RAPAZ DO CHIADO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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– Sim, é excelente este café.

– Sabes qual é o meu apelido, não sabes? Imagem2

– Sei, bem te conheço, tu és Silva.

– Sou um arbusto que pica e arranha. E tu és Benoliel. Significa o quê e em que língua?

– Filho do Sol, em hebraico.

– Se eu pico e arranho, em contrapartida tu queimas…

– Eu não queimo, apenas tento iluminar.

– Bravo, és um poeta!

– Não faço versos. O que me seduz é ser o eco, porém visual, dos tempos que vou atravessando.

– Estás a namorar as tuas fotografias, não é?

– Nota-se?

– A fotografia é o teu interesse exclusivo?

– Não exclusivo. Também a atividade física e o desporto me fascinam. Fiz parte da direcção do Real Ginásio Clube Português e até joguei foot-ball. Participei ainda no lançamento do jornal Sport.

– Formidável, isso não sabia eu…

– E há outra coisa que tu não sabes.

– Qual é?

– Os livros são outra das minhas paixões. Cheguei a representar, em Portugal, a livraria Maggs Brothers, de Londres. Para ela disputei, nos grandes leilões de Lisboa, as melhores obras que foram à praça.

– Estou duplamente pasmado, ó Joshua Benoliel. Mas agora quero é falar contigo a respeito das tuas fotografias. Mas antes diz-me uma coisa: tu és judeu, não és?

 – E quem eram os teus pais?

– Esther Levy e Judah Benoliel, comerciantes.

– De Jerusalém?

            – Não, de Marrocos. Saltaram para Gibraltar e ali obtiveram a nacionalidade britânica. Depois vieram para Lisboa onde nasci a 13 de Janeiro de 1873. Ensinaram-me hebraico, castelhano, inglês, francês e transmitiram-me a nacionalidade britânica que até hoje me protege.

 – De quê?

– Do enguiço lusitano, aqui estão sempre assanhados, uns contra os outros…

– Isso não é nacionalidade, é couraça tua. Enfim, vamos em frente: não conheceste as terras dos teus pais, pois não?

– Sim, conheci. Em 1902 visitei Marrocos e Gibraltar.

– Em 1902? Faz tempo… E nunca mais lá voltaste?

            – Lá, propriamente não, mas fui a Algeciras que fica muito perto de Gibraltar. Ali, em 1906, fiz a cobertura fotográfica da conferência sobre o futuro de Marrocos.

  – Outro assunto: tu és um crente, um praticante?

– Quando estou em Lisboa, vou sempre meditar na Shaaré Tikvá.

– O que é isso?

– Portas da Esperança, a sinagoga que fica em S. Mamede.

– E foi fundada quando?

– Em 1904.

– Portanto, 31 anos depois do teu nascimento. E tu moras onde?

– Na Rua Ivens, aqui no Chiado. Morei sempre nesta zona. Quando pequeno, na Praça Luís de Camões. Depois, na Rua Secretário da Guerra (*). Até diziam que eu era “o rapaz do Chiado”…

 

(*) Mais tarde será chamada Rua Nova da Trindade.


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