Diz-se que é de Voltaire a frase «Que é a política, se não a arte de mentir a propósito?» E esta denúncia impiedosa vem-me à memória agora, quando no nosso dia-a-dia político, mais do que o que os governantes pensam ou deixam de pensar, programam ou deixam de programar, propõem ou deixam de propor, fazem ou deixam de fazer, o que é notícia são os seus continuados conflitos com a verdade.
Situo esta reflexão na política portuguesa, ainda que saiba que não é diferente do que se passa no resto do mundo, particularmente no ocidente em que nos inscrevemos. E situo-a na atualidade ainda que, como demonstra Voltaire, seja fenómeno cujas raízes se perdem nos confins da história, mas agravado quando a era da comunicação trouxe a política para o convívio diário com a totalidade dos cidadãos e já não apenas com uma casta de iniciados. E situo-a na política em democracia já que, em ditadura – e disso temos experiência que baste – a mentira é inerente à sua própria condição.
Acontece que, de facto, a política em democracia, estando a tornar-se exclusivamente numa disputa pelo poder através da conquista do voto, fez da mentira o instrumento decisivo dessa disputa. Vence quem melhor, logo com mais eficácia, saiba utilizar a mentira na recolha de votos. Mentira é sinónimo de promessas alardeadas em campanha eleitoral, que se vai progressivamente descredibilizando. Todos os governos, desde 1976 – e excluo, porque estão fora desta lógica, os governos de passagem de iniciativa presidencial – contribuíram para o descrédito. Os vícios do sistema, em que o parlamento abdicou da sua natureza de instância de controlo do executivo para se transformar no seu acrítico suporte, encarregaram-se de institucionalizar a mentira.
Na atualidade a mentira política tornou-se mais perversa, porque passou a visar a cobertura de interesses dos políticos. Já não é apenas a mentira da política a pretexto de equívocos interesses nacionais, é a mentira dos políticos a propósito de óbvios interesses pessoais. Para além da mentira de programas que previamente se sabe que não são para cumprir, da recusa de alianças que já estão esboçadas, da negação de impostos que já estão programados, do repúdio de “disparatados” cortes de rendimentos que já estão agendados, os políticos de hoje mentem sobre os percursos obscuros das suas vidas, dos seus currículos, dos seus compromissos, dos seus atos, dos seus despachos, dos seus negócios, das suas redes de cumplicidades. Contrapartidas, swaps, BPN, SLN, privatizações, é um pântano de equívocos em que imperam a mentira, a simulação, a omissão.
A “podridão” na política. A qualificação vem de alguém que aparece, cada vez mais, mergulhado nessa podridão.
Com a mentira os políticos envolveram Portugal numa guerra sórdida. Com a mentira os políticos entregaram a soberania de Portugal em mãos estranhas. Com a mentira os políticos tornaram o eleitorado português refém do medo e a coberto do medo confiscam-lhe qualidade de vida, sugam-lhe a própria dignidade.
A mentira com dolo já transcende o domínio da política. Passa a ser do domínio da polícia.

concordo.