É o que revela um pequeno vídeo da Agência Ecclesia – Nas suas missas matinais, só o Papa fala – por Mário de Oliveira

Transcrito, com expressa autorização do autor, do Jornal Fraternizar

Um curto vídeo divulgado estes dias de Janeiro 2014 pela Agência Ecclesia revela que nas suas missas matinais, agora, abertas também a pequenos grupos de fiéis oriundos das paróquias de Roma, só o Papa Francisco fala. A missa é toda dele. Não é de todos os presentes. Ele preside, a partir do altar. E os fiéis, no lugar que lhes compete, abaixo do altar, escutam, atentos e reverentes. E, como estavam a ser filmados, ainda mais atentos e mais reverentes do que o habitual. Nenhuma oportunidade para o contraditório. Tal e qual como por todas essas paróquias e dioceses católicas do mundo. A este rito, com tudo de rotina eclesiástica, chama-se-lhe missa. Não se chama Eucaristia. E, se aqui e ali, se lhe chama Eucaristia, é uma mentira. Porque Eucaristia pressupõe expropriar a terra e tudo o que ela contém, para que tudo seja de todos os povos, conforme a necessidade de cada qual. O que, obviamente, nunca acontece com as missas. Pelo contrário, elas servem, até, para tornar sagrada, não partilhada, a propriedade privada. Que assim deixa de ser de todos.

Fossem Eucaristia, as missas do Papa, dos bispos e dos párocos e as igrejas dos diversos cristianismos implodiriam todas, na hora. Em seu lugar, ficava só a humanidade, na multiplicidade dos seus povos, orgânica e maieuticamente, religados uns aos outros, uns com os outros. Porque ser Igreja-Movimento de Jesus, não é ser igreja cristã, uma humanidade à parte, auto-considerada como a humanidade dos bons, dos salvos, dos puros, dos decentes. Pelo contrário. É ser presença activa e discreta, quase sempre clandestina, entre os povos e com eles, ao modo do fermento entre a massa e com a massa. O que é visível, não é o fermento. É a massa que se torna pão. Pão para a vida do mundo. Não inquisição, para a morte do mundo. Como sempre têm sido as igrejas cristãs. A História aí está a comprová-lo.

Na homilia da missa que o vídeo da Ecclesia divulga, o Papa adverte os fiéis, atentos, reverentes e calados, para o perigo dos “falsos profetas”. Dito assim pelo Papa, sem nenhum direito ao contraditório, por parte dos fies, é, de imediato, suposto que os “falsos profetas” não estão ali presentes na missa, muito menos, naquele altar, para mais, papal. Nem na Cúria romana. Nem no Estado do Vaticano. Nem no IOR, o Banco do Vaticano. Nem nos paços episcopais do mundo católico. Nem nas residências paroquiais católicas do mundo. Desta banda, todos os que estão, são os verdadeiros profetas, já que quantos dissentem deles, são automaticamente rotulados de falsos profetas. Onde já se viu tamanha hipocrisia?

Curiosamente, enquanto o Papa fala, na homilia desta missa, o vídeo mostra, de fugida, uma das fiéis presentes, às voltas, nas suas mãos, com as contas do terço do rosário, o instrumento religioso mais anestesiador e embrutecedor do planeta, porque condena quem o reza, a ter de dizer sempre a mesma lenga-lenga 50 vezes por cada terço, 150 vezes, por cada rosário. E isto, todos os dias, várias vezes ao dia, ao longo de toda uma vida. Só mesmo para se fomentar, deste modo, nas populações, a rotina, o embrutecimento, a ignorância, a misantropia, a morte do Eu-sou único e irrepetível que cada uma, cada um de nós é.

Pois bem, são assim as já famosas missas matinais do Papa Francisco. Uma mão cheia de nada e outra, de coisa nenhuma. Soubessem as pessoas que as frequentam e que frequentam as missas dos bispos e dos párocos, por esse mundo fora, que a palavra missa significa, ide embora, ide meter-vos no mundo, como praticantes políticos, e nunca mais lá punham os pés. Porque o lugar dos seres humanos que se prezam de o ser e nunca aceitam ser outra coisa, é no mundo, sempre, orgânica e maieuticamente, religados uns aos outros, uns com os outros. Não são os templos da idolatria, onde só o altar tem valor e só o sacerdote que preside tem voz e vez. Sem nunca poder ser contraditado por nenhum dos presentes. É só ouvir e calar. E… pagar. Sim, e pagar. Porque a missa não é de borla, de contrário, não haveria quem a dissesse!… Quando é que os nossos olhos da mente cordial se abrem?

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