POESIA AO AMANHECER – 289 – por Manuel Simões

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ROSA ALICE BRANCO

( 1950 )

PASSOS SEM MEMÓRIA

Olho pela janela e não vejo o mar. As gaivotas

andam por aí e a relva vai secando no varal. Manhã cedo,

o mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume

e o jornal. A saliva com que te hei-de dizer bom-dia.

As palavras são as primeiras a chegar. O que fica delas

amacia o papel. Pão quente com o sono de ontem

e os sonhos de hoje. Prepara-se o dia, os passos

de ir e vir. Estou cada vez mais perto. Olhas-me

como se soubesses o que hei-de saber mais logo.

Nesta cidade nunca é meio-dia. Há sempre uma doçura

de outras horas. E recordações avulsas. Deixa-as sair

de dentro do vestido, deixa soltar as ondas do mar.

A janela está vazia. O meu filho caminha na praia

e tu soletras as gaivotas. Caminha à minha frente

sem deixar pegadas. Perco-me como todas as mães,

todos os amantes. Invento passos e palavras

para adormecer. A esta hora a minha avó enrolava o rosário

nas mãos. Eu estava dentro das contas, dentro do sono

que rondava a prece. Durante muito tempo estive fora.

Agora caminhamos juntos. Sem memória.

(de “Soletrar o Dia”)

Poetisa e ensaísta. Dirige a revista on-line “logovemos”. Da sua obra poética: “Animais da Terra” (1988), “Monadologia Breve” (1991), “A Mão Feliz” (1994), “O Único Traço de Pincel” (1997), “Soletrar o Dia” (2002), “O Mundo não acaba no frio dos teus ossos” (2009), “Gado do Senhor” (2011).

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