GIRO DO HORIZONTE – ESCUTAS – por Pedro de Pezarat Correia

 10550902_MvCyL[1]Governantes europeus levantam a voz, indignados, com o escândalo das escutas telefónicas promovidas pela National Security Agency (NSA) dos EUA. Apenas porque chegou a vez de serem eles os alvos, eles os aliados privilegiados no núcleo central da Globalização, fiéis parceiros da hiperpotência liderante do Império Mundial. Eles que quando os alvos são Estados da periferia ou do eixo-do-mal, tão disponíveis e diligentes se mostram para colaborar em todas as perfídias. Afinal nem eles próprios são de confiança. Que novidade… Na globalização impera o realismo nas relações internacionais e, para os realistas, os Estados nem sempre cooperam mesmo quando partilham interesses comuns.

 De facto, este é um problema típico da Globalização. No Império Mundial a hiperpotência global tem poderes que não partilha nem com os parceiros mais próximos. Poderes materiais e poder estatutário.

 Quando em 1997 Ignacio Ramonet nos presenteou com o excelente livro Géopolitique du chaos (Galilée, Paris), salientava que a Globalização assentava em dois pilares fundamentais, o mercado e a comunicação. São os dois paradigmas da Globalização. O mercado é o neoliberalismo, o capitalismo todo-poderoso que se sobrepõe e esvazia o Estado. Deixemo-lo por agora.

A comunicação, com o progresso vertiginoso das novas tecnologias, confere ao poder meios perversos que lhe permitem penetrar na intimidade de cada um. Com estes meios perversos o poder amplia sem limites a sua perversidade genética.

O pilar da comunicação manifesta-se de várias formas, algumas de óbvio interesse para o comum do cidadão. A perversidade reside no aproveitamento que dela faz o poder contra o cidadão. Aliás tem sido uma constante dos avanços do processo histórico, em que os progressos da técnica e das novas formas de energia, pólvora, vapor, eletricidade, nuclear, para além das melhorias que proporcionaram às condições de vida da humanidade, também se transformaram, tragicamente, em agentes do seu sofrimento, de exploração, de guerras, de genocídios e, até, de ameaça à própria vida na Terra. É matéria muito interessante do domínio da biopolítica para a qual Michel Foucault e Roberto Esposito, entre outros, nos facultam excelentes reflexões.

A comunicação como pilar da Globalização, para além de ser um auxiliar decisivo do outro pilar, o mercado, é utilizado pelo poder de várias formas, a informação tout court, a manipulação, a coação, a propaganda, o culto do modelo único, de pensamento, político, comportamental, económico e, é claro, a espionagem.

A espionagem é um instrumento de poder de todos os tempos, de todas as latitudes, de todos os sistemas. E não apenas de poder político, também de poder económico, quando as multinacionais e transnacionais se sobrepõem aos Estados e têm ao seu alcance os meios mais sofisticados. O que é de novo na espionagem de hoje é a capacidade para se ter transformado num big brother totalitário, no tempo e no espaço. Para espiar milhões de alvos instantaneamente e em qualquer lugar. A novidade está na qualidade e na quantidade, não na sua natureza. Que os aliados se espiam mutuamente, com certeza, sempre o fizeram. A diferença para a época de Richelieu é que este não dispunha de telemóvel.

Li que o governo português se louva porque não foi escutado pela NSA. É sinal da sua pequenez. Estado dispensável, até para os espiões. Para compensar temos tido as escutas internas, a presidência da República objeto das escutas do governo (nos “tempos sinistros” de José Sócrates), o Partido Socialista objeto de escutas não se sabe de quem. È a espionagem picaresca à nossa dimensão.

Se as suas denúncias não tivessem como alvo os EUA, mas outro qualquer país como o Irão, a Rússia ou a China, Edward Snowden seria um sério candidato ao Prémio Nobel da Paz.

28 de Outubro de 2013

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