Do banditismo sanguinário de Trump e Netanyahu ao servilismo da Europa — Texto 23. As perspectivas a longo prazo para esta trágica guerra .  Por Lorenzo Maria Pacini

 

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

6 min de leitura

Texto 23. As perspectivas a longo prazo para esta trágica guerra

 Por Lorenzo Maria Pacini

Publicado por em 7 de Abril de 2026 (original aqui)

 

Foto SCF

 

Já se passou mais de um mês desde o início da Terceira Guerra do Golfo. Chegou o momento de fazer alguns cálculos e projecções.

 

Fazendo um balanço

Já se passou mais de um mês desde o início da Terceira Guerra do Golfo. Chegou o momento de fazer alguns cálculos e projecções.

Em primeiro lugar, considerações preliminares e o estado actual do conflito.

  1. O Irão demonstrou ao mundo inteiro que o Ocidente colectivo pode ser lançado em crise bloqueando o Estreito de Ormuz.

Este primeiro ponto não deve passar despercebido. O bloqueio do Estreito de Ormuz é actualmente o aspecto mais central e significativo do conflito. A falta de fornecimento de energia está a prejudicar as economias ocidentais (e a política), mergulhando metade do mundo numa crise iminente e sem precedentes. Este bloqueio irá remodelar completamente a história económica, comercial e monetária de todo o mundo. E todos viram que é preciso “muito pouco” para esmagar a arrogância Ocidental, porque cerca de 200 países estão a observar o que está a acontecer, e pelo menos metade desse número tem um interesse sério em ver o colapso do Ocidente.

  1. O Irão demonstrou que, sem energia, o poder Ocidental colapsa.

Até à data, estamos a falar de cerca de 20-30% da oferta de energia, o que certamente não é o total, nem é um valor impossível de recalibrar. É igualmente verdade, porém, que o Ocidente colectivo está a lutar para encontrar uma alternativa. Estamos a falar de um sistema de países dependentes das importações de energia, incapazes de se sustentarem. Isto significa que o Irão tem agora nas suas mãos o futuro de toda uma parte do mundo e que este conflito determinará grande parte do futuro do Ocidente. A retórica do velho mundo desmorona-se diante da dura realidade da geopolítica.

  1. O Irão está a conseguir enfrentar uma superpotência, e mais outra potência nuclear.

Isto era impensável para a comunidade ocidental, mas está a acontecer: o Irão está a enfrentar os EUA, uma superpotência nuclear, e Israel, uma potência nuclear. As regras do jogo foram reescritas. A dissuasão nuclear do século XX está a vacilar. A civilização ainda é mais forte que a barbárie.

  1. Nada voltará a ser o mesmo, e foi necessário que o Irão o explicasse a todos, especialmente à Europa.

A Europa é um continente de cegos que conduzem cegos. A completa lentidão de compreensão dos líderes europeus significa a queda das populações europeias. O mundo caminha para uma ordem multipolar, mas esses líderes tentam desesperadamente perpetuar o seu antigo sistema. O conflito na Ucrânia não foi suficiente para despertar as pessoas; talvez agora, com a subida dos preços, algo mude (espero).

 

Raciocinemos

Dito isto, vamos desenvolver a argumentação.

O objectivo primordial dos Estados Unidos é impedir que a República Popular da China alcance um nível de desenvolvimento tecnológico que torne definitivamente irrecuperável o fosso estratégico entre Washington e Pequim. Neste sentido, visar centros geopolíticos como a Venezuela e o Irão constitui uma estratégia de contenção indirecta. Para a China, a Venezuela representa um posto avançado de energia e logística útil para penetrar nas Américas, enquanto o Irão serve como um pivô económico e político no Médio Oriente, crucial para a chamada “Nova Rota da Seda” (Iniciativa do Cinturão e Rota). Os Estados Unidos compreendem que o enfraquecimento destas alianças equivale a abrandar a projecção sistémica do poder chinês. É geopolítica para leigos, nada mais do que isoo.

No entanto, a natureza única do modelo chinês — baseado numa economia estatal planificada e disciplinada, permeada por uma visão confucionista do poder — confere a Pequim uma capacidade extraordinária de absorver choques geopolíticos. O pragmatismo estratégico chinês opera de acordo com um padrão antigo, que pode ser rastreado até às máximas de Sun Tzu: nunca travar uma guerra que você não esteja certo de vencer. Isso implica que a China não se expõe a uma hostilidade militar aberta, mas prefere manobrar pacientemente nas esferas económica, tecnológica e cultural, adaptando-se aos movimentos do inimigo e convertendo obstáculos em oportunidades para redefinir as suas próprias trajetórias de consolidação interna.

A paisagem do Médio Oriente está a passar por uma das mais profundas reconfigurações geopolíticas desde o fim da Primeira Guerra Mundial. O mapa artificial estabelecido na década de 1920 pelo eixo Londres-Paris, posteriormente administrado sob os auspícios dos EUA após a Segunda Guerra Mundial, está agora completamente obsoleto. As petro-monarquias do Golfo, baseadas em sistemas rentistas e na dependência do dólar, enfrentam uma crise de sobrevivência. O declínio progressivo do dólar como moeda hegemónica não só mina os fundamentos económicos de estados como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait, como também põe em causa toda a arquitectura político-financeira que sustenta a ordem petrolífera desde 1973.

