Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 158 – por Manuela Degerine

Caldas de Reis

imagem158Atravesso a ponte por cima do Umia, dirijo-me à Fonte das Burgas. Uma família sentou o miúdo num banco e pôs-lhe os pés em sacos com água termal… Encho a minha garrafa. Bebo… Ah, este gosto, este cheiro fazem-me lembrar os Açores, as Furnas, as lagoas, o Salto do Cavalo… Os amigos açorianos. A pura beleza. Sinto sempre – em Caldas – saudades insulares. (Precisava de um ritmo de doze sílabas para o dizer.)

Ainda nesta sensação, avisto ao longe Angelika, que faz um gesto, vemo-nos no albergue; replico de maneira ambígua, incapaz de, por sinais, expor a situação. Guardámos os contactos, por conseguinte poderei, quando regressar a casa, explicar o desaparecimento.

Depois de comprar um pedaço de pão (com cor, som, peso, sabor, aroma, consistência: raridade caldense), prossigo primeiro à beira da N-550 porém, percorridos cento e cinquenta metros, viro à direita, avanço entre o bosque e os campos na margem do rio. Não obstante os planos elaborados, cada passo me vai afastando, portanto não há agora dúvida: não dormirei em Brialhos, não passearei por Caldas. Quanto à próxima noite… Veremos. Indo eu, indo eu, a Caminho de… Como no romance “Tiago, o Fatalista” de Diderot: sabemos nós acaso para onde vamos? Esta indefinição – esta liberdade – parece-me preciosa. Agradeço a todos quantos, associações, autarquias, historiadores, voluntários, têm permitido no tempo presente a existência do Caminho de Santiago.

Em 2010 passei a noite em Brialhos, em Caldas no ano passado, portanto caminhei aqui sempre de manhã. Na última vez até com nevoeiro, nada via a meio metro de distância, de súbito: oiço um pica-pau. Durante quilómetros este pássaro encantou-me o esforço de caminhar com uma tendinite, alertou-me para a vida, a beleza, a poesia oculta nas sebes e nas árvores, isto é, para além da aparência; lembrou-me a vitalidade de Papagueno na “Flauta Mágica”. Agora são quase cinco horas, o verde e o amarelo brilham e, do Porto a Caldas: é a primeira tarde de sol.

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