POESIA AO AMANHECER – 210 – por Manuel Simões

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PEDRO HOMEM DE MELLO

(1904 – 1984)

CARTA A RUBEN

Ali, onde há penedos, urze e mato,

Pela primeira vez te vi bailar!

E, em certo corpo esguio de regato,

Ali, onde há penedos, urze e mato,

Coube a verdade estranha do luar.

Aquela saia curta, mas redonda!

Aquela cinta frágil, mas comprida!

Ali, naquela dança, como em onda

(Seria curta a saia, mas redonda…)

Senti crescer, multiplicar-se a vida!

Sem que tentasse alguém, sequer, prendê-las,

Bailaram rosas, cruzes, arrecadas.

Buliram, sob os olhos das estrelas,

Minhas bodas, vermelhas como estrelas,

E, como elas, distantes, ignoradas…

Intacto e nu, trago o meu corpo inteiro,

Maior que o céu, maior do que o pecado!

Pinhal do monte brusco e verdadeiro!

Mais vale, em pé, um único pinheiro,

Que todo o azul do mar sem fim, deitado!

O amor foi breve e rijo como um fruto.

O vinho leve e fresco foi exacto.

Deixá-las vir as nuvens com seu luto!

Um minuto de sol. Basta um minuto

Ali, onde há penedos, urze e mato.

(de “Bodas Vermelhas”).

Apaixonado amador de temas do folclore nacional, é autor de uma diversificada poesia, cultivando fielmente um substrato étnico. Da sua extensa obra poética sobressaem os livros “A Caravela ao Mar” (1934), “Bodas Vermelhas” (1947), “Os Amigos Infelizes” (1952), “O Rapaz da Camisola Verde” (1954), “Grande, Grande era a Cidade” (1955), “Povo que lavas no Rio” (1969),”Ecce Homo” (1974). Alguns dos seus poemas foram divulgados através de adaptações musicais, interpretadas sobretudo por Amália.

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