pompadour de Déodat de Séverac. Enquanto isso, Eneida vai até a estante e apanha um livro. Abre-o e começa a ler.

Eneida:

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
Lavadeiras e passarinhos,
Ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
(pequena pausa emocionada)
Quem me compra um raio de sol ?…

Carmen: Continue, que lindo! Não diz aí E a cigarra e a sua canção?
( e mostra a si mesma, alegremente)

Eneida: (declamando )
Um lagarto entre o muro e a hera
Uma estátua de Primavera…?

Cecília: (interrompendo, com modéstia): – Foi escrito para crianças.

( Há uma leveza no ar. Continua a música de Déodat de Séverac)

Clarice: Lembro de:
Roda o luar
Na rua
Toda
Azul

Roda o aro da lua (…) a lua do aro azul … É a rua de um menino chamado Raul. Qual é a criança que não gosta de ouvir esses versos? É um livro encantador. E não é só para crianças, não!

Cecília: (para Clarice): Mas eu gosto muito é daquele seu conto sobre a menina má que fez a outra (com cumplicidade) : era você, não é?…(Clarice finge que não entende) que a fez esperar dias e dias por um livro que prometera emprestar, mas sempre dava uma desculpa e não emprestava, deixando-a com água na boca. E fez isso o quanto pôde, só de maldade, até que a mãe dela descobriu tudo e a obrigou a entregar o livro….
Carmen: E ainda disse : E você fica com o livro por quanto tempo quiser. Não é?…Era tudo o que a pobre menina podia querer!

Eneida corre à estante e apanha o livro. Entrega-o a Cecília. Esta lê:

Cecília: O título já é maravilhoso: Felicidade clandestina.
Carmen: (para Clarice) É lindo, não me canso de dizer: adoro seus títulos, Clarice.
Eneida: Leia, por favor, Cecília, leia o final, ao menos. Acho esse final incrível!

Cecília: (encontra a última página do conto e lê pausadamente) :

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Eneida: (sem se conter): E agora vem o que mais gosto!

Cecília: ( suave e sensualmente, saboreando as palavras): Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Carmen: É uma beleza! Essa paixão, essa magia toda. Os livros são isso, são amantes maravilhosos!
Eneida: E os bons não traem nem decepcionam!
Cecília: É verdade. Voltamos sempre aos bons. Haverá algo mais saboroso do que a releitura de um bom livro?

Pequena pausa.

Eneida: (para Carmen) E por falar em livros e amante, Carmen, você conta uma coisa engraçadíssima em suas memórias, sobre uma moça da livraria, que perdeu a virgindade e na semana seguinte já tinha virado prostituta. Como foi mesmo? Espere, vou pegar o livro. Estou gostando desta farra!

Mais uma vez dirige-se alegremente à estante e volta com outro livro. Agora, mostra-o à Clarice, que lê o título.

Clarice: Histórias híbridas de uma senhora de respeito! Ah! são suas memórias. E você diz que os meus títulos são bons! Esse título é ótimo!
Eneida: (animada) Uma delícia! Deixe que eu leio.

Carmen: A moça se chamava Veneza e tinha sido uma excelente vendedora de livros…
Eneida: (começa a ler)

Aquele dia, uma explosão sacudiu a cidade: comentários que chegavam muito fragmentados e sibilinos a meus ouvidos adolescentes, que era preciso preservar, davam conta de que Veneza participara de uma farra (exatamente como fora, ninguém sabia ao certo) com os alegres rapazes no famoso cabaré/bordel da Mangacha, o único existente nos arredores da cidade.

Carmen: (um tanto encabulada, aproxima-se de Eneida e mostra um parágrafo mais abaixo.) Não precisa ler tudo, Eneida, continue daqui.

Eneida:
… Dias mais tarde, eis que me cruzo com ela na rua – e não acredito no que vejo.
Era uma transformação de letra de tango: “Estercita, que hoy la llaman milonguita.” As roupas modestas e apagadas da moça que “gambeteaba la pobreza”

Clarice: Que quer dizer “gambeteaba”?
Carmen: Alardeava, afetava.
Clarice: (Sonhadora)Gostei muito dessa palavra, tem som de clarim.

Eneida: (pigarreando para continuar) Então as roupas pobres …

tinham sido substituídas por um vestido curto e justíssimo que, naquela época, nenhuma mulher “decente” usaria. Enviesada nos ombros, uma estola de falsa raposa que os entendidos chamavam de “renard gambé”. Uma grossa camada de maquilagem berrante alterava-lhe a fisionomia: a beleza anódina de antes dera lugar a um esplendor canalha. Caminhava sobre saltos altíssimos, rebolando o traseiro numa provocação vulgar. Enfim: a caracterização mais completa, acabada e teatral da prostituta. Só faltava o cartaz na testa: “É isso aí, gente, emputeci.” Dá uma gargalhada.

Cecília: (sorrindo apenas) É engraçado mas também é triste.
Eneida: Claro! Mas o estilo da Carmen é que é uma delícia.
Cecília: Ah! sem dúvida. Que grande narradora. Esse tom coloquial, livre, me lembra um escritor francês: Celine!.
Carmen: Cruz credo! Mas eu não tenho nem nunca tive nada de simpatizante do nazismo.
Eneida: Todas sabemos disso! Nem estaríamos aqui, ora!
Cecília faz um gesto de desalento.
Carmen: (conciliadora) Eu sei que Cecília não quis dizer nada disso. (E com ironia) Precisamos admitir que “o espírito sopra onde quer” e às vezes um canalha mau-caráter pode ser um escritor estupendo! Ou um bom-caráter bem intencionado ser um escritor de merda. (Leva a mão à boca, olhando de soslaio para Cecília)
Clarice: (para Eneida) Continue mais um pouco, por favor!
Eneida: (com graça) Avec plaisir, Madame! (pigarreia e recomeça)

Viu-me, disfarçou, desviou o rosto. A moça que me vendera Os Buddenbrook e o controvertido Fronteira Agreste, que me chamava quando eu passava distraída pela rua para oferecer-me o último Huxley ou o Pirandello que a editora Globo acabava de lançar, perdera daí por diante o direito de olhar nos olhos e de cumprimentar qualquer moça de família, senhora casada ou senhor de respeito da mui nobre e digna sociedade riograndina. Mesmo os senhores de respeito que à sorrelfa, haviam passado a engrossar seu círculo de relações depois da queda.

