POESIA AO AMANHECER – 212 – por Manuel Simões

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VITORINO NEMÉSIO

(1901 – 1978)

ALARME NAS ILHAS

(fragmento)

Torres de Ponta Delgada,

Araucárias da Horta, muros de Angra,

Nuvens, verdes profundos,

Campos de Março à lua:

Uma espada no mar, afarolada, sangra,

Ponta Delgada é tua.

Mas quem te deu assim pronome a estas paragens?

Quem separa estas ilhas?

Quem nos tira as viagens,

Os cais, as vacas, as filhas?

Placidez açoriana

Nos teus olhos de china,

Argolas de cigana: Passam-lhes cabos os baleeiros:

Um pouco de amor a mais … e a borda guina!

(…)

Olha a chuva nas couves.

Foge da erva molhada.

Um tiro. Não ouves?

Contigo ao pé, não foi nada.

É o povo que finge,

O avião que passou:

Muda como uma esfinge

Ficaste alerta às ilhas do perdão

E a noite me acalentou.

Que geotérmico,

À bomba auricular,

É o teu coração,

Pois nunca rebentou de tanto amar,

Como a caldeira, de cachão.

(de “Sapateia Açoriana”).

Estreia-se precocemente com o vol. de poesia “Canto Matinal” (1916), a que se seguiram outras obras ainda imaturas. Pertenceu à geração de “Presença” e fundou a “Revista de Portugal” (1937-1940). Obras poéticas da maturidade são, por exemplo, “Nem toda a Noite a Vida” (1953), “O Pão e a Culpa” (1955), “Canto de Véspera” (1966), “Limite de Idade” (1972) e “Sapateia Açoriana” (1976). Comunicador de excelência, tornou-se conhecido com o programa televisivo “Se Bem me Lembro” (1969-1975).

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