EDITORIAL – «A prova da gamela».

Imagem2Temo-lo dito – no meio de gente desconhecida, incompetente e sem brilho, como a que constitui o governo, no meio de arrivistas, Nuno Crato destacava-se pelo prestígio que trazia. Prestígio baseado numa cultura sólida e numa postura de grande seriedade intelectual. Mesmo entre as esquerdas, sabendo-se que era um democrata moderado e próximo das posições de direita, mesmo entre as esquerdas era respeitado. A sua nomeação como ministro da Educação e Ciência de um governo do PSD não terá causado grande surpresa. O que causou espanto foi, quando este executivo demonstrou que iria governar numa base de terrorismo económico, fazendo tábua rasa de leis, de direitos, de justiça social, quando se viu que ia ser assim, Nuno Crato, não se tivesse demitido. E, aos poucos, vai-se percebendo porquê.

A notícia de que sua mulher foi nomeada para um organismo sob a sua tutela, o Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência  e Tecnologia, numa evidente demonstração de nepotismo, já não desilude porque as ilusões sobre a probidade moral de Nuno Crato estão perdidas. Mas é feia esta aceitação de uma nomeação que segundo afirma foi feita à sua revelia pela secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira. Mesmo que seja verdade, um político honesto não aceitaria a nomeação, demitindo a secretária de Estado por um acto de tão baixa sabujice cometido, à revelia do ministro. Mas Crato, afirmada a sua inocência, aceita o que é uma aberração como uma coisa natural; como se aquele cargo pertencesse por direito divino a sua mulher, Luísa Araújo, integrou o corpo docente de um politécnico privado como professora de Português o que torna discutível a adequação seu currículo ao cargo para que foi nomeada e consolida a suspeita de que tal nomeação terá alguma coisa a ver com o pormenor de o marido ser o ministro da tutela.

Um editor da velha guarda, costumava dizer que, para se ver se um tipo é sério ou não, tem de se lhe pôr a gamela ao alcance – «Longe da gamela, todos são sérios», dizia. E concluía: «Para se ver se são mesmo sérios, tem de se lhes pôr a gamela à frente. E aí é que se vê, se distribuem equitativamente o conteúdo da gamela ou se comem tudo eles, os amigos e os familiares».  A prova da gamela.

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