Carmen a faz parar com um gesto.

Cecília: É muito bom! E pensar que era assim mesmo…

Clarice se aproxima da vitrola e mexe nos discos. Eneida vai ao seu encontro e cochicha-lhe alguma coisa. Põem um disco. Ouvem-se logo os compassos de El Choclo. Carmen vibra e se anima. Começa a dançar, primeiro sozinha, mas como se guiasse alguém e, depois, com Eneida, que, rindo muito, deixa-se conduzir.

Cecília e Clarice apreciam, aplaudem, mas não dançam. Carmen então puxa Eneida até a estante, pega um livro e o entrega a ela.

Carmen: Agora é a sua vez! Você também escreveu memórias. Memórias que não falam só de você, como as minhas. Falam da sua terra, da sua gente. E o título não pode ser mais paraense: Banho de Cheiro! Acho que os títulos femininos têm um sabor diferente…

Clarice adianta-se, toma-lhe o livro das mãos e diz:

Clarice: E agora é a minha vez de ler. ( Abre o livro ao acaso e sorri) Ah! que coincidência! É justamente sobre a palavra amante. Ouçam!

Tive durante alguns anos, um certo namoro com algumas palavras e uma inimizade marcante, profundo rancor a outras. Amante sempre foi, para mim, mesmo antes de conhecer-lhe claramente o significado, uma palavra belíssima. Por que um homem ou uma mulher que se amam não usam a palavra para apresentar um ou outro a conhecidos?
– Esta é minha amante, fulana.
Pensava assim naturalmente antes de conhecer os preconceitos sociais e toda a hipocrisia dominante na sociedade em que vivemos. Outras jamais usava: pedante, por exemplo. Confesso até hoje horror a certas palavras. Nunca, jamais – e aqui o faço pela primeira vez – escrevi ou pronunciei a palavra óbvio. ( Eneida faz uma careta) Quando outros a empregam junto a mim, sinto um certo nojo.

Todas concordam e riem. Pequena pausa.

Cecília: É porque sua alma é de poeta. Aliás, nós todas…..
Eneida: Qual o quê, Cecília! A poeta é você!.
Clarice: Mas você começou publicando versos…
Eneida: Versos brancos, que de tão brancos se apagaram, se esfumaram! Coisas da juventude. Vocação de poeta é outra coisa – sim, poeta e não poetiza. ( E dirigindo-se à Cecília: ) Também não gosto da palavra poetiza. E a propósito….. diga o seu poema, por favor!

Cecília: Você se refere ao Motivo, eu acho. (Anima-se e recita.)

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

Clarice: Lindíssimo!

Carmen: Mas você vai me perdoar uma coisa: não acho que precise estar no masculino – irmão das coisas fugidias. E depois: E um dia sei que estarei mudo. Não estou criticando a poeta, só lamentando um pouco a mulher que teve de se esconder atrás de uma máscara masculina!
Cecília: Acho que ainda era muito nova. Esses versos foram escritos antes de 1929! Nem todas fomos sempre corajosas como você e Eneida.
Eneida: Mas exatamente o que a gente gosta é que seja uma mulher a dizer: sou poeta. Ah!…( para Carmen) Deixa pra lá!
Carmen: É. Pensando bem, não é isso que vai tornar a sua poesia menos feminina. Que além de feminina….. e é por ser feminina que é grande! Houve um tempo em que pensávamos que uma escritora ou poeta era boa ou grande apesar de ser mulher, agora já não é assim…E, convenhamos, há escritores homens…

Eneida a interrompe de dedo em riste:

Eneida: Carmen, esta não é uma reunião feminista!
Carmen: Mas eu não estou falando como feminista, (mais alto:)…aliás, acho que estou, sim, porque afinal não há hora para se ser feminista, quando se é, é pra sempre! É uma tomada de consciência da realidade psicológica e social. Definitiva e irreversível. E a transformação dessa realidade não está embutida na chamada “luta maior” do socialismo, não, (cada vez mais exaltada) não se trata de uma “luta menor”, como vocês sempre acreditaram! Só que ( dá de ombros)…ora, está bem, (acalmando-se)…não vou discutir…

Eneida ergue-se para responder mas olha para as outras e também se acalma.

Eneida: É. Houve tempo em que quase nos engalfinhávamos por causa disso. Mas aqui… no Paraíso… não há mais clima para brigas…
Carmen: Você sabe que apesar de eu não ter ido para a cadeia, como você, sempre estivemos do mesmo lado, não é?( E abre largamente o braço esquerdo.
Eneida começa a cantar a Marselhesa e se dá conta do engano:

Eneida: Não era isso que eu queria cantar, era a “Internacional”.

Canta um pouco. Ouve-se a seguir um Noturno para Orquestra, de Debussy: “Sereias”.
Elas ficam pensativas.

