QUANDO OS MENINOS NÃO TÊM A CERTEZA DE MERECER OS PRESENTES DE NATAL por clara castilho

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Trabalho com crianças vítimas de contextos familiares traumatizantes. Para elas é, por vezes, muito doloroso pensar, imaginar, aprender. E quando conseguem imaginar são muitas vezes invadidas por determinados tipos de conflitos. Nas suas histórias de vida encontramos a existência de laços falhados na relação mãe-filho e na família mais alargada, laços falhados de aliança, de filiação, de fraternidade. Muitas vezes têm dificuldades em saberem quem são, quem é a sua família, quem as ama, quem serão capazes de amar.

Incentivadas a imaginar histórias conseguem fazê-lo de uma forma natural, permitindo a projecção dos seus conflitos, medos e fantasias. Assim, elas podem manifestar sentimentos de culpa, de inquietação, de solicitude. Podem encarar de uma outra forma a iminência de consumação de perdas afectivas. Podem idealizar o passado, com tentativas de recaptação do objecto perdido.

No caso de crianças objectivamente vítimas de abandono, elas procuram explicar a si próprias a razão das várias perdas por que já passaram e enfrentar este duplo traumatismo. Podem ultrapassar o ódio e raiva de não terem sido suficientemente amadas.

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É frequente os adultos dizerem às crianças que terão presentes se se portarem bem, mesmo quando elas já sabem que quem os dão são os pais. Algumas crêem mesmo que não merecem os presentes, sobretudo quando passam os dias a ouvir que se portem bem…

E chegamos às histórias que imaginam na época do Natal. São capazes de desenhar presépios, mas o mais frequente é ser o Pai Natal. O tal que traz presentes… E todos os anos aparecem histórias em que os presentes desaparecem. E as voltas que elas dão para resolver o problema e os presentes aparecerem! Não guardei algumas do passado, mas vejamos esta que traz a marca da actualidade:

Era uma vez um Pai natal que viajava por todos os países para entregar presentes aos meninos do mundo inteiro.

Chegou então a noite de natal e o grupo das super crianças, que eram ajudantes do pai natal, estavam atentas a acompanhar a rota que o Pai Natal estava a fazer no seu trenó Lamborghini/Ferrari/Porsche/Jaguar, quilómetro a quilómetro, através do GPS e do Google maps.

Mas a dada altura perderam o sinal da localização do Pai Natal. Ele tinha desaparecido. Onde estaria?

As super crianças começaram a ver através do satélite da Terra que as crianças do mundo inteiro estavam a ficar irritadas, tristes, muito infelizes, a chorar e a chegarem a pensar que se tinham portado mal ao longo do ano e não mereciam receber presentes.

As super crianças estavam muito preocupadas sem saber o que fazer, quando, de repente, receberam um sinal.

A criança super inteligente, que era também muito atenta, conseguiu ouvir os sinos do Pai Natal trazidos por um relâmpago de fogo e a criança super eléctrica conseguiu iluminar o caminho até ao Pai Natal com uma seta relâmpago.

A criança super rápida conseguiu levar os seus colegas e em segundos chegaram até ao Pai Natal, que estava fechado numa casa abandonada. Perceberam que a porta estava trancada, mas conseguiram falar com ele que lhes disse que estava bem. E eles ficaram descansados.

A criança super inteligente pediu à criança super eléctrica para iluminar muito bem para tentarem descobrir uma forma de abrir a porta, mas não conseguiram, então chamaram a criança com super força que rapidamente conseguiu esmagar a porta.

Já faltava pouco tempo para amanhecer e as crianças do mundo estavam sem presentes… felizmente no grupo das super crianças a criança super mágica tinha uma mala de magia, onde tinha um relógio do tempo e assim conseguiu atrasar o tempo de todos os relógios do mundo, desde a China ao Brasil e desta maneira o Pai Natal conseguiu entregar todos os presentes aos meninos e todos fizeram uma grande festa de Natal!!!      

Acrescento só que foi feita num grupo de rapazes com idade média de 10 anos, com alguns meninos muito omnipotentes e convencidos das suas capacidades, outros muito irrequietos que bem gostariam que os deixassem andar a 100 à hora e outros perdidos no tempo e no espaço…

 

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