Este artigo de Mário de Oliveira é o texto do Editorial nº 61 do Jornal Fraternizar e é publicado com expressa autorização do autor
Quando tudo em redor é generalizada calamidade social e desemprego em massa, e os governantes do País e das nações europeias se mostram politicamente arrogantes, cegos, surdos e a roçar o estúpido, o que podemos e temos de fazer? Deixarmo-nos cair na depressão e enfrascar-nos com drogas, as químicas e as do religioso? Suicidarmo-nos? Cairmos na tentação de fugir do País, emigrar, à procura de soluções lá longe, em terras estranhas, privados dos afectos familiares e das relações de vizinhança e do chão que nos deu à luz e que espera que partilhemos com ele as nossas capacidades, os nossos conhecimentos, os nossos estudos, os nossos carismas, as nossas artes e toda a nossa potencialidade criativa? O que verdadeiramente se nos impõe, nesta hora? Não é, acima de tudo, cerrarmos os dentes, resistirmos, juntos, à depressão e à tentação de fugir, e ficarmos com tudo o que somos e temos, mas, duma vez por todas, definitivamente longe do grande Mercado que dia e noite nos seduz com as suas propostas e as suas soluções, todas mentira, já que todas têm por objectivo, lucros e mais lucros acumulados e concentrados? É verdade. O que verdadeiramente se nos impõe, é criarmos raízes ainda mais fundas no chão que nos deu à luz e, nele e com ele, inventarmos, juntos, saídas e soluções que o grande Mercado é incapaz de conceber e de gerar, precisamente, porque é, de sua natureza, estéril e odeia a vida tecida de simplicidade e de afectos, de cantos e de danças, de sabedoria e de comensalidade, de criatividade e de artes, as mais diversas.
Nunca choraremos bastante, quando vemos as novas gerações que o grande Mercado formou/formatou, embarcarem nas suas propostas e soluções envenenadas, que lhes roubam a alma, a identidade, os afectos, as relações de proximidade, numa palavra, o chão que as deu à luz, e, ainda por cima, as condena a ter de ir viver em terra estranha, em condições financeiras, porventura, um pouco melhores, mas com custos humanos que na hora da partida, nem sequer somos capazes de imaginar. Porque o grande Mercado nunca dá nada de graça a ninguém, novos e velhos, crianças e suas mães, seus pais. Apenas vende. Apenas aumenta os seus lucros. Sai sempre a ganhar com o sangue, o suor e as muitas horas diárias que nos põe a trabalhar para ele, como seus escravos atentos e reverentes. Temos vivido encandeados pelos seus potentes holofotes e não vemos toda a perfídia e toda a tirania que se escondem por trás das propostas e soluções do grande Mercado. Os próprios infantários, onde as mães, os pais, correm a entregar as suas filhinhas, os seus filhinhos, são espaços concebidos e destinados a formar/formatar as crianças, para que elas se desenvolvam, não em relação, em reciprocidade e em comunidade/comensalidade, mas em egoísmo, individualismo, competição, rivalidade, isolamento, como ilhas cercadas de rivais por todos os lados.
Ora, é exactamente por aqui, pelos infantários, que havemos de começar a dizer NÃO às propostas e soluções do grande Mercado. Em lugar de correrem a entregar as suas crianças aos infantários, as mães e os pais que se encontram nessa situação e necessidade, ousem recusar essa proposta e essa solução do grande Mercado e protagonizem, entre si e uns com os outros, a criação de alternativas para as suas filhinhas, os seus filhinhos. Podem as suas propostas e soluções não terem os requintes das propostas e das soluções vendidas pelo grande Mercado. Mas têm, de certeza, muito mais afectos, muito mais respeito pela originalidade de cada menina, cada menino. E na pobreza de meios, verão que abundam ainda mais os afectos, a espontaneidade, a criatividade de cada qual, a complementaridade. Tudo é diferente, para melhor, quando as nossas crianças são tratadas como pessoas, como sujeitos da sua própria educação, como potenciais criadores e artistas, escritores, poetas, músicos, cantores, actores, pensadores, filósofos, teólogos, clínicos, praticantes de desportos sem fins lucrativos, cozinheiros, engenheiros, arquitectos, sem nenhuma das perversas ideologias do grande Mercado e do grande Institucional. E tudo conseguido e concretizado na gratuidade, na partilha, na reciprocidade, em forma de vasos comunicantes.
As novas gerações têm, pois, nas actuais condições de generalizada calamidade social e de desemprego em massa, um grande desafio pela frente. O desafio a ficarem no chão que as deu à luz e sobre ele e com ele, colocarem as suas capacidades e os seus conhecimentos ao serviço de propostas e de soluções outras, concebidas e geradas por elas, sempre em sintonia e em cooperação com as gerações mais velhas, num universo que há-de ser tecido de simplicidade, e de costas completamente voltadas para o grande Mercado e todo e qualquer outro grande Institucional. Porque tudo o que é grande institucional, é sempre esmagador, ladrão, assassino. Se nos contrata, é só para o fazermos crescer a ele, não para crescermos nós. E, se também crescemos, é só em submissão, em sabujice, em corrupção, em trafulhice, em inumanidade, em isolamento. E, para isso, melhor fora não termos nascido!
Não nos deixemos iludir e enganar. Todas as propostas e soluções que o grande Mercado nos vende, vêm carregadas de veneno mortal. A começar pelos infantários e pelas escolas, as públicas e as privadas, desde o básico ao superior. E a acabar nas grandes religiões do Livro e em todas as outras empresas transnacionais. Cabe às novas gerações acordar e virar costas definitivamente às propostas e soluções do grande Mercado. Darem corpo a um novo Começo, plena e integralmente Humano. Bem à medida de cada menina, cada menino. Não emigreis mais, pede-vos o País e todo o seu Povo. E aqueles muitos milhares de vós que já emigraram, regressai, hoje mesmo, se possível, ao chão que vos deu à luz, aos afectos e às relações de vizinhança e de reciprocidade. Ousai ser criativos, aqui. Inventai propostas e soluções de humanidade, nunca mais de lucro. E o grande Mercado que apodreça e impluda, à míngua de servidores que já não consegue mais seduzir nem contratar. Descubramos e adoptemos, juntos, e com alegria, um estilo de vida outro, tecido de simplicidade, em permanente relação com a natureza, bem ao estilo das aves do céu e dos lírios do campo. Que tudo o mais vem por acréscimo!
