– Sou um arbusto que pica e arranha. E tu és Benoliel. Significa o quê e em que língua?
– Filho do Sol, em hebraico.
– Se eu pico e arranho, em contrapartida tu queimas…
– Eu não queimo, apenas tento iluminar.
– Bravo, és um poeta!
– Não faço versos. O que me seduz é ser o eco, porém visual, dos tempos que vou atravessando.
– Estás a namorar as tuas fotografias, não é?
– Nota-se?
– A fotografia é o teu interesse exclusivo?
– Não exclusivo. Também a atividade física e o desporto me fascinam. Fiz parte da direcção do Real Ginásio Clube Português e até joguei foot-ball. Participei ainda no lançamento do jornal Sport.
– Formidável, isso não sabia eu…
– E há outra coisa que tu não sabes.
– Qual é?
– Os livros são outra das minhas paixões. Cheguei a representar, em Portugal, a livraria Maggs Brothers, de Londres. Para ela disputei, nos grandes leilões de Lisboa, as melhores obras que foram à praça.
– Estou duplamente pasmado, ó Joshua Benoliel. Mas agora quero é falar contigo a respeito das tuas fotografias. Mas antes diz-me uma coisa: tu és judeu, não és?
– E quem eram os teus pais?
– Esther Levy e Judah Benoliel, comerciantes.
– De Jerusalém?
– Não, de Marrocos. Saltaram para Gibraltar e ali obtiveram a nacionalidade britânica. Depois vieram para Lisboa onde nasci a 13 de Janeiro de 1873. Ensinaram-me hebraico, castelhano, inglês, francês e transmitiram-me a nacionalidade britânica que até hoje me protege.
– De quê?
– Do enguiço lusitano, aqui estão sempre assanhados, uns contra os outros…
– Isso não é nacionalidade, é couraça tua. Enfim, vamos em frente: não conheceste as terras dos teus pais, pois não?
– Sim, conheci. Em 1902 visitei Marrocos e Gibraltar.
– Em 1902? Faz tempo… E nunca mais lá voltaste?
– Lá, propriamente não, mas fui a Algeciras que fica muito perto de Gibraltar. Ali, em 1906, fiz a cobertura fotográfica da conferência sobre o futuro de Marrocos.
– Outro assunto: tu és um crente, um praticante?
– Quando estou em Lisboa, vou sempre meditar na Shaaré Tikvá.
– O que é isso?
– Portas da Esperança, a sinagoga que fica em S. Mamede.
– E foi fundada quando?
– Em 1904.
– Portanto, 31 anos depois do teu nascimento. E tu moras onde?
– Na Rua Ivens, aqui no Chiado. Morei sempre nesta zona. Quando pequeno, na Praça Luís de Camões. Depois, na Rua Secretário da Guerra (*). Até diziam que eu era “o rapaz do Chiado”…