Rachel Gutiérrez tem lutado para que a Clarice Lispector não aconteça o que sucede a tão grandes escritores – após a morte, a sua obra vai ficando soterrada sob camadas sedimentares de novos valores e de modas literárias, até cair no esquecimento e deixar de existir para o grande público, passsando a ser matéria para historiadores da literatura, para arqueólogos que afastando escórias e detritos, trazem por vezes à luz. A criação de um clube de leitores, a pressão junto dos organismos que tutelam a cultura brasileira, têm sido passos dados pela nossa colaboradora. Vamos, em dois posts, transcrever alguns pedaços de duas intervenções públicas . A primeira foi pronunciada em Abril de 2004 na Câmara dos Vereadores do Rio, quando Rachel e suas companheiras conseguiram para Clarice o título de cidadã carioca. A segunda foi dita em 2 de junho de 2006 perante a Assembléia Legislativa. Ambos os discursos, em prol da memória de uma grande escritora – a maior escritora da língua portuguesa, desde sempre, segundo António Lobo Antunes. Vamos ler excertos da primeira intervenção.
Clarice Lispector, cidadã brasileira e carioca – excertos de uma intervenção de Rachel Gutiérrez
Há 10 anos vimos celebrando “o eco dessa voz vinda das origens”, como diz Hélène Cixous, da Sorbonne e da Universidade de Paris VIII, a mesma Hélène Cixous de quem traduzi A Hora de Clarice Lispector, hoje um clássico, publicado na França, na Inglaterra, no Canadá e nos Estados Unidos. Hélène Cixous mandou um fax apoiando e exaltando o nosso trabalho já na primeira reunião da ALACL, na BN, onde fomos acolhidas pela generosa competência e pela fidalguia de Affonso Romano de Sant’Anna, em 1994, quando as obras de Clarice ainda eram editadas pela Francisco Alves. […] Pois entre as primeiras fichas de nossos associados está a do grande divulgador de Fernando Pessoa na Itália e na Europa, o escritor que também já tive o prazer de traduzir, Antonio Tabucchi, que, por sua vez traduziu e prefaciou a edição italiana de Laços de Família.
Ainda em 94, inauguramos, com o apoio do Patrimônio Cultural da Prefeitura e da Amaleme, uma placa no prédio de nº 88, da Rua Gustavo Sampaio, onde Clarice morou até o fim. […] Autran Dourado, amigo da escritora e de nossa Associação, afirmou que “temos muitos e grandes escritores em nosso país, mas só temos três criadores de língua: Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector.” E recentemente, em Buenos Aires, li na cinta que envolve a edição em língua espanhola de A Maçã no Escuro, esta afirmação de Antonio Lobo Antunes, escritor português tão reconhecido e famoso, na Europa, quanto Saramago. Ele diz: “Clarice Lispector, a melhor escritora em língua portuguesa de qualquer tempo e lugar. Um gênio.” […]Ao longo desses dez anos, sem nenhum outro tipo de apoio ou subsídio oficial e muito menos comercial, Ester Schwartz, Lúcia Helena Vianna, Consuelo Campos e eu, com nossos amigos e associados, temos tido momentos memoráveis. Fizemos reuniões na Casa de Rui Barbosa, na Casa da Leitura, na Maison de France, no IAB. Duas vezes ocupamos a Academia Brasileira de Letras. E ali, num primeiro Seminário, do qual participaram generosamente inúmeros professores, daqui e de São Paulo, atores, intelectuais, cineastas, psicanalistas, a TVE fez parte do filme sobre Clarice que continua a mostrar periodicamente. Clarice disse : …estremece em mim o mundo. […]]Ao longo desses dez anos, sem nenhum outro tipo de apoio ou subsídio oficial e muito menos comercial, Ester Schwartz, Lúcia Helena Vianna, Consuelo Campos e eu, com nossos amigos e associados, temos tido momentos memoráveis. Fizemos reuniões na Casa de Rui Barbosa, na Casa da Leitura, na Maison de France, no IAB. Duas vezes ocupamos a Academia Brasileira de Letras. E ali, num primeiro Seminário, do qual participaram generosamente inúmeros professores, daqui e de São Paulo, atores, intelectuais, cineastas, psicanalistas, a TVE fez parte do filme sobre Clarice que continua a mostrar periodicamente […]E no final de A Paixão segundo G. H. : Ah ! meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. Quem lê essa brasileira consagrada entre os grandes escritores do século XX sabe que o Rio de Janeiro é não apenas cenário mas personagem privilegiada de sua obra. Foi o Rio a cidade que ela escolheu para viver, escrever e morrer.
