
Nas ruas, nas praças, nos ginásios, no mercado de Atenas, Sócrates aborda e interroga os mais ilustres espíritos da Cidade e da Grécia, estadistas, sacerdotes, poetas, especialmente os homens que todos consideram sábios. A todos confunde. Começa por perguntar o que é isto, o que é aquilo. Vai refutando as sucessivas respostas, uma a uma, até levar o interlocutor a uma insuperável contradição lógica. Por exemplo, assim:
– Diz-me então, Êutifron, que espécie de coisa é a piedade e a impiedade.
Êutifron responde:
– Eu diria, Sócrates, que a piedade é o que todos os deuses amam. E o contrário, o que todos os deuses detestam, é a impiedade.
– Mas Êutifron: a piedade é amada por ser piedade ou é piedade por ser amada pelos deuses ?
Começa a ser evidenciada a contradição lógica do pensamento de Êutifron: ser amado pelos deuses não pode ser definição de piedade pois esta é antecedente e não consequente. E a não confusão entre causa e efeito é exigência básica do logos (razão). Assim como o seu pai soubera libertar da irregularidade mineral cubos e paralelepípedos, assim Sócrates exige aos seus concidadãos que aprendam a libertar da irracionalidade verbal os conceitos de Piedade, Justiça, Sabedoria, Coragem, Liberdade, Amor e Sensatez; ou seja: que aprendam a filosofar; ou seja ainda: que aprendam a ser amigos da sabedoria. Sócrates é o proclamador da dúvida sistemática, da frieza do logos (razão) contra a incoerência dos debates acalorados.