Cecília: Por falar em palavras no masculino e no feminino, Clarice diz que a rosa não é it, é ela. Lembram?
Carmen: Sim, isso está em Água Viva, lembro até a altura da página…

Vai à estante, pega o livro e o abre, vira algumas folhas e encontra o trecho.

Carmen: (Lendo:)

Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas têm gosto bom na boca – é só experimentar. Mas rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sensualidade. As brancas são a paz do Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosas brancas. As amarelas são de um alarme alegre. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são produtos de enxerto e são sexualmente atraentes.

Cecília: E agora vem uma frase muito densa…

Carmen: (continuando, enfática:) Preste atenção e é um favor: estou convidando você para mudar-se para reino novo.

Eneida: Como anda triste a humanidade quando é preciso chamar de reino novo o reino maravilhoso das flores!
Cecília: Mas há também o reino novo da palavra de Clarice. Essa frase lembra um verso famoso de Rilke: Força é mudares de vida.(Carinhosa, volta-se para Clarice) Sua palavra , além de tudo, também é flor e esplendor de flor!
Carmen: ( que virou uma página) E este trecho é para você, Eneida:

Tenho que interromper porque – Eu não disse? eu não disse que um dia ia me acontecer uma coisa? Pois aconteceu agora mesmo. Um homem chamado João falou comigo pelo telefone. Ele se criou no profundo da Amazônia. E diz que lá corre a lenda de uma planta que fala. Chama-se tajá. E dizem que sendo mistificada de um modo ritualista pelos indígenas, ela eventualmente diz uma palavra. João me contou uma coisa que não tem explicação: uma vez entrou tarde da noite em casa e quando estava passando pelo corredor onde estava a planta ouviu a palavra “João”. Então pensou que era sua mãe o chamando e respondeu: já vou. Subiu mas encontrou a mãe e o pai ressonando profundamente.

Cecília: É poético e mágico. Não precisa das claridades da lógica. Quando criança, tive uma pagem que me contava histórias do Saci e da Mula-sem-Cabeça com a maior convicção. A poesia faz parte da vida. (Para Clarice:) Seus pequenos relatos, como esse, se parecem muito com você, com o mistério do seu olhar. São como espelhos que a refletem.
Carmen: ( que continua folheando Água Viva ) Ah! Espelho, justamente!.. O mistério do espelho.Ouçam!

Espelho? Esse vazio cristalizado que tem dentro de si espaço para se ir para sempre em frente sem parar: pois espelho é o espaço mais fundo que existe.

Eneida: ( falando consigo mesma) E fala-se na superfície dos espelhos…

Carmen: ( um pouco mais alto) E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. Ver-se a si mesmo é extraordinário. Como um gato de dorso arrepiado, arrepio-me diante de mim. Do deserto também voltaria vazia, iluminada e translúcida, e com o mesmo silêncio vibrante de um espelho.

Cecília: ( sonhadora) Também é misterioso o silêncio dos gatos. Um poeta disse que o gato aumenta o silêncio da sala.
Eneida: Quem é louca por gatos, como eu, é a Carmen.
Cecília: Acho que todas as pessoas sensíveis gostam deles. Você teve foi um cachorro, chamado Ulisses,(voltando-se, mais à vontade) não é, Clarice?
Clarice: Sim, foi um grande e querido amigo! (reverente) Mas …por falar no poeta, sua tradução do “Porta Estandarte” , isto é, da “ Canção de Amor e de Morte…
Carmen: ( completando) …do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke”, da minha saudosa Editora Globo, de Porto Alegre. ( e recita:)

“ E a coragem tornou-se tão lassa e a saudade tão grande…”

Clarice: Tradução maravilhosa!
Eneida: ( quase ao mesmo tempo, para Carmen:) Que memória, hein! Mas, (voltando-se para Cecília: ) …você poderia dizer um poema sobre o espelho. Uma coisa puxa a outra, esta conversa está fantástica!
Clarice: ( mais solta) É mesmo, Carmen, foi uma boa idéia!

Cecília: Só se for um muito antigo. O Retrato.
(como se visse seu rosto num espelho imaginário)

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim magro
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida a minha face?

Eneida: Ah! esse espelho, nós todas conhecemos bem. Chama-se Tempo!

Pequena Pausa. Música ao longe: Acordes tristes do último quarteto de Fauré.

Clarice: Vamos deixar esse assunto para mais tarde. Eu gostaria muito de saber sobre a prisão de Eneida, que pagou um preço alto por suas convicções. Você fala nisso em Banho de Cheiro?
Carmen: Fala, sim. E entre outros companheiros, Eneida teve Olga Prestes , Graciliano Ramos e Nise da Silveira. (Pega o livro e o entrega à Clarice.)
Eneida: (para Clarice, com uma reverência) Vous me flattez, Madame!
Clarice: Não é lisonja, não. Sempre respeitei e admirei a coragem!
Carmen: (para Clarice). E eu me lembro de uma foto sua na Passeata dos Cem Mil!…Você foi uma autêntica líder daquela resistência nossa. (mudando de tom:) Bom, há um trecho neste livro de Eneida, que é de 1962, vejam só, em que ela descreve a tortura nas prisões do final dos anos 30 e ninguém podia imaginar que menos de trinta anos depois, a partir de 64, a “Gloriosa” ia tratar seus oponentes com requintes de crueldade ainda mais terríveis! (Mostra o trecho à Clarice)

Clarice: (lendo:)

Como esquecer os sombrios, os negros, os trágicos dias de 1935, 36, 37? Dentro da noite, vozes angustiosas pediam água, gritos lancinantes cortavam as madrugadas. No corpo de um marinheiro a polícia desenhou uma estrela-do-mar e cortou-a em sua pele, a canivete.
Impressionante o sadismo policial: óculos de míopes eram quebrados e esmigalhados com os pés; arrancavam unhas e dentes sãos; na Polícia Central a ordem era não dormir de noite – principalmente as mulheres – ameaçadas sempre de ter o xadrez invadido por monstros capazes de todas as infâmias.

