ANOTAÇÃO
o mais tardar no outono dos anos
tudo o que fica depois do desconforto
dos ossos magoados e das sombras do pensamento
são retratos, letras a preto e branco, incêndios
sobre a comoção das folhas.
e é claro, nítido e verdadeiro, o som
de cada sílaba a caminhar no poema.
olhos, mãos e tinta são como nascentes
frágeis e delicadas capazes de salvarem
a música da luz e a vida do silêncio.
as palavras surgem como lugares desabitados
e colam-se a tudo o que sobrevive ao tempo.
e, como se fossem um chão de pedra
com arestas em granito vivo, avisam:
o amor é um número primo que arranha todos os pianos.
como um principiante que é rebelde ao solfejo.
anoto.

