MINIBLOGOTEATRO – 4 -O TRIÂNGULO DAS BERMUDAS E O INFINITO – por Sérgio Madeira

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MINIBLOGOTEATRO -4

 

O TRIÂNGULO DAS BERMUDAS E O INFINITO – por Sérgio Madeira

Personagens:

Lourençoo cegueta – contabilista de Jerónimo

Emaa jibóia, mulher de Lourenço

Jerónimoo marreco, comerciante

Soraiaa mamuda, esposa de Jerónimo

Marisa a zarolha, irmã de Jerónimo,

 Juliãoo titaúcha, marido de Marisa e chefe do armazém de Jerónimo

Miguelo delicado, professor e correspondente de Jerónimo

 

O cenário representa o alpendre de uma casa de construção clandestina.

Entardecer primaveril.  Ouve-se o mar e o piar de gaivotas.

Todas as personagens estão em redor de uma mesa, comendo caracóis. Gesticulam, conversando, mas não se ouvem. Jerónimo, enquanto come, lê um jornal que mantém dobrado ao lado do prato. Ema está a falar.

 Lourenço levanta-se e vem à boca de cena:

1º Monólogo de Lourenço

Lourenço (apontando para Ema) – A minha Ema é uma jóia de rapariga, mas tem de ser levada às boas. Se as coisas dão para o torto, transforma-se numa fera. Quando não está presente, chamam-lhe a Jibóia. Tem muita personalidade. Eu, Lourenço Silva, contabilista, conhecido pelo Cegueta, sou mais depressa identificado como o Lourenço da Jibóia. Neste sábado de Primavera, combinámos almoçar na  casa de praia do Jerónimo e da Soraia.

(Vai à mesa, bebe um gole de cerveja)

– Desculpem, mas a Soraia no tempero dos caracóis, carregou nos orégãos…

Jerónimo (Levantando os olhos do jornal) – Oregos… diz-se oregos (volta à leitura)

Lourenço (Tom confidencial) – Desde que se autoproclamou doutor, o Jerónimo corrige tudo e todos… Mas voltemos ao almoço – A minha Ema que, não desfazendo, é uma excelente cozinheira, apresentou um arroz de lingueirão de alta categoria…

Jerónimo (sem deixar de ler) – Langueirão, arroz de langueirão.

Lourenço – Embrulhado o tacho em jornais e metido na mala térmica chegou aqui quentinho… Olhem, foi esse jornal que protegia o arroz que o Jerónimo ainda não parou de ler. Marisa, irmã do Jerónimo, conhecida pela zarolha por ter um globo ocular mais saliente, (por isso anda sempre de óculos escuros), preparou uns jaquinzinhos divinais. É sócia minoritária do irmão e é casada com o Julião, que toma conta do armazém do cunhado e desde miúdo é conhecido pelo Titaúcha. A dona da casa fez um cozido à portuguesa de categoria – estavam reunidas as condições para um sábado feliz E foi.. Ah, já me esquecia, Miguel, contribuiu com duas caixas de profiteroles. O Miguel, o Delicado, por… por razões que não vêm ao caso é o filho do farmacêutico do nosso bairro e é formado em Letras – é professor e escreve a correspondência do Jerónimo.

(faz menção de se sentar, mas acrescenta)

Ah – O Jerónimo tem a alcunha do Marreco  porque já na escola primária era negociante – trocava cromos por berlindes, fisgas por colecções de caricas…E tinha o hábito de andar curvado, a matutar nas transacções. A esposa é Soraia, a mamuda porque… bem, é evidente porquê.

(Vai à mesa beber mais um gole de cerveja e regressa à boca de cena)

Lourenço – Foi um almoço homérico. Agora, ao fim da tarde, comíamos uma coisa leve. A minha Ema brilhava ao falar do filme que tínhamos visto dias antes – A million dolars baby

Ema – É um filme  sobre a atanásia. Eu cá acho que a atanásia para quem está a sofrer devia ser autorizada…

 Miguel – Atanásia?  Não queres dizer Anastácia?