Cecília se afasta horrorizada. Carmen percebe e muda de tom.

Carmen: Ah! mas há também a história comovente de uma jovem prostituta de Belém… Deixe-me ver onde está.
Eneida: Mas é muito longa, Carmen! Cá pra nós, não vamos perder muito tempo comigo, estamos diante de duas deusas!
Carmen: Não seja boba!… A … Palavra pode ter…florescido melhor nelas ou com elas, mas também é o nosso terreno, a nossa praia, ora!.
Clarice: (conciliadora) E eu como você, Eneida, também escrevi crônicas para os jornais….
Carmen: O que eu queria era ler, aqui, neste livro da Eneida, o relato sobre uma jovem prostituta de Belém. Acho que faz um contraponto interessante com a história da coitada da Veneza, a minha livreira emputecida. E até consola um pouco porque mostra que nem tudo são tristezas nessa área.

(Pega, delicamente, o livro das mãos de Clarice e começa a ler:)

Na pensaõ de Anita…

Eneida: (interrompe-a para explicar) Essa é uma história roubada! Foi uma história que ouvi numa mesa de bar e resolvi contar. Sobre Anita, a dona de um bordel e o que ela fez para salvar uma de suas… como que se chama isso? Acho que é uma de suas pupilas, ou protegidas, sei lá!.

Carmen: Funcionárias?
(recomeçando) :

Na pensão de Anita vivia uma moça, caboclinha bonita, corpo esbelto, riso de dentes claros, com aqueles olhos, aquela pele, aqueles cabelos que marcam o tipo da paraense. Cultivava ela uma verdadeira mania, dessas que perseguem certas criaturas, das quais elas não podem fugir ou desviar-se: só amava – e com loucura – marinheiros.

Eneida: (meio encabulada e impaciente) Deixa eu continuar, Carmen, vou ler só o essencial.
Carmen faz uma careta, mas entrega-lhe o livro.

Eneida: (continuando) :

… Tão intenso o movimento de navios chegando e navios partindo que a caboclinha não tinha tempo sequer de olhar os homens da terra, os conterrâneos presos, como ela, às mangueiras da cidade, ao tacacá, ao açaí, ao Ver-o-Peso.

( Tenta resumir:)Em suma, ela adoeceu. Pensaram no início que era uma gripe qualquer, mas houve complicações e ela foi parar no hospital. Tratamento caro!Anita recorreu aos clientes habituais quando seu próprio dinheiro acabou. Quando já não tinha mais a quem recorrer…

Carmen: (tomando-lhe o livro outra vez, lê:)

…Lembrou-se então dos marinheiros. Por que não? Valia a pena interessá-los na salvação da caboclinha. Afinal, não tinham sido por ela intensamente amados? Não se tinham encantado com a cor morena rosada de sua pele, com o amendoado de seus olhos tão negros quanto seus cabelos? Procurou entre os guardados da moça um livro de endereços. (…) pois que ela jamais deixaria de saber onde moravam seus marinheiros.
Encontrou-o afinal e agora, como escrever-lhes, se conhecia apenas português brasileiro do Pará? Convocou os amigos mais ilustres da casa. Que eles escrevessem em francês, inglês, alemão, italiano, estas frases “ Fulana muito doente, mande dinheiro.” Depois copiou-os com sua letra, assinou seu nome, serviu-se dos endereços…

Eneida: (nervosa) Acho que já deu para entender, Carmen!

Carmen: Tempo é o que não nos falta, Eneida. Deixe-me ler até o fim, por favor!

Carmen: (calmamente):

Começaram a chegar cheques e mais cheques: libras, dólares, francos, pesetas, liras, dracmas. Todas as moedas do mundo correndo para salvar a vida da caboclinha enquanto ela, tão pálida, sem saber de nada, lutava contra a morte.
Todas as moedas, os mais variados dinheiros do mundo colaboraram para a volta da caboclinha à saúde.

Eneida faz um gesto indicando que já chega. Pequena pausa. Música de Déodat de Séverac : 1ª peça de “En vacances”.

Clarice: Parece um filme de Capra!
Carmen : É mesmo! Como A Felicidade não se compra!
Cecília: As boas histórias se tocam…

Clarice: Cecília, falando de amores…

Ouve-se , ao longe, um trecho de Que reste-t-il de nos amours? na voz de Charles Trenet.

Cecília : (lenta e pensativamente, caminhando pela sala:)

Longe, meus amores,
tranqüila, guardei-os.
Às vezes, me ocorre:
serão meus, ou alheios?

( A rosa em seu ramo,
o ouro, nos seus veios:
– quem é dono certo,
dono e sem receios?)

Ah! belos amores,
sem fins e sem meios…
Hei de amar-vos menos,
por serdes alheios?

Guardei meus amores.
Perdi-os? Salvei-os?
– Minhas mãos vazias.
E meus olhos, cheios.

Mais doce é o deserto,
para os meus recreios.
Em tempo de morte,
que importam amores,
nossos ou alheios?

Carmen: (com animação) A respeito de amores, Eneida diz uma coisa que eu acho ótima. Ó, como estávamos longe do mau-gosto escatológico de hoje-em-dia.! (Para Eneida: ) Você, debochada? Você foi discretíssima! Muito mais do que eu. Vejam só! (Pega o livro de Eneida e lê: )

…conto de minha vida o que quero contar; coisas que possam interessar aos demais, aquelas que julgo de algum modo importantes, já que para mim foram importantíssimas. Não contarei amores, porque o amor é um jogo de dois e não quero, de jeito nenhum, ferir meus ex-parceiros, todos ótimas pessoas.

