
A MEDIDA DO OLHAR
Entre a Madeira e o Porto Santo
Foi em meados de 1976 que arribei pela primeira vez às ilhas da Madeira e do Porto Santo. Há poucos meses tornara-se Região Autónoma e o primeiro Governo Regional tinha duas ou três semanas.
À chegada pelos ares, enquanto o aeroplano descrevia uma curva apertada e parecia pairar, suspenso sobre o nada, vi surgir a minúscula pista que nos esperava. Um sentimento estranho de temor e deslumbramento misturou-se com uma alegria inesperada e inexplicável. Sorri, ao perceber, com inesperada serenidade e com súbita clareza, a pequenez da minha própria existência.
Nessa estadia de uma lunação, e que vi diluir-se lentamente durante a década que se seguiu, ainda pude sentir o isolamento e a enorme distância do continente, ver os portos pequenos e os barcos frágeis dos pescadores, a pobreza, a solidão, e o destino quase certo para trabalhos menores. A vida passava devagar, entre o trabalho, a casa e o que sempre fora. Muitos partiam e poucos regressavam. A pobreza via-se nas mãos, nas casas, no silêncio resignado das tardes. As festas religiosas eram o centro da vida; e nelas cabia quase tudo. Já havia televisão mas ainda não era para muitos.
Ficar doente era um problema sério. Quase tudo obrigava a ir ao Funchal.
Fora da cidade, tudo parecia mais distante, mais rarefeito, mais lento. As estradas, estreitas e aparentemente inseguras mostravam a beleza de uma Primavera permanente, verde e florida.
Ainda se sentia a mudança recente, provocada pela revolução de dois anos antes. A autonomia prometia desenvolvimento, e a democracia abria portas a novos direitos.
Nas várias visitas que fiz ao norte da ilha, o que mais me impressionou, a par de todas as dificuldades a que já referi, foi a floresta Laurissilva, um tesouro antigo, quase fora do tempo, e as levadas, que quase não percorri, e hoje são uma atracção turística. A beleza deslumbrante, o som, o isolamento e a contemplação, deixaram marcas na minha memória.
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O Porto Santo ainda era um lugar onde o tempo caminhava devagar num dia, e se suspendia no seguinte. O isolamento era ainda maior que na Madeira, e a vida mais tranquila; uma experiência profundamente diferente do que eu conhecia. O ritmo era ainda mais tranquilo que o do interior da Madeira, e aqui havia uma identidade própria. Era um outro povo, uma outra gente. Vivia-se do pouco que a terra seca, com esforço dava. Quase não havia quem viesse de fora.
A ilha, e a sua praia dourada e única, era o quintal privilegiado dos “donos” do arquipélago, que não aceitavam a modernização acelerada, nem alterações que modificassem o “modus vivendi” a que estavam habituados nos seus tempos de lazer na época estival. Quando cheguei, ido do Funchal no Pirata Azul, atracámos no cais, junto ao Pau de Sabão. Como transporte, para nos ajudar com as malas, nada havia. Na ilha só existiam três táxis, e como tinha chegado um avião há pouco tempo, estavam ocupados em outros afazeres. Por sorte um homem bom arranjou um burro, e lá fomos ladeira acima.
Quase não havia água potável na ilha. Era um bem raro, e a dessalinizadora só apareceria em funcionamento efectivo em 1980. A água que existia, tinha um sabor perto do salobro, era muito leve e diurética.
Tudo, ou quase tudo era importado da Madeira; até o peixe. Excepção feita, no Verão, às uvas, aos figos, às melancias e a mais alguns, poucos, mimos hortícolas. De Junho a Setembro chegavam mais barcos, havia mais movimento, mais visitas da Madeira e um ou outro “cubano” (gente do Continente). Muitos porto-santenses que haviam emigrado regressavam para ver a família. Os arraiais e festas religiosas enchiam as noites. As ruas ganhavam vida e a comunidade parecia maior. Era a época em que a ilha parecia menos isolada, mas também era sinónimo de seca. A terra, árida, exigia esforço redobrado para produzir o mínimo.