Ema – (segurando o tacho dos caracóis) – Estás a gozar, que eu bem te conheço… Que tal levares com um tacho na mona?

Lourenço – (desviando a conversa) Os caracóis estão uma maravilha, mas têm um pouco de orégãos a mais …

Jerónimo (Sem tirar os olhos do jornal) – Oregos, diz-se oregos. É verdade, a Soraia carregou nos oregos…

Soraia –  Ah carreguei? Antes carregar nos oregos do que nos tomates!.. –

(Gargalhada geral)

– … de quem os tem , claro.

(Riso menos efusivo).

Julião – Ò Marreco, o que estás tu a ler?

Marisa – Marreco? Vê lá como tratas o meu irmão! Ele agora é doutor! –

(Olham todos para o Jerónimo).

Miguel – Onde é que te doutoraste, ó Jerónimo?

(Jerónimo continua a ler o jornal)

Jerónimo – Isso agora não interessa.

Soraia – Deixa, amor. Eu explico. Vocês sabem que o Jerónimo não é de  caganças. Mas imaginem que o paquistanês da Rua do Benformoso que nos vende mercadoria, é tratado por doutor. Dizem que é médico. Se o Jerónimo não for tratado da mesma forma… fica em desvantagem. O sacana do paki, que exige ser tratado por senhor doutor, tratava o Jerónimo por você.

Miguel – E então?

Soraia – Então reunimos o pessoal e dissemos que acabava o tratamento por senhor Jerónimo e passava a ser o Doutor Gomes.

Miguel – Só assim?

Soraia – Bem o paki, na primeira reunião que teve com o Jerónimo foi buscar um diploma escrito com aquelas letras que parecem patas de passarinhos… Disse que era um diploma em Medicina da Universidade de Ca… Cará……

Ema – Menina, vê lá o que dizes…

Miguel – Karachi

Soraia – Isso! Então o Jerónimo comprou através da internet um diploma brasileiro. É um documento à maneira, com lacre, fitas de seda e tudo isso. Mandou-o emoldurar… O Paki quando foi ao nosso escritório, ficou verde de inveja.

Miguel (tom irónico) – E o Jerónimo doutorou-se em quê?

Soraia – Escolheu o mais caro… pala…pala..

Julião – Pala – pala, batatas fritas? Não sabia que havia cursos de batatas fritas…

Soraia – Pali…

Marisa – Palitos?

Miguel – Paleografia?

(Continuam a conversa, mas apenas gesticulam. Lourenço, agora sem se levantar, volta a falar para o público)

2º monólogo de Lourenço

Lourenço –  O Jerónimo Gomes tem singrado na vida. Começou com uma pequena banca na Feira de Carcavelos e agora já estendeu o negócio à Feira do Relógio e está a pensar noutros pontos de venda. Vende produtos da Gucci, da Lacoste, da Dolce  & Gabbana e até malas  Louis Vuitton, tudo genuinamente contrafeito na Índia e no Paquistão. Somos todos do mesmo Bairro. Tirando o Miguel, que é mais novo, pertencemos mais ou menos à mesma geração. Andei na escola primária com o Jerónimo e com o Julião. Eu continuei a estudar até concluir o curso comercial. Eles ficaram-se pela quarta – classe. As três raparigas também andaram na mesma escola e também se fizeram à vida logo que concluíram a primária. O Miguel, filho do dono da farmácia do bairro, formou-se em Letras. Somos todos amigos, embora às vezes se levantem pequenas tempestades. E hoje, com mais de uma grade de bujecas aviadas, está a chegar o momento dessa tempestade.

Mas este seria um sábado como tantos outros, sem história, não fosse o Triângulo das Bermudas Um artigo que estava no jornal que embrulhava o arroz de lingueirão. ..

Jerónimo – (Para Lourenço )  – Langueirão, arroz de langueirão.

Lourenço – O Jerónimo ainda não parou de ler. Ora vejam.