( Eneida está mexendo em outros livros. Carmen exclama:)

Carmen: Que lição, hein? E aqui estamos diante de grandes damas que também tiveram muitos amores. Cecília, com sua beleza de estátua grega despertou grandes paixões, que eu sei…e em gente importante…
Eneida: E segundo eu soube, Clarice, com essa beleza misteriosa e esses olhos oblíquos e felinos também não ficou atrás… Deve ter partido muitos corações ! (Provocante:) Não é mesmo, Clarice?
Clarice: (após um silêncio, sem graça:) Prefiro não falar nisso, nem pensar nisso. Sempre gostei de me mover no mistério…

Pequena pausa.

Cecília: (tentando mudar de assunto, para Clarice:) Você, que foi mulher de diplomata, viveu no exterior muito tempo?
Clarice: (aliviada:)Mais do que o suficiente! Oh! A monotonia de certas cidades! Berna, por exemplo!
Cecília: Engraçado. Achei Berna aconchegante. Mas é verdade que não precisei morar lá.
Carmen: Clarice gosta é do Rio. Como todas nós.
Eneida: Podemos voltar ao nosso assunto? Já vi que elas não são de confidências. Mas quando é ficção, uma artista pode se expandir à vontade, ser original, como a própria Clarice que, em seu Livro dos Prazeres, eleva o amor aos píncaros dessa experiência!

Pequena pausa.

Cecília: ( com um livro que também retirou da estante) Este é um outro, de Clarice :A maçã no escuro. Aqui, por exemplo, ela escreve sobre a importância da experiência e lhe dá um novo sentido. Quem está falando é o narrador… Martim. (Lê:)

Consegui a experiência, que é essa coisa para a qual a gente nasce; e a profunda liberdade está na experiência. Mas experimentar o quê? É verdade que a maior parte do modo de experimentar vem com dor, mas também é verdade que esse é o modo inescapável de se atingir o único ponto máximo, e cada coisa tem uma vez, e depois nos preparamos para a outra vez que será a primeira vez, – e se tudo isso é confuso, nisso tudo somos inteiramente amparados pelo que somos, nós que somos o desejo.

Carmen: Olha aí , Clarice, como você está próxima do nosso querido Octavio Paz! Ele também disse que o nome do homem – do ser-humano, é claro – é desejo! O nome do homem é desejo! Você leu muito Octavio Paz?
Clarice: (distraída) Não lembro.
Eneida: Espere um momento, você também foi uma leitora voraz, como Cecília!
Carmen: Como todas nós, Eneida! Aliás, a prova de que Clarice lia muito, e desde cedo, já está no título do seu primeiro livro, escrito, se não me engano, aos 19 anos. Porque todas sabemos que o título – “Perto do Coração Selvagem”- é puro Joyce! Ou não é?
(Clarice limita-se a sorrir)
Eneida: Mas eu estou procurando aquele encontro belíssimo entre Lóri e Ulisses, no Livro dos Prazeres. É incrível como Clarice descreve o estado de graça de uma mulher apaixonada. Sim, pois eu acho que é por causa da paixão que ela entra naquele estado de graça, não é? (procura uma passagem e lê:)

No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo o que existe – pessoa ou coisa – respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.

Clarice: Mas ela não pode ficar muito tempo nesse estado…
Cecília: Finíssimo resplendor de energia! É muito bonito!. … é o encontro com nossas dimensões mais altas.
Carmen: (sarcástica)Agora parece que andam se encontrando é com o que há de mais raso e mais grosso…

Eneida : (continuando a leitura, a partir de indicações de Clarice: )

Não, nem que dependesse de Lóri, ela não quereria com muita freqüência o estado de graça. Seria como cair num vício, iria atraí-la como um vício, ela se tornaria contemplativa como os tomadores de ópio.

(Clarice aponta um trecho mais adiante e Eneida continua:)

Lóri saiu do estado de graça com o rosto liso, os olhos abertos e pensativos e, embora não tivesse sorrido, era como se o corpo todo acabasse de sair de um sorriso suave. (Pequena pausa)E saíra melhor criatura do que entrara.

Cecília: (aproximando-se e mostrando um trecho, páginas adiante, para Eneida: ) Mas é aqui, depois do amor, que acho mais bonito ainda.

Eneida: (lê: )

…Estendeu o braço no escuro e no escuro sua mão tocou no peito nu do homem adormecido: ela assim o criava pela sua própria mão e fazia com que esta para sempre guardasse na pele a gravação de viver. “Deus”, pensou ela, “então era isto o que parecias me prometer”. E seus olhos se fecharam num semi-sono, numa semivigília pois ela vigiava o sono de seu grande amante.
Foi nesse estado sonho-vislumbre que ela sonhou vendo que a fruta do mundo era dela. Ou se não era, que acabara de tocá-la. Era uma fruta enorme, escarlate e pesada que ficava suspensa no espaço escuro, brilhando de uma quase luz de ouro. E que no ar mesmo ela encostava a boca na fruta e conseguia mordê-la, deixando-a no entanto inteira, tremeluzindo no espaço. Pois assim era com Ulisses: eles se haviam possuído além do que parecia ser possível e permitido, e no entanto ele e ela estavam inteiros. A fruta estava inteira, sim, embora dentro da boca sentisse como coisa viva a comida da terra. Era terra santa porque era a única em que um ser humano podia ao amar dizer: eu sou tua e tu és meu, e nós é um.