Mas rapidamente este oásis temporal se ia. A vida era dura. E no Inverno a realidade em nada se comparava com a do Verão. Era ainda mais duro, mais silencioso, e a fome aparecia de quando em vez. O mar decidia quando se podia ir e vir, especialmente no Inverno. Os produtos frescos, escassos. Quase tudo vem de barco, da Madeira, e o mar da Travessa, quando bravo, tudo atrasa, e a ilha logo sente a falta. A ilha podia ficar dias, e por vezes semanas, sem abastecimento. As noites eram longas, frias e ventosas, e as casas pobres e sem condições. O isolamento, a pobreza, a solidão e o destino certo, só combatidos pela emigração, eram muito mais evidentes naquele povo alourado e de olhos azuis. As figuras históricas da ilha dourada, estavam, à época, pouco mais do que apagados da memória colectiva. Só Cristóvão Colombo, porque se sabia, ainda, onde vivera, era falado pelos locais e motivo de orgulho. Também, Fernão Nunes e Filipa Nunes, figuras lendárias do século XVI e conhecidos como “Os Profetas”, tendo dado aos habitantes locais esse nome popular (Profetas), não eram falados na altura.
Neste período de lua a lua, percorri dezenas de quilómetros, descalço, entre as antigas salinas e a Calheta, e volta, na maré vaza, pela borda de um mar calmo e morno, pisando a areia dourada e fina, passando junto às dunas, a uma casa aqui e outra ali, e por uma pessoa muito de longe em longe. Horas e horas de contemplação, de silêncio só quebrado pelo rumor poético e melancólico das minúsculas ondas, ou da aragem que mal se sentia mas estava sempre presente. Indo para lá olhando o Ilhéu de Baixo ou da Cal, e regressando com o Ilhéu de Cima ou do Farol ou ainda dos Dragoeiros, à minha frente. Tantas as vezes que, da praia, parecia que lhe conhecia cada grãozinho de areia, um a um.
Dormi uma noite, ao lado do Cinema, numa tenda de pano cru. Subi ao Pico Castelo, quase o único lugar arborizado da ilha. Bebi água na Fonte da Areia, passeei até ao Pico das Flores, fui à Pedreira, andei pela Serra de Fora e pela Serra de Dentro, e ainda fui à caça aos coelhos.
Comi peixe na Ponta da Calheta, frango na Estrela do Norte e pregos em Bolo do Caco no João do Cabeço. Houve também espetadas feitas em casa, acompanhadas pelo vinho do sr. Remígio. Passei muitas vezes pela Baiana, e não resisti às Lambecas, ali mesmo ao lado.
Nas idas e vindas da praia parava invariavelmente na Fontinha, onde uma bica deixava correr a água do Porto Santo.
Quase sempre acompanhado, outras vezes sozinho, perdia-me em contemplação, imaginando como teria sido a descoberta da ilha, e como seria ali viver uma vida inteira. Descobri o cheiro seco e áspero daquele ar quente, a mansidão do mar, a lonjura, o céu limpo, e a beleza de viver, mesmo que por breves instantes, aquela calma onde o tempo parecia suspenso.
E depois vinham as chuvadas; breves, quase inesperadas. A água caía morna sobre a pele, serena, sem pressa, como se também ela estivesse de passagem. E logo cessava. O chão bebia-a num instante e o vento levava o resto. E tudo voltava ao seu estado anterior, como se nada tivesse acontecido, excepto em mim.
Havia ali uma forma de liberdade que eu não conhecia; sem nome, sem intenção, sem futuro. Uma felicidade discreta, quase involuntária, feita de não precisar de nada.
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“Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.”
”O Guardador de Rebanhos – Poema XLVII – Alberto Caeiro”
