Norberto, na segunda aula do semestre, decidiu-se a abordar Nachawi. Quando a lição terminou, os oficiais iam descendo os degraus do anfiteatro e ao passarem pela mesa do professor, esboçavam uma continência em jeito de saudação. Quando Nachawi passou, Norberto chamou.
Tenente- Coronel Nachawi.
O interpelado parou e voltou-se vagarosamente:
– Sim, professor.
– Faça o favor de aqui chegar.
– Pois não – e apoiando-se na bengala, aproximou-se – Sim, diga professor.
-Norberto olhou-o nos olhos e julgou ver uma cintilação de troça.
– .Como é que um agente da PIDE, um criminoso, um assassino, chega a Tenente-coronel do nosso exército?
– Professor, não sei do que está a falar… Boa tarde – ia afastar-se, mas Norberto fincou-lhe a mão esquerda no braço, enquanto a direita agarrava a coronha da Walther P38 que sempre o acompanhava, num coldre que o casaco de linho ocultava.
– Agente Nachawi, nem pense em sair antes de eu o autorizar – Estavam sozinhos, embora perto da porta um grupo conversasse. – Se tentar alguma habilidade abato-o como a um cão!
O homem percebeu que Norberto não estava a brincar:
– Professor, não sei porque insiste em chamar-me «agente Nachawi». O nome corresponde, o cargo não.
– Não se lembra de mim, em Xuvalu?
– Não, nunca o vi na vida, professor… agente da Pide? Xuvalu?… Deve estar a referir-se ao meu irmão?
– Irmão gémeo – Norberto aventou a hipótese em tom irónico.
– Não, não somos gémeos… ele é mais velho catorze meses.
– Estou a ver… e a sua perna, claro que não foi o pontapé do tenente Guilherme Lopes que a fracturou
Nachawi aprumou-se e libertou o braço que Norberto agarrava.
– Professor, nunca o vi ao senhor, não sei quem é o tenente Guilherme Lopes, nunca estive em Xuvalu, e a minha perna sofreu um grave ferimento de bala. Agora vou sair e o senhor fará o que entender. Passe bem.
Norberto deu-lhe um berro:
Tenente – Coronel Nachawi! – o militar parou e Norberto baixou o tom da voz – Vou revolver o céu e a terra até descobrir a verdade. Há crimes que não têm perdão.
…………………..
Nas aulas seguintes Nachawi não apareceu. Norberto foi até às mais altas instâncias e apurou que, de facto, havia dois irmãos Nachawi. Um mais velho David nascera catorze meses antes; o mais novo, Afonso, estudara na Missão Adventista. Tudo parecia confirmar que havia dois irmãos fisicamente iguais,, embora não sendo gémeos…Norberto não parou a investigação. E, munido de credenciais, foi à aldeia onde os Nachawi haviam nascido. E falando com o pastor da Missão soube que Afonso morrera vítima de tuberculose em 1957, com 26 anos.
* H muito a desenterrar dos escombros daquela guerra famigerada ,intil fruto da obstinao de “ORGULHOSAMENTE SS ” -Maria *