Música sereníssima: início do IV movimento da 9ª de Mahler.

Carmen: Esse é amor dos grandes. Tipo Abelardo e Heloísa…
Eneida: Você mesma conheceu um amor assim!. E apesar de ter feito um relato num tom jocoso, sei que a paixão foi grande!
Carmen: É, mas estamos em desvantagem. Nossos livros aqui são só os de memórias. E nossas amigas têm ficção e poesia…
Eneida: Literatura! Eu sei, l’écriture! A gente sabe a diferença! Ninguém está comparando, ora bolas!Você mesma não disse? Vá lá, Carmen, para espairecer, leia a sua entrada no estado de graça da paixão, leia. Leia-nos (com malícia) aquela sua confissão vergonhosa!. (Entrega-lhe o livro.)

Começa o tango Nostalgias…que vai acompanhar toda a narrativa de Carmen.

Carmen: (relutante, ajeitando-se numa poltrona)

Foi um episódio bonito, doloroso e com laivos de ridículo. Recém-saída, como pão de forno, do divã analítico, eu me apaixonara pelo homem errado. Casado e… bem, casado e… vamos Carmen, coragem: um, dois, três, aí vai: casado e militar.

Eneida dá uma gargalhada.

Carmen: Nunca me acontecera nada semelhante. (Confidencial)Eu trabalhava na embaixada…Ele tinha vindo visitar meu chefe e o contínuo o fez entrar em minha sala… ( e com muita graça) E naquele mesmo instante, coup-de-foudre, … ou coup-d’État – enfim, todos os golpes possíveis e imagináveis me sacudiram de cima a baixo, num segundo só. Meu coração parou, depois pôs-se a bater sem ritmo à altura do fígado que, por sua vez começou a pulsar na cabeça, as mãos gelaram, o diafragma subiu à garganta numa pressão sufocante, os joelhos obedeceram à regra número um das paixões fulminantes e viraram gelatina. Quando ele se apresentou, nome e posto, ainda fiz uma tentativa de recolocar as vísceras em seus respectivos lugares e recuperar a consciência normal de ossos e músculos. Qual o quê: tarde demais, era como o esperneio e os bracejos do afogado que já tem os pulmões cheios d’água.
Eu os tinha cheios de amor, respirava amor, transpirava amor, me afogava de amor.

Eneida: Viu? Foi ou não foi um estado de graça?

Cecília e Clarice, divertidas, fazem sinais para que Carmen continue.

Cecília: Leia um pouco mais, por favor!

Carmen: (lendo) Disse “o homem errado” mas fui injusta. Erradas eram as circunstâncias, o homem – limando uma ou outra aspereza – era certíssimo, e os trinta e oito dias – como se vê, contados nos dedos – que passamos juntos figuram entre os mais deslumbrantes de muitos anos de existência. Buenos Aires ficou mais bela que Paris, mais borbulhante que Veneza, mais luminosa que Atenas, mais dourada que Moscou sob a luz noturna, Buenos Aires encheu-se de pássaros e flores e fontes e cantos, aquela cidade transformada em síntese de todas as belezas do universo me viu caminhar meio metro acima do solo e com uma auréola azul sobre a cabeça.

Eneida: Uma beleza! Saiba que o seu humor também tem poesia… e graça…
Clarice: É claro que tem!
Cecília: Certamente!

Continua a soar distante o tango… que vai parando. Silêncio.

Clarice: (depois de um longo suspiro) Ama-se tanto e de tantas maneiras!(Pequena pausa. Para Cecília) Você sabe que sempre chorei ao ler seus poemas da Elegia.?

Eneida pega logo o livro.

A música é o segundo movimento do último quarteto de Fauré.

Carmen: Se não me engano, À memória de Jacinta Garcia Benevides , que Cecília muito amou…
Cecília: (orgulhosa) Minha avó!Foi a mãe que tive.
Eneida passa o livro para Cecília que lê:

Cecília:

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.

No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.

Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua.

Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras,
e a voz dos pássaros e a das águas correr,
– sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.

Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?

Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho.
E tristemente te procurava.

Mas também isso foi inútil, como tudo mais.

Pequeno silêncio.

Clarice: É como se tivesse sido escrito especialmente sobre a minha primeira perda. No meu caso, foi minha mãe…
Carmen: (que também se emocionou)A poesia de Cecília é assim, deixa a gente engasgada…
Eneida: (pela primeira vez séria) E fala por todos nós…
Clarice: E o último poema … o mais pungente!
Cecília: (recita suave e meditativamente:)

E hoje era o teu dia de festa!
Meu presente é buscar-te.
Não para vires comigo:
para te encontrares com os que, antes de mim,
vieste buscar outrora.
Com menos palavras, apenas.
Com o mesmo número de lágrimas.
Foi lição tua chorar pouco,
para sofrer mais.

(com intensidade:)
Aprendi-a demasiadamente.
Aqui estamos, hoje.
Com este dia grave, de sol velado.
De calor silencioso.
Todas as estátuas ardendo.
As folhas sem um tremor.

Não tens fala, nem movimento nem corpo.
E eu te reconheço.

Ah! mas a mim, a mim,
quem sabe se me poderás reconhecer!

Pausa. Silêncio denso. Eneida e Carmen se servem de mais um uísque. E oferecem a Clarice, que aceita também. Cecília não quer nada.

Cecília : ( querendo sair da “berlinda”) Eneida, leia agora, por favor, aquela cena do livro de memórias da Carmen, em que ela conta como suas tias e sua mãe, que eram …francesas, se não me engano, receberam a notícia da ocupação…

Música de Messiaen: Quarteto para o Fim dos Tempos: 2. Vocalise, pour l’Ange qui annonce la fin du temps.

