NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 112

Parêntese

Não acabei de entrar, oiço uma voz conhecida.

– Olá! Vieste ao Amadeu…

Vi duas vezes “Sob o Signo de Amadeu”, não, hoje na verdade só vim ao melão. A conversa não convence o interlocutor, que começa visivelmente a suspeitar: marquei aqui um encontro, tento agora disfarçar, gato escondido com rabo de fora. (Como se os encontros secretos – para quem os tiver – pudessem ser marcados no CAM.) Esclarecer a dúvida é, de certa maneira, autorizá-la, o que aliás pouco importa, proponho todavia que se sente, me acompanhe o melão, paciência, entrei para me refrescar, para me alimentar, vou atrás das riscas amarelas e vermelhas: uma pequena rota. O meu vizinho faz então a pergunta fundamental.

– Para quê?

– Para descobrir.

Ele revira o verbo como se os descobrimentos não fossem hereditários.

– Descobrir? Descobrir?… Que faças isso na Islândia, mesmo na costa vicentina… Não conheces Lisboa?

– Tento não conhecer.

Ficamos em silêncio. Eu… Desolada com este melão seco, com este melão verde, grande melão… Hesito se o vou ou não devolver.

– Como é que voltas?

Bom samaritano, o conhecido propõe ir buscar-me – trouxe ao menos o telemóvel – quando as pernas se cansarem, contanto que eu saiba explicar onde. É reconfortante contar com apoio e socorro filantrópicos, mesmo se não entendem para onde vamos; todavia a regra é eu dar solução aos problemas que invento. Ainda assim agradeço. E combino uma visita ao Frei Carlos na Arte Antiga.

– Se amanhã conseguir pôr-me de pé…

Leave a Reply