EDITORIAL – O BRAÇO DE FERRO

Imagem2Pode concordar-se ou não com uma dada posição política. Algumas vezes, mesmo discordando, somos forçados a reconhecer alguma consistência na argumentação de quem não pensa como nós. Na questão que hoje absorve as atenções de todo o País, a argumentação do executivo governamental é de uma pobreza extrema e as contradições destroem a pouca coerência que resiste. No fundo, o único argumento válido é o de natureza moral – os interesses dos alunos e de suas famílias. Argumento frágil, pois isso é o que acontece em qualquer greve na função pública ou dos serviços públicos – os interesses lesados são sempre os dos cidadãos e o dos utentes, cuja consciência cívica, na atribuição de culpas e responsabilidades pelos prejúizos sofridos, é posta à prova. No caso vertente, se os exames se realizarem no dia 20 será que o prejuízo de alunos e famílias é assim tão grande que obrigue toda uma classe profissional a calar as suas reivindicações?

Dizer-se que os professores não podem ter um tratamento diferente dos restantes funcionários públicos, como disse Nuno Crato na conferência de imprensa da passada semana, e apelar-se depois ao sentido de responsabilidade, ao “sacerdócio” da missão pedagógica, não faz sentido algum.  Se são funcionários públicos  como todos os outros, o seu direito à greve é irrestrito, como o de todos os outros trabalhadores e, de acordo com a Constituição, esse direito não pode ser limitado seja de que forma for; se se trata de uma função especial e com implicações morais tão profundas, então o que não faz sentido é não ter tomado essas especificidades em consideração.

Em desespero de causa, o bispo do Porto e futuro patriarca de Lisboa, vem dar uma mão ao governo. Por que terá a Igreja católica, tão ciosa da sua independência, de vir meter-se onde não devia ser chamada? O braço de ferro mantém-se. Segundo as últimas informações, a adesão à greve é quase geral. Nem a intervenção de D. Manuel Clemente poupará Nuno Crato a uma derrota estrondosa e o governo de Passos Coelho a mais um desaire. Já nem merece a pena ouvir o que vão dizer logo no balanço da jornada.

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