VITORINO NEMÉSIO
(1901 – 1978)
ALARME NAS ILHAS
(fragmento)
Torres de Ponta Delgada,
Araucárias da Horta, muros de Angra,
Nuvens, verdes profundos,
Campos de Março à lua:
Uma espada no mar, afarolada, sangra,
Ponta Delgada é tua.
Mas quem te deu assim pronome a estas paragens?
Quem separa estas ilhas?
Quem nos tira as viagens,
Os cais, as vacas, as filhas?
Placidez açoriana
Nos teus olhos de china,
Argolas de cigana: Passam-lhes cabos os baleeiros:
Um pouco de amor a mais … e a borda guina!
(…)
Olha a chuva nas couves.
Foge da erva molhada.
Um tiro. Não ouves?
Contigo ao pé, não foi nada.
É o povo que finge,
O avião que passou:
Muda como uma esfinge
Ficaste alerta às ilhas do perdão
E a noite me acalentou.
Que geotérmico,
À bomba auricular,
É o teu coração,
Pois nunca rebentou de tanto amar,
Como a caldeira, de cachão.
(de “Sapateia Açoriana”).
Estreia-se precocemente com o vol. de poesia “Canto Matinal” (1916), a que se seguiram outras obras ainda imaturas. Pertenceu à geração de “Presença” e fundou a “Revista de Portugal” (1937-1940). Obras poéticas da maturidade são, por exemplo, “Nem toda a Noite a Vida” (1953), “O Pão e a Culpa” (1955), “Canto de Véspera” (1966), “Limite de Idade” (1972) e “Sapateia Açoriana” (1976). Comunicador de excelência, tornou-se conhecido com o programa televisivo “Se Bem me Lembro” (1969-1975).


Bem me lembro, e era miúdo.