NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – SÉRIE II – CAPÍTULO 99 – por Manuela Degerine

Vida de Lisboa

O António vive em Roma e veio à pátria para se ambientar: ver exposições, rever amigos, ler jornais, ouvir conversas. Combinámos um passeio através da cidade. Às quatro e meia. Porém o pior em Lisboa é o clima estival… A Baixa transformada em forno de padeiro. Restam felizmente alguns bons cafés, somos caminhantes mas não loucos, esperamos – no Nicola – que a temperatura passe de insuportável a muito quente.

Subimos então pelas Escadinhas do Duque, prosseguimos até à igreja de S. Roque, pausa para refrescar e admirar as capelas, paragem no miradouro de S. Pedro de Alcântara para olhar o Tejo e cheirar o vento: muito seco. O sol é um cão que não ladra mas sempre morde. Atravessamos o Príncipe Real, entramos no Jardim Botânico: pela sombra. Atraídos para o verde. É quando o António informa:

– Tenho uma amiga que é investigadora, especialista dos musgos, vou ali só cumprimentá-la… Queres conhecê-la?

Ah, musgos… A palavra refresca. E aqueles verdes vibrantes sempre me fascinaram. Sinto o apelo estético dos musgos: veludo os mais miúdos, cabeleiras os maiores. Chegam a comover-me. Os musgos e líquenes são no inverno as cores da floresta. Subtis. Vivas. Opulentas. Dito por outras palavras… Podemos arrumar as flores no pronto-a-ver do campo mas os musgos são a sua coleção de luxo. Quem não quererá conhecer uma especialista dos musgos?

Tocamos à campainha, avançamos pelo corredor, entramos no gabinete de uma das – e dos – biologistas que no mundo mais sabem sobre criptogâmicas. A qual lamenta que Portugal não ofereça aos seus doutorados uma carreira adequada às competências; um trabalha numa agência imobiliária, outro… O desperdício atinge em Portugal os píncaros do absurdo.

Somos apresentados a uma jovem italiana que veio fazer um doutoramento com esta professora. Cecília. Que se deve pronunciar “Tchétchilhia”. Um rosto que parece ter quinze anos. Um riso com a mesma frescura. Fala um português aprendido com a gramática na mão e muita conversa na ponta da língua. Alugou um quarto em Campo de Ourique onde já descobriu uma pastelaria que vende “os melhores pastéis de nata”, outra que faz “o melhor bolo de chocolate do mundo”. Só isto.

– Sou muito gulosa!

Não conheço nem o bolo nem os pastéis, uma lacuna nas experiências lisboetas; António e Cecília decidem levar-me lá. Passa das seis e meia, o sol continua raivoso, o vento quase mumifica, atravessamos o Largo do Rato, o Jardim da Estrela, conversando de maneira labiríntica sobre José Saramago, Cecília está a ler A Viagem do Elefante, depois sobre António Tabucchi, que lhe apresentamos como um heterónimo póstumo de Fernando Pessoa, recomendamos a leitura de Noturno Indiano, recomendamos a descoberta dos Açores, arquipélago azul e verde… Ela projeta uma viagem à Madeira para observar a floresta laurissilva.

Passa das dezanove horas, a casa dos pastéis fechou, podemos todavia provar o bolo de chocolate – que António tem a gentileza de nos oferecer. E que é em boa verdade delicioso. Entramos numa livraria; não tem os meus romances. E separamo-nos de Cecília encantados com este encontro.

Há quatro anos trouxe de Tomar um saco de musgos que pus em vasos e tentei preservar com água destilada; a maioria morreu no verão seguinte. Não consegui criar um jardim de musgos no Bairro das Colónias… Fazemos a última paragem no Instituto Italiano de Cultura para admirar os azulejos do século XVIII; e despedimo-nos na Avenida da Liberdade.

Leio durante o serão o livro que a professora Cecília Sérgio me ofereceu: Guia de Campo dos Briófitos e Líquenes das Florestas Portuguesas. (Recomendo-o aos leitores obrigados a passar férias na praia.) O vento seco persiste mas descubro que em Portugal há cerca de 480 variedades de musgos. Eu tinha observado umas dez se tanto… Como é possível haver quem se aborreça nesta cidade?

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Fotografias tiradas no Caminho de Santiago, em abril de 2013, entre Vilarinho e Brialhos.

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