O dia 6 de Setembro, na Conferência “João dos Santos no século XXI”, António Sampaio da Nóvoa proferiu uma conferência com o título “João dos Santos – a força das perguntas”. Vou tentar deixar algumas das ideias que partilhou com os presentes.
Partiu do livro “Ensaios de Educação II”, publicado pelos Livros Horizonte, que reuniu os textos que João dos Santos publicava no Jornal de Educação na década de 80. Nele trespassa a ideia de escola como espaço público e educacional.
Uma referência sempre presente na obra referida é a preocupação com a excessiva institucionalização do ensino, onde os professores se podem tornar em meros “administradores” do ensino. Realçou que no tempo em que os textos foram escritos, era um tempo em que se começava a perceber que não será bom que tudo se passe dentro da escola, que é importante tudo o que se aprende antes da idade de a frequentar, tudo o que se aprende na comunidade, com os amigos, com tudo que rodeia cada indivíduo.
Assim, a educação para todos é a educação feita por todos, na mobilização de toda a sociedade, numa tomada de consciência dos limites da escola e num abrir do espaço para a responsabilidade social.
Lembrou que João dos Santos frisou muito que ler não é só ler as palavras, é ler o mundo e nas pessoas.
António Nóvoa realçou duas “provocações” do homenageado e que ainda hoje nos desassossegam:
– a de que ninguém ensina nada a ninguém (com o caso irónico de um pai que apanhou o filho a apanhar lesmas no quintal e o mandou para casa estudar ciências nos livros…). Daí a sua recusa das respostas feitas, das certezas definitivas.
– a de que a criança já adquiriu todos os conhecimentos necessários e todas aptidões antes de entrar na escola e de que, quando não o fez, será difícil o progresso de uma forma linear.
Lembrou o pedagogo francês Philippe Meirieu, na crítica ao sistema de avaliação dos alunos, que é feito com base no preconceito de que em cada turma normal, um terço dos alunos são bons, um terço são médios e um terço são maus… E aqui ironizou: “Ainda bem que as crianças aprendem a andar e a falar antes de entrarem para a escola!”
Voltou ao seu conhecimento da pedagogia e filosofia francesa, com a ideia de Michel Serres de que antes de ensinar o que quer que seja, a quem quer que seja, seria bom conhecer-se essas pessoas.
Percorrendo as crónicas de João dos Santos de uma forma habilidosa, irónica quando comparada com a situação presente que se vive no ensino em Portugal, foi-nos lembrando algumas muito engraçadas, as quais é impossível transcrever. Defendeu uma escola pública onde todas as crianças se possam sentir bem acolhidas. Neste Ano Europeu dos Cidadãos é importante a inscrição das pessoas nas actividades públicas.
Aconselho o livro “Ensaios de Educação II”, de leitura fácil, diversificada, ainda muito actual e sempre questionante – do próprio autor, de nós próprios e da sociedade.


Este post saiu no mesmo dia em que saiu o Jornal de Letras, mas tinha sido escrito antes, baseado nos apontamentos tirados durante a conferência de António Nóvoa. Na íntegra, vem publicada no último JL, para quem estiver interessado em lê-la na totalidade.