ROMPE A VILA DE SÃO VICENTE – por Fernando Correia da Silva

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 Em 1532 eu, João Ramalho, já tenho uns 40 anos. Dizem-me que várias canoas grandes (assim os índios chamam às naus) com brancos a bordo, tinham fundeado junto à praia, guerra à vista. Com os meus homens desço logo a serra e chego ao litoral. Comanda a expedição Martim Afonso de Sousa, a quem El-Rei D. João III concedera donataria com cem milhas de costa e todas as terras que houvesse dentro, limitadas a norte e a sul por duas paralelas ao Equador.

 Se, por um lado, eu sou respeitado chefe tupiniquim, por outro português continuo a ser. A nadar assim entre duas águas, só a paz poderá sossegar o meu tormento e trato de promovê-la. Em tupi discurso para os índios e em português para os lusos. Digo-lhes que os brancos ocupem o litoral, mas que deixem os índios continuar nas suas fainas de pesca. Que uns não molestem os outros. Que iniciem o escambo do que uns têm a mais e outros a menos, e todos alcançarão seus proveitos. E assim se faz. Martim Afonso de Sousa e os seus dão 6 anzóis e 2 cunhas por 80 patos, e 2 cunhas grandes mais 20 punções e 4 tesouras por 2 antas, e 5 cunhas mais 5 anzóis por 5 cargas de milho, e 100 facas por 200 rolas, e 15 cunhas mais 15 anzóis médios por 15 veados, e 40 cunhas mais 12 tesouras e 52 anzóis por 52 favos de mel e 2 tesouras mais 25 punções e 24 anzóis por 26 cargas de ostras. Portugueses e tupiniquins ficam todos muito contentes com o escambo, pois os brancos estão muito carenciados de mantimentos e, para os índios, ferramentas de ferro é algo de milagroso.

 Mais se firma a paz e a boa amizade quando eu facilito mulheres para os portugueses solteiros e as cunhantãs até quedam muito felizes com o arranjo pois num repente melhoram de vida. Poderei ser excomungado mas alcoviteiro eu cá não sou, antes apaziguador de vendavais.

 Com os meus filhos caribocas e muitos outros tupiniquins, ajudo os portugueses de Martim Afonso de Sousa a construir casario de pedra e cal, também a igreja matriz e assim rompe a vila de São Vicente.

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