«MORNA- TANGO – 1880» – um excelente trabalho do musicólogo Vasco Martins

Imagem1 (2)Temos, por diversas vezes, chamado a atenção para as similitudes que, no plano socio-cultural, existem entre fado e tango. Canções urbanas, surgidas em cidades portuárias como Lisboa, Buenos Aires, Montevideu, revelam ambas uma intenção comum – a de cantar as preocupações, os anseios, nostalgias, da gente humilde – das classes trabalhadoras. As referências literárias ao fado são mais antigas do que as que reportam ao tango. Jorge Luis Borges, dando-se conta dessas similitudes, colocava o fado na linha genealógica do tango – o que não é difícil de explicar, considerando os milhares de portugueses que na passagem do século XIX para o XX, desembarcavam nas duas metrópoles do La Plata, com as suas guitarras na bagagem. Relações entre fado e morna são também matéria estudada. Porém, nós que, leigos no plano musical, apenas abordámos a questão na perspectiva histórica e social, deparámos com um curioso estudo de Vasco Martins, um conceituado musicólogo, que, partindo de uma edição da Sociedade de Geografia de Lisboa (1880 ou 1885)

 

Em 1880 (?) – (1885?), foi publicado pela Sociedade de Geografia de Lisboa um caderno contendo 8 músicas recolhidas em Cabo-Verde (pelo menos as 8 que me chagaram à mão).  Valsas, Galopes, o famoso tema «Manchê», mas nenhuma Morna. Sendo a Morna, desde os seus primórdios, uma música de traço melódico distinto, pode-se imaginar que, o músico ou musicólogo que fez a recolha e as transcrições, ou ignorava a Morna porque ainda não existia ou porque passou ao lado, o que me parece improvável. De qualquer modo a Morna em 1880 ainda não existia na sua forma ‘construída’ que por volta do início do séc. XX começou a ter, (pelo menos pelo que se sabe); mas tudo indica que já existia talvez era uma Morna com influências da modinha luso-brasileira e do lundum (doce lundum chorado) e, com certeza, do Tango.

Existem duas transcrições em «andamento da Tango»: ‘Xabai’ e ‘Nho Eufronio’.

 Ora andamento de Tango não quer dizer implicitamente que seja um Tango.  Depois de analisar as melodias cheguei à conclusão que são bastante similares com a Morna. O ritmo da mão esquerda do piano, tem a ver com o Tango, mas há algo que pressupõe a Morna.

 Depois de ter feito uma revisão musicológica, fiz a ‘recriação’ das duas peças: a primeira parte em La menor com a rítmica da Morna mais acentuada, com os acordes de passagem e ornamentos, além de uma parte de ‘improvisação’, e a segunda parte respeitando a rítmica que se encontra transcrita. Pode-se verificar que não se nota uma diferença abrupta.

 Fiz a aplicação midi da partitura à qual pus o nome de «Morna-Tango 1880» que publiquei no You Tube.

Concluímos amanhã.

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