Jerónimo – Vocês já ouviram falar no triângulo das Bermudas?

(Olham uns para os outros)

Julião – Sempre fui um zero em geometria.

Marisa – (rindo) No resto eras um ás…

Jerónimo – É uma região escondida…

Soraia – Olha, amor,  as mulheres, quando vestem bermudas, têm um triângulo numa região escondida  … Mas ó doutor Gomes, isso não são conversas para ter à frente de senhoras…

Gargalhada geral.

Miguel (Olhando em redor) – Senhoras? Onde é que estão as senhoras?

Nova risada.

Ema – Ouve lá, ó Delicado, o que é que um tipo que pega de empurrão sabe sobre senhoras? –

(e levanta a mão ameaçando Miguel que faz um gesto defensivo exagerado.)

Miguel –  Querida, hoje estás muito homofóbica.

Ema – . – Homofónica é a tua prima

Lourenço (para o público, em tom confidencial) –  O Marreco , desde que é doutor, está numa imersão total em banho de cultura – lê os suplementos do Correio da Manhã de fio a pavio.

Jerónimo – Vou ler – (põe os óculos e começa) -: O Triângulo das Bermudas tem uma área variável entre um milhão e cem mil quilómetros quadrados até quase quatro milhões de quilómetros quadrados e situa-se…

Julião – Quatro milhões? Cum camandro!

 Jerónimo – … situa-se no Oceano Atlântico entre as ilhas Bermudas, Porto Rico e as Bahamas. Ali desapareceram aviões, iates, navios de grande porte. mais de 50 navios e 20 aviões se perderam na zona, durante o último século. Os motivos são por muitos  atribuídos a razões sobrenaturais ou ignorados pela ciência actual … a quarta dimensão, o Einstein, a Atlântida, extraterrestres rebéu, béu Bem, esta parte não interessa. A versão  simples – “campos magnéticos, flatulências provocadas por bolsas de gás metano do fundo do oceano…flatulências de gás metano que se desprendem do solo do oceano são capazes de fazer naufragar navios e despenhar aviões…..

Marisa – A mim também me acontece essa da flutulência, mas é só quando como fritos.

Jerónimo -… O metano, formado devido à intensa actividade vulcânica submarina, está normalmente contido no interior das rochas, sob a alta pressão oceânica. Mas pode soltar-se naturalmente…

Marisa… Tal e qual.. Solta-se naturalmente…

Julião  – Deve ser o cheiro que fica a flatular que provoca anormalias no ambiente – a defenestração da Amazónia e o buraco na camada de azoto.

Risada

Miguel – Ó Julião, vou tomar nota. Essa definição merece ser emoldurada. Para pôr ao lado do diploma do teu cunhado…

Lourenço – , O maestro Victorino De Almeida, no Coca-Cola Killer fala numa entrada para o triângulo das Bermudas – um urinol no Largo do Príncipe Real…”

Jerónimo – Deixem ler até ao fim… Sempre a interromper

Soraia – Lê amor, lê…

Ema (com ar sonhador)…São mistérios…

Jerónimo que ia recomeçar a leitura, desisitiu.

Soraia -– Pois, o universo e isso…- e  para o Jerónimo – Amor, como é que se chamam aquelas saloias em madeira que comprámos em Moscovo, as que entram umas dentro das outras?

(Amuado, Jerónimo não responde).

Miguel – Fufas? –

Lourenço – Matrioskas».

Soraia –  Isso! Pois para mim o universo é assim, uma matriposca ou uma merda dessas – uma cebola…Uma camada, depois outra… Já tenho adormecido a pensar com é que pode acabar…

Ema –  ó Miguelito, em vez de estares aí com baboseiras, diz uns versos sobre o universo, a imensidão, o infinito….

Miguel  (pensando). Ora deixa ver, Infinito, infinito… pode ser um poema que diz assim:

Sempre cara me foi esta colina

erma, e esta sebe, que de tanta parte

do último horizonte o olhar exclui.

