As sílabas marginais/ANOTAÇÃO/Nelson Ferraz

 

 

ANOTAÇÃO

 

 

o mais tardar no outono dos anos

tudo o que fica depois do desconforto

dos ossos magoados e das sombras do pensamento

são retratos, letras a preto e branco, incêndios

sobre a comoção das folhas.

 

e é claro, nítido e verdadeiro, o som

de cada sílaba a caminhar no poema.

 

olhos, mãos e tinta são como nascentes

frágeis e delicadas capazes de salvarem

a música da luz e a vida do silêncio.

 

as palavras surgem como lugares desabitados

e colam-se a tudo o que sobrevive ao tempo.

 

e, como se fossem um chão de pedra

com arestas em granito vivo, avisam:

 

o amor é um número primo que arranha todos os pianos.

como um principiante que é rebelde ao solfejo.

 

anoto.

 

 

 

 

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