Carmen: Eram filhas de franceses.
Eneida: ( quase junto com Clarice) A notícia do rádio!
Clarice: … Sim!…quando o rádio anunciou a queda da França e a ocupação nazista. (Arrepia-se e diz para Carmen:) Também me comoveu muito esse trecho do seu livro.
Carmen: (Faz sim com a cabeça e exclama, dramática: ) Era mil novecentos e quarenta!!

Eneida passa delicadamente o livro para Carmen que, após procurar por onde começar, lê:

Um vento gelado castigava o Rio Grande e as pessoas se enfiavam em casa, apertadinhas umas contra as outras como uma ninhada de bichinhos friorentos, um pouco por causa do vento gelado que soprava lá fora, outro pouco pelo punho de gelo que apertava o coração de cada um. Os rádios de então eram enormes monstrengos numa armação de madeira em forma de catedral, …

Eneida: Eram os famosos “capela”!

Carmen:
… com uma espécie de janelinha de tela de trama frouxa na parte da frente por onde saía uma voz roufenha. E a voz roufenha dizia coisas de machucar a alma.
Mamãe e minhas tias estavam de pé junto ao rádio. Haviam-se levantado as três de repente, num movimento uníssono, como se sua verticalidade devesse de algum modo compensar a indignidade do que acabavam de ouvir: a claudicação de Pétain, a queda, o desastre, a idéia da França agachada para não se deixar esmagar. Altas, esguias, as costas muito retas, estavam de pé e choravam sem mover um só músculo da face, as lágrimas rolando devagar…
(Interrompe-se para finalizar quase secamente: ) … sem um som, também da rua não vinha qualquer ruído, aquela noite o Rio Grande era uma cidade morta.

Silêncio que Eneida, agora sim, preenche com alguns sons da Marselhesa bocca chiusa. Cecília, Clarice e Eneida estão em pé e suas três sombras esguias se projetam no fundo do palco.

Carmen: Para variar, alguma coisa da Eneida…
Eneida: Não, senhora! Eu queria ouvir mais Clarice, acho que só agora estou compreendendo melhor a sua … Arte.
Carmen: Espera um pouco. Temos muito tempo. (Eneida resmunga…) Não amola!

Eneida, mal-conformada, oferece-lhe uísque, mas verifica que a garrafa está vazia. Carmen, então, vai até o interfone perto da estante.

Carmen : (no interfone:) Estamos sem uísque. Podem mandar outra garrafa?… Está bem, obrigada.

Quase instantaneamente batem à porta. Clarice, a única que ouviu, avisa Carmen, que vai à porta, recebe a garrafa, agradece e volta-se para as outras, alegremente:

Carmen: Paraíso é isso! … Paraíso atualisado: em vez de hidromel ou néctar dos deuses, o bom scotch, e à vontade!
Eneida: (solta uma gargalhada) E sem o menor risco de ressaca ou de cirrose!

Carmen, depois de reabastecer Eneida e a si mesma, vai até a estante e volta com um outro livro.

Carmen: Dá licença, então, Eneida. Vamos ouvir primeiro umas coisas lindas que você escreveu sobre o saudoso Carnaval. Quando Carnaval era folia, folguedo… no tempo em que o povo virava criança e brincava na rua!
Clarice: Isso mesmo: folia, folguedo! Palavras lindas! E no Recife havia o “entrudo”…
Cecília: E o frevo! (e para Eneida, com simpatia) É a sua história do Carnaval!
Eneida: Do Carnaval Carioca! Sem maiores pretensões…Meu livro quis apenas ser o primeiro, o mais modesto, como eu digo na Introdução.

Eneida dá as costas ao público, chega perto da estante, coloca uma gola de palhaço e, sobre os botões de seu blusão: 3 enormes pompons. Permanecerá com esses adereços até o fim.

Carmen: Deixe de ser modesta, Eneida, nesse livro você foi muito além da crônica, você foi historiadora.
Clarice: Você pesquisou muito?

Eneida: (Pega o livro e lê:)

Durante onze meses pesquisei diariamente na Biblioteca Nacional em velhos jornais e velhos livros o que foram os nossos carnavais; consultei aqui e ali pessoas conhecedoras do assunto, (…) conhecedoras das folias de Momo. Conversei com velhos carnavalescos, ouvi gente do passado… Vi arquivos de clubes…

Carmen: Você estudou os cordões, os blocos, os ranchos, tudo…
Cecília: E também fala na evolução da linguagem dos carnavalescos antigos.
Eneida: (animada) Ah! descobri palavras e expressões engraçadíssimas. Deixe-me ver… No início do século passado, quer dizer, retrasado…(lê)

As festas … tinham nomes estapafúrdios. Os clubes não convidavam para almoços ou feijoadas simplesmente, mas sim para netúnicas peixadas, feijoadas kolossais ( com K) anti-derrotativos bailes.
Os Tenentes, ( grupo famoso!) em 1911, convidavam as folionas para repimponético baile, extra regobodéfico cozido ou ainda psicométrico baile. E nos convites impressos havia frases assim:
“para confirmações das róseas devassas carnavalescas, ainda ocultas”…Cheguei até a comentar aqui: Convenhamos que era demasiadamente pretensiosa a linguagem da época. (Procura um trecho adiante) A linguagem empolada começa a se modificar em 1930.
Ah! e havia quadrinhas também! Vejam, esta aqui, que vem de muito longe: é de 1888, ano da Abolição!