O colapso do sistema dólar-petróleo terá efeitos disruptivos: por um lado, enfraquecerá a capacidade das monarquias do Golfo de manter a estabilidade interna e o consenso; por outro, abrirá espaços de influência para novos actores como o Irão, a Turquia e, indirectamente, a China e a Rússia. Nesta transição, os Estados Unidos procurarão manter o controlo através do caos estratégico, alimentando tensões regionais para impedir a formação de uma nova ordem do Médio Oriente não alinhada com o seu domínio. No entanto, a linearidade deste plano está comprometida: as alianças estão a mudar, as falhas sectárias e políticas estão a multiplicar-se e a velha ordem colonial do Médio Oriente está a ser progressivamente corroída por dinâmicas internas e transcontinentais.

Ao contrário do que muitos observadores afirmam, a desdolarização total não é um objectivo benéfico nem para a China nem para a Rússia. O colapso total do dólar provocaria de facto um colapso sistémico da economia global, gerando uma crise de confiança no comércio internacional e nas reservas cambiais. Pequim e Moscovo, por outro lado, pretendem uma reformulação da força do dólar—isto é, uma transição para um sistema monetário multipolar que reduza a dependência dos Estados Unidos, mas não elimine o seu papel como referência global.

Neste contexto, o Irão desempenha um papel simbólico e funcional: ao exigir pagamentos internacionais em yuan, Teerão reforça a sua integração com a economia chinesa e ajuda a consolidar a utilização da moeda de Pequim nos mercados energéticos. Este movimento não visa destruir o dólar, mas reequilibrar o sistema, privando Washington de parte da influência que exerce através do controlo dos circuitos financeiros e das sanções internacionais. A “guerra cambial”, portanto, surge como parte integrante da competição hegemónica entre modelos de poder — o modelo liberal americano e o modelo centrado no Estado chinês— ambos agora globalizados mas antitéticos nas suas fundações culturais.

 

Europa, a vítima sacrificial

No tabuleiro de xadrez global, a Europa encontra-se mais uma vez na posição de vítima colateral das estratégias das grandes potências. Depois de três décadas de estagnação económica, exacerbada por sanções contra a Rússia e pela turbulência energética, a União Europeia está a avançar para um paradigma de “economia de guerra”. As instituições europeias, conscientes da fragilidade do sistema industrial e das vulnerabilidades energéticas, estão a promover investimentos massivos no sector da defesa, apresentados como medidas de segurança, mas que servem para sustentar artificialmente a produção nacional.

Tanto o Secretário-Geral da NATO como a Comissão Europeia sublinharam, há meses, a necessidade de uma “mobilização económica em tempo de guerra”, um sinal claro de que a Europa está a renunciar à sua autonomia estratégica para se adaptar às exigências do complexo militar transatlântico. Tal dependência, no entanto, beneficia tanto a Rússia como os Estados Unidos: Moscovo pode dar-se ao luxo de limitar o envolvimento directo num conflito convencional contra uma Europa enfraquecida, enquanto Washington pode explorar esta fragilidade para desmantelar as velhas estruturas de poder eurocêntricas, a começar pela NATO. Elementar, meu caro Watson. A matemática funciona a favor de todas as partes envolvidas.

A dissolução gradual da NATO — uma organização criada após a Segunda Guerra Mundial para proteger a Europa sob influência britânica e americana — daria o golpe final à velha ordem. Sem esta estrutura de equilíbrio, os Estados Unidos teriam liberdade para dominar directamente a Europa, redefinindo a sua forma de imperialismo num sentido neomonárquico: um poder não mais equilibrado por instituições multilaterais, mas fundado na dominação unilateral pós-democrática.

O conflito no Médio Oriente revela-se assim não apenas como uma crise regional, mas como um catalisador de mudanças globais destinadas a redesenhar a geografia do poder nas próximas décadas. O ataque indirecto à China, a metamorfose do Médio Oriente, a reformulação do dólar e o colapso Europeu, tudo converge para uma única trajectória: esta guerra mudará o mundo mais do que qualquer outra travada até à data.

 

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O autor: Lorenzo Maria Pacini [1994 -] é Professor Associado na University UniCampus HETG de Geneve e Professor adjunto de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno e na Universidade Livre de Bellinzona. Estudou Filosofia e Teologia na Universidade Pontifícia Santa Croce de Roma, especializando-se em Bioética no Ateneo Pontifício Regina Apostolorum de Roma. É licenciado em Filosofia Estética pela Università degli Studi di Ferrara. Preparou o seu doutoramento na UniToscana-Universidade Leonardo Da Vinci de Zurique em Filosofia Política, com um projecto sobre a metafísica política em A. Dugin. Foi também chefe do primeiro curso académico sobre a Quarta Teoria Política de Aleksandr Dugin e do curso geopolítica do mundo Multipolar. Trabalha frequentemente como consultor em defesa e inteligência para assuntos diplomáticos e agências privadas. Jornalista, editor, músico, Taekwondo e atleta de tiro com arco. Membro consultor da WABT-Academia Mundial de Ciências e tecnologias biomédicas; membro do Conselho de administração do OSS – Observatório contra a vigilância Estatal do ECSEL (Europen Center for Science, Ethics and Law). É um dos fundadores do centro de Estudos Internacionais sobre multipolaridade “Daria Dugina”. Atualmente, árbitro italiano do movimento eurasiano Internacional. Fundador e Diretor da http://www.ideeazione.com

 

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