Mas sentado a mirar, intermináveis

espaços além dela, e sobre-humanos

silêncios, e uma calma profundíssima

eu crio em pensamentos, onde por pouco

não treme o coração…

Soraia (sonhadora) – Lindo…

Julião – Não percebo nada, mas é giro pra caraças……

Jerónimo – Chiça! Deixem ouvir o soneto até ao fim… ignorantes dum cabrão.

Lourenço (a medo) – Bem, não é um soneto…

Jerónimo  (não ligando)Ò Miguel, acaba lá o soneto

Miguel E como o vento

Ouço fremir entre essas folhas, eu

o infinito silêncio àquela voz

vou comparando, e vêm-me a eternidade

 e as mortas estações, e esta presente

e viva, e o seu ruído. No meio dessa

imensidão meu pensamento imerge

 e é doce o naufragar-me nesse mar.

Ema (limpando uma lágrima) – É teu, foste tu que escreveste?

Miguel – Bem gostava de ter sido, Não. É do grande poeta italiano Giacomo Leopardi e traduzido por um grande poeta brasileiro, Vinícius de Moraes.

Marisa – (limpando lágrimas também, mas rindo) – Não percebi a maioria das palavras, mas comoveu-me…

Jerónimo – (Com um palito entre os dentes) A cultura é uma coisa bonita. Mas não é para todos… É para quem tem sensibilidade e conhecimentos…

Lourenço – E para quem compra diplomas…

Jerónimo – Ó cegueta o que queres dizer com isso?

Lourenço – Nada… doutor Jerónimo.

Jerónimo – Estava a ver…

Ema – Estavas a ver o quê ó Marreco? Se levavas uma chapada?…

Lourenço (sussurrando para o público) – A tempestade…

Ema –  Mete-te com o meu homem e depois diz que há bruxas.

Jerónimo – Que há bruxas já eu sei… estou a aturar uma.

Ema (levantando-se num rompante): Vocês são testemunhas! O marreco chamou-me bruxa! (avança na direccção de Jerónimo com o tacho dos caracóis agarrado por ambas as mãos) – Eu mato este malandro – seu fascista!

Marisa e Soraia gritam. Agarram Ema antes de que ela chegue junto de Jerónimo.

Soraia – Não se zanguem.. Querida, acalma-te (para Jerónimo)- Amor… Pede desculpa à Ema.

Jerónimo – Não peço… (Ema faz menção de lhe atirar com o tacho) … Pronto, está bem. (tosse, para afinar a voz) Dona Ema, eu era lá capaz de chamar bruxa a uma senhora como vocelência! Em todo o caso, como é meu dever de… de… Ó Miguel como é que tu costumas chamar ao totó que convida os outros para sua casa e depois é enxovalhado?

Miguel – Anfitrião.

Jerónimo – Como é meu dever de anfitrião. Peço muita desculpa.

Ema (pousando o tacho) – Está bem. (senta-se, abraçada pelas amigas)

Lourenço ( sussurrando) – Vá lá! Já passou. Costuma ser muito pior!

Soraia – (para Jerónimo) – Amor, porque é que estás tão interessado nisso…no tal triângulo?…

Jerónimo –   (Falando para si) – Descobrisse eu onde era… negócio do caraças. Barcos, iates, paquetes,  aviões… Tudo ali, à labúrdia! O paki ia de asa. Fosse vender o Dolce & Gabbana e o óculos da Gucci, as camisas da Lacoste,  para a puta que o pariu…

Soraia – Esquece o negócio, fofo. Estamos  com os amigos, em família…

Ema (sempre com ar ausente) -São mistérios

Marisa – Há coisas que é melhor nem aprofundarmos!”

Julião – (com ar sonhador). – Dass! Ele é cá com cada mistério!

Lourenço  – Estas conversas filosóficas provocam-me cãibras nos miolos…

Jerónimo – Câmbrias – diz-se câmbrias.

Cai o pano

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