Quem quer que em tempo de riso
Ao riso não se entregue
Vá pedir a Deus que o mate
Peça ao Diabo que o carregue!

Carmen: E você bem que concorda com essa quadra !
Eneida: Sim !é claro. Detesto gente que não sabe se divertir. Gilberto Amado disse que desconfiava de quem, podendo, não ia à praia. E Graham Greene disse que “a humanidade está toda dois uísques abaixo”. Pois eu aqui digo o que penso para os babacas que torcem o nariz para o Carnaval… (Lê:)

Os pessimistas, os saudosistas, são homens que sofrem do fígado. Quer gente pior? (com raiva) Não há nada pior!

Carmen: O Carnaval era o momento da desforra! O momento do povo desancar o governo e todas as chatices do ano. Só acho você meio romântica, Eneida. Você é uma apaixonada. Mas, quem sabe é disso mesmo que a gente precisa…
Eneida: Talvez eu tenha sido ingênua na minha conclusão, mas acredito que o povo, o povo mesmo ainda ama de verdade o carnaval!
Clarice: Leia, leia então.

Eneida:

Tão grande é o amor do povo carioca pelo seu carnaval, que salta obstáculos, ri das proibições, arreda problemas econômicos, a crise, …
Carmen: A eterna crise!

Eneida: … a crise, a miséria, afasta empecilhos e pula, salta, canta e ri. Não há dinheiro? Ele aparece no carnaval. Não há liberdade de opinião? O povo a implanta nos dias dedicados à folia.

A música é uma marcha carnavalesca das mais alegres. Eneida começa a sambar com enorme graça e leveza. Carmen a segue alguns passos mas logo se cansa. Eneida continua mais alguns minutos. Braços abertos, largo sorriso.

Eneida: ( jogando-se numa poltrona) Estou exausta! Mas isso não quer dizer que eu tenha esquecido minha última proposta: a de ouvir Clarice!..
Pequena pausa.

Carmen: (de repente séria:)Então vamos entrar no que me parece o mais importante: A Paixão segundo G.H. , essa espécie de busca do Graal…
Clarice: (um pouco hesitante)…Engraçado! Você disse uma coisa interessante, Carmen. Gostei dessa comparação com a procura do Vaso Sagrado. As pessoas sempre vêem coisas na minha obra que eu nem… nem desconfiava…
Cecília: Você mesma afirmou que a sua obra é mais forte do que você, maior do que você. Afinal, a busca do sentido da vida é a nossa grande iniciação e nisso nos parecemos com os cavaleiros medievais.
Eneida: (irônica:) ou com Dom Quixote! Estamos ficando assustadoramente profundas.
Carmen: É porque depois vamos dormir, eu acho.
Eneida: Mas, Carmen, temos que fazer isto mais vezes, você teve uma idéia estupenda!
Carmen : (brincando, feliz)Eu sei. Uma idéia époustouflante!

Todas riem. Pequena pausa.

A música daí em diante, e até o fim, é o último movimento lento da 9ª de Mahler.

Cecília: Clarice, que é que você vai ler?
Clarice: Talvez as últimas palavras da Paixão . Está bem?
Cecília: Ótimo!

Silêncio preparatório. Carmen e Eneida, junto da estante, no início apenas ouvem. Clarice está em pé, no meio do palco, e diz seu texto de cor. Cecília, junta-se a ela no final e também diz seu poema enquanto Carmen e Eneida, aproximando-se repetem algumas frases ou versos.

Clarice: (sonhadora):

Eu, que havia vivido do meio do caminho, dera enfim o primeiro passo de seu começo.
Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois “eu” é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior – é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos.

(Pausa)

(…) …e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.

(Pausa)

(…) Eu estava agora tão maior que já não me via mais. …

Cecília: Um tempo sem fronteiras
se abriu diante de nós,
Quando tiveram voz
as verdades inteiras?

Clarice:

…Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe.

Cecília: Mas nem penso aonde vais.
Adormeço nos prados
com os lábios ocupados
no néctar do jamais.

Carmen e Eneida: …grande como uma paisagem ao longe.
… no néctar do jamais.
Clarice:

E na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir.

Cecília : Ai, talvez noutro instasnte
chegue perto de ti,
para ver que perdi
minha alma antiga, – e cante.

Clarice: …Eu estava agora tão maior que já não me via mais.

Cecília e Clarice:
… talvez noutro instante
chegue perto de ti

Clarice: junto com as outras, com convicção:

… e cante.

Uma névoa vai cobrindo o palco enquanto o pano vai se fechando. Ressoam ainda as vozes de:

Clarice: (…) .. eu não entendo o que digo. E então adoro.
Carmen: …noutro instante…
Clarice: …adoro…

Eneida: … talvez… noutro instante
Cecília: … chegue perto de ti.

Silêncio. Pouco depois, volta a soar, primeiro longínqua e logo, cada vez mais próxima, “Heloísa” de Chiquinha Gonzaga.

F i m

3 Comments

  1. Esta rubrica começou com duas excelentes peças, não se compreendendo por que motivo (ou motivos) não foram representadas.Com Raquel e Jacob, Hélder Costa cria duas personagens que demonstram que o chamado “fosso geracional” mais não é do que uma convenção. Com Palavra de Mulher, Rachel Gutiérrez, sem demagogia, sem usar os consabidos chavões do feminismo militante, fanático, colocando em cena quatro mulheres inteligentes e que, pelo poder da palavra, dão um espectáculo de lucidez, constrói um hino à igualdade plena de direitos. Na próxima semana, teremos uma peça de Fernando Correia da Silva – Penhasco, baseada num episódio ocorrido durante a Guerra Civil de 1936-39.

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