BOÉMIO E PONTÍFICE DE CAFÉ (FIALHO – 2)– por Carlos Loures

Esta biografia constitui uma adaptação da que foi publicada no siteVidas Lusófonas

A Brasileira

Fialho tornou-se conhecido nos meios boémios, jornalísticos e literários colaborou em jornais e revistas, escreve folhetins, crónicas, críticas literárias e teatrais, fez traduções. Escreveu os Contos e, depois, a Cidade do Vício, onde estão os seus melhores trabalhos de ficção. O seu habitat era a mesa do café – O Martinho, a Brasileira, foram as suas paragens dilectas. Imagem2Num livro editado postumamente em 1922, Figuras de Destaque, confidenciava-nos: «Nos meus primeiros anos de escolar, não me lembro de sair nunca do Martinho, com o pai Rosa e António Pedro e outros noctâmbulos, senão depois de terem batido no Carmo as quatro da alva.» O jovem aldeão de Vilar de Frades converteu-se numa figura temida da vida literária, teatral e jornalística da capital. Os seus pareceres eram aguardados com algum temor, pois a sua língua e a sua pena seriam tudo menos benévolos.

Na sua História da Literatura Portuguesa,  António José Saraiva e Óscar Lopes, aventavam a possibilidade de a agressividade das críticas de Fialho, bem como certos aspectos realistas e «progressistas» da sua obra se relacionarem com «as pretensões a mentor do bom gosto diletante e da boémia artística, que se revelavam já nos seus artigos de adolescente e que se observavam na sua crítica de arte, de teatro, de literatura, nas suas notas impressionistas de música, e viagem, de boémia nocturna, de cenas espectaculares, no seu trajo, e no seu pontificado de café em emulação com Gualdino Gomes.» Por seu turno, nas suas Memórias, Raul Brandão descreveu um Fialho boémio, sarcástico: «um príncipe de gabinardo que fazia cair as peças do alto do galinheiro, a um gesto seu irrespeitoso». Diz também que era seguido por uma «malta atónita de matulas suspeitos e jornalistas de ocasião, que deslumbrou de fantasia e atascou em sonho. […] Esses aplaudiram-no e amaram-no. Esquecidos do frio e da pobreza, não despregavam os olhos daquele sonho desconforme.»4 Porém, apesar da severidade com que sempre julgou actores e autores, Eduardo Brasão, naqueles anos finais do século XIX, o actor por antonomásia, nas Memórias compiladas por seu filho e publicadas em 1925, transcreve uma crítica (globalmente desfavorável) – Brasão o Olímpico – («Figura de actor francês, índole ardente, braços descomunais, e uma voz sem flexibilidade com tendência a enriquecer o som pelos rugidos.»), sentindo-se honrado pela atenção que despertou no crítico feroz -«E, demolindo-nos, Fialho alteia-nos, ou pelo menos, se preciso fosse tornava-nos conhecidos. 5

 OS GATOS

Entretanto, Ramalho Ortigão publicara as suas Farpas e o editor Alcino Aranha, aliciado pelo grande êxito que aquelas crónicas tinham obtido junto do público, convidou Fialho a escrever um texto mensal de análise à vida portuguesa. Fialho aceita e, em Agosto de 1889, é publicado o primeiro panfleto. A reacção dos leitores é de tal modo positiva que depressa a publicação de Os Gatos passa de mensal a semanal. Até Janeiro de 1894, quando saiu o derradeiro panfleto, reúne material que é depois publicado em seis volumes. Porquê este título – Os Gatos? Fialho explica-o no pórtico do primeiro panfleto: «Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes e terrível com agressores e adversários.» […] Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia – porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.»

(Continua)

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