VERDES SÃO OS CAMPOS…
por Manuel Simões
Com o título Adeus, Campos Felizes publicou Rui Lage uma “antologia do campo na poesia portuguesa do século XIII ao século XXI” (Assírio & Alvim, 2025), com selecção do Autor, o qual produziu também um estudo pertinente e circunstanciado: “Do campo ideal e do campo real na poesia portuguesa”, considerando ‘campo’ a realidade geográfica social e económica onde sobrevivia o camponês no isolamento mais cruel e com as privações conhecidas. O País era essencialmente rural e a literatura (poesia e não só) teve sempre como referência esse universo, embora, curiosamente, e sobretudo por pressão da classe política dominante, a atmosfera que aí se respirava era vista como marca de felicidade, paradigma que chegou à propaganda do Estado Novo da “casa portuguesa”, de que o escandaloso sucesso de “Casinha”, dos Xutos, é a versão revista e adocicada pela música.
No século XIX, certamente pela preponderância das áreas urbanas. criou-se uma tensão entre a imagem da cidade e do campo. Até ao Romantismo português (Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco), as acções romanescas contemplavam personagens de extracção rural. É com Eça de Queiroz, desde O Crime do Padre Amaro, que o tecido urbano passa a ser o palco privilegiado, além do mais com a invenção (em conjunto com Antero de Quental e Jaime Batalha Reis) de um poeta, Carlos Fradique Mendes, paradigma da assumida vanguarda e contra um certo mal português, o provincianismo cultural. Com A Cidade e as Serras, porém, Eça enfrenta a contraposição cidade/campo e repropõe o tema do retorno ou da viagem regeneradora, com a consequente crítica aos paraísos artificiais da modernidade. Em todo o caso, recorde-se que Jacinto volta de Paris e acaba por influir na transformação de Tormes, por muito pequena que tenha sido essa influência.
O ensaio de Rui Lage inicia com a constatação que todos partilhamos, a de que no campo «a felicidade terá sido o mais escasso dos bens» e aí está a emigração a comprová-lo a partir de meados do século XX, o êxodo que deixou o campo deserto; analisa depois, e detalhadamente, os ciclos literários e as influências que pontificaram ao longo das décadas, de modo a organizar um complexo de «modos de ver e interpretar as sedimentações e mudanças do mundo rural português». Neste aspecto, é com a poesia neo-realista (José Gomes Ferreira, Manuel da Fonseca e Carlos de Oliveira, sobretudo) que se começa a desenhar o fim do canto bucólico, contrapondo-lhe a denúncia das condições sub-humanas e de penúria da vida rural, mais tarde exemplarmente descritas no grande romance Levantado do Chão, de José Saramago.
Como já se intuiu, o título da antologia resume com ironia um corte vertical que literariamente se produziu na consciencialização progressiva dos escritores portugueses. Curiosamente, porém, o nosso tempo viu crescer o que se pode chamar a ‘fuga das cidades”, como refere Rui Lage: «vende-se hoje em pacotes turísticos (…) um ruralismo cosmético, sem alfaias ou herbicidas, sem o esterco e o estrume», na tentativa de transferir a cultura urbana para o ambiente rural e, portanto, num movimento inverso ao que historicamente se produziu de forma muito lenta.
Sobre a antologia, que selecciona «textos portadores de uma ressonância testemunhal», ocorre dizer que é demasiado alargada porque muitos dos textos não são atinentes com a proposta, a não ser que se pretenda justificar as 662 páginas. Dos poetas medievais, por exemplo, os textos seleccionados são cantigas de escárnio ou de amor, onde a referência a “pastor/a” não é suficiente para determinar a atmosfera rural; e dos poetas renascentistas, também os termos “gado” ou “campo” (Camões) só se podem ler como elementos da semântica amorosa. Haveria que mondar uma série de nomes, aqui inseridos só porque sim, mas isto deveria pertencer ao trabalho do editor, e a prática editorial portuguesa não prima pelo rigor. Este reparo quanto à selecção (Manuel da Fonseca está representado com dois poemas, um deles só indirectamente alusivo ao tema, Vitorino Nemésio com cinco, e A.M. Pires Cabral também com cinco) não invalida o grande mérito de proporcionar ao leitor matéria sociológica ou política para uma reflexão crítica através do texto poético.

