POESIA AO AMANHECER – 353 – por Manuel Simões

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OSVALDO ALCÂNTARA

 ( 1907 – 1989 )

            DESLUMBRAMENTO

 

            Tudo é estrela na minha prisão.

            O que eu não daria para saber

            quem esteve semeando tantas fosforescências

            neste terreno árido!

            Quem me dera ser estereoscópio,

            para disciplinar as minhas sensações

            e assim escolher a minha oferenda

            a esse deus desconhecido!

            Milagre que desce não sei de onde…

            Observo com olhos atónitos esta paisagem,

            e tudo me arrepia e me estimula e me tempera.

 

            Himalaia, crateras de bombas,

            rictos de homens crispados de medo,

            vou libertar-me convosco, agonizar convosco, levantar as mãos

                                                                       ansiosamente convosco!

            E, no fim, colher o fruto desta vitória lenta

            que vem marchando com passos silenciosos para mim há tantos séculos,

            como prémio dos meus olhos bem abertos

            para esta paisagem árida que me deslumbra…

             (de “Claridade”, nº 5)

 Poeta, romancista e filólogo. Pseudónimo poético do romancista Baltasar Lopes. Impulsionador de “Claridade”, colaborou ainda em “Mensagem” (CEI), “Vértice” (1ª série). Figura em “Poesia de Cabo Verde” (1944), “Modernos poetas cabo-verdianos” (1961). Como filólogo publicou o estudo “O dialecto crioulo de Cabo Verde” (1957). Obra poética: “Cântico da Manhã Futura” (1986).

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