EDITORIAL – O PERIGO DE UM ESTADO TOTALITÁRIO

Imagem2Hoje devíamos comentar a afirmação do ministro da Defesa Nacional, Aguiar -Branco, de que existe em Portugal a tentação de instaurar um Estado Totalitário e que essa tentação é provocada pela existência de um Estado social absorvente que cria promiscuidades, clientelas e dependências. Este perigo só pode ser debelado, segundo o ministro, por uma revisão da Constituição. Não sabemos e, segundo parece, o ministro não explicou o que deve ser revisto na Lei Fundamental – disse apenas que «a revisão da Constituição é uma questão de afirmação da liberdade da sociedade civil”, Foi ontem, na abertura do ano académico do Instituto de Defesa Nacional, em Lisboa.

O mal das palavras é a sua plasticidade, a grande amplitude semântica que lhes permite muitas vezes dizerem o contrário do que parecem querer afirmar. E não se diga que «a língua portuguesa é muito traiçoeira« – traiçoeira é muitas vezes a mente humana – porque até podíamos estar de acordo com o enunciado que o ministro fez se não soubéssemos que aquilo que ele pretende é mesmo dotar o Estado dos mecanismos institucionais que o livrem de chumbos do Tribunal Constitucional e que deixem mãos livres ao executivo para adoptar as medidas que entender. Por outro lado, segundo o conceito de democracia deste governo, é preciso acabar com  totalitarismos como o Serviço Nacional de Saúde é preciso acabar com o totalitarismo de pagar pensões de reforma…

Há 96 anos eclodiu a Revolução de Outubro (na Rússia estava ainda em vigor o calendário juliano e ao 7 de Setembro pelo calendário gregoriano correspondia o 25 de Outubro). A Revolução de Outubro, Bolchevique ou Vermelha, procurou criar um estado totalitário onde os crápulas, os políticos imbecis produtores de discursos sem nexo, os sabujos e serventuários do poder financeiro, fossem erradicados na acepção mais totalitária do termo. A ideia era boa, mas entre a ideia e os seus beneficiários, meteu-se a natureza humana – o egoísmo e a desonestidade – dos que defendiam e dos que atacavam o conceito que, nas suas últimas consequências, dava à Humanidade um poder total – um totalitarismo que não seria por certo o mesmo de que fala o ministro da Defesa Nacional.

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