EDITORIAL – Mário Soares diz verdades, meias-verdades e… não só

Imagem2Falando ontem, na Fundação de que é patrono, durante uma homenagem a Salgado Zenha, Mário Soares  comparou a actual classe política com os políticos do tempo em que foi primeiro-ministro, concluindo que naquela altura nenhum membro do seu partido “tocava em dinheiros públicos”. Falando de forma muito clara, Mário Soares acusou Cavaco Silva de pertencer ao “bando do Governo. Talvez seja mais o contrário e Cavaco Silva seja o “padrinho”…

Todos reconhecem a grande capacidade política de Mário Soares e a expressão «animal político» que apoiantes e adversários lhe aplicam, faz todo o sentido. Mas quando se escrever a história destes tempos, com a distância indispensável a que a objectividade prevaleça, persiste o facto inegável de que Mário Soares, perante uma encruzilhada onde se podia ter enveredado por uma solução diferente, apostou tudo na via do capitalismo, naquilo a que chamou «socialismo de rosto humano». E não se diga que a alternativa ao capitalismo era, em 1975, de um comunismo feroz, estalinista… Mário Soares, aliando-se a Francisco Sá-Carneiro e com a supervisão de Frank Carlucci, optou conscientemente por abrir caminho aos bandos de gente estúpida e corrupta que hoje controla toda a estrutura do poder. Talvez os políticos do seu tempo não metessem as mãos nos dinheiros públicos – mas as porteiras dos bordéis, mesmo que não se prostituam vivem do «negócio».

Mário Soares exagera ao afirmar que «ninguém tocava nos dinheiros públicos. Nunca tocou. Dos socialistas, felizmente, não há um único de quem se diga que tocou em dinheiros públicos». Isto não é verdade – Diz-se, fala-se de muitos negócios de legalidade duvidosa em que ministros do Partido Socialista estiveram (e estão) envolvidos. Há fortunas súbitas, casos de nepotismo, de favorecimento ilegal, de roubo… E Mário Soares bem o sabe. Diz: “Quem rouba é sempre um caso de polícia. Muitas vezes, sabemos, há ladrões, mas não vão à polícia, nem são julgados, mas isso é a situação. A polícia está zangada, os militares estão zangados – desde os generais até cá a baixo -, a Igreja está zangada. Quem é que não está zangado com este Governo?”. O que também é verdade. Mário Soares diz muitas verdades, mas com elas não consegue branquear a sua responsabilidade na situação que o país vive. Os ladrões não arrombaram a porta. Ela estava aberta ou, pelo menos, encostada.

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