Ma. do Carmo Henriques: “A primazia do “espírito de campanário” é exponente de complexo provinciano e rústico; corresponde-se, porém, com o “novo” processo assimilacionista do galego, subsidiário do projecto nacional espanhol, embora os seus promotores revistam os seus textos de separatismo linguístico, aparente a respeito do castelhano, real a respeito do português, que envolvem em retórica patrioteira inconsistente. Em síntese, constitui uma manobra manifesta para substituir o idioma nacional da Galiza polo espanhol” (1988, 14: 186)
Ângelo Cristóvão: “Deve deixar-se bem claro que, apesar de manipulações políticas, o galego não é nem será nunca uma língua regional da Espanha […] Não é uma língua minoritária, pois é falada atualmente por cerca de 200 milhões de seres nos cinco continentes. A nossa língua é, sem embargo, minorizada no território administrativamente espanhol. Neste jogo da minorização a primeira culpável é a consideração do galego como língua diferenciada da portuguesa […] Esta auto-exclusão, denominada na Galiza isolacionismo é, sem lugar a dúvidas, o intento histórico mais elaborado do regionalismo espanhol