Quando, por razões religiosas, na passagem do século XV para o XVI, os judeus começaram a ser perseguidos em toda a Península, sabendo-se que grande parte da inteligentzia era constituída por pessoas que professavam a fé hebraica, as nações ibéricas iniciavam um processo de automutilação que iria ter consequências trágicas, sobretudo para Portugal. Antero de Quental na sua conferência Causas da decadência dos povos peninsulares dos últimos três séculos, concentra na Igreja Católica o fulcro dessa decadência (1), mas não esquece o contributo de mouros e judeus para um esplendor cultural que o fanatismo cristão considerava maligno. O massacre de Lisboa, em 1506, acelerou o processo de expulsão de uma comunidade onde se concentrava um conjunto de saberes indispensáveis à evolução cultural e, paralelamente, ao bom funcionamento da sociedade – de um momento para o outro, médicos, botânicos, matemáticos, açodados pelo Santo Ofício, encontraram na diáspora a única maneira de se salvar.
Não queremos comparar os milhares de jovens que anualmente saem do País com os sábios que há cinco séculos se refugiaram em nações mais tolerantes. A maior parte desses jovens, obteve qualificações em Portugal e vai agora adquirir experiência profissional em países de economia mais avançada. Competências adquiridas à custa dos portugueses, vão ser postas ao serviço de suíços, alemães, ingleses. Claro que esses jovens, na sua maior parte, não são sábios como Eduardo Lourenço, António Damásio, Jorge de Sena, Agostinho da Silva, Maria Helena Vieira da Silva, Maria João Pires… Muitos deles, levam um diploma na pasta e na cabeça um pecúlio reduzido de saber, na melhor das hipóteses, concentrado na área em que se formaram. E vão agora desenvolver esse conhecimento reduzido, transformando-o em competências efectivas.
Há cinco séculos, contribuímos para que as Províncias Unidas dos Países Baixos, acolhendo não só os huguenotes fugidos de França, mas também os nossos judeus, surgisse como nação florescente e próspera – nas artes, nas ciências e no comércio. Actualmente, o esforço económico que para os portugueses representa a qualificação de uma grande parte dos seus jovens, é colocado ao serviço de países mais ricos. A história talvez não se repita, mas há coisas que teimam em não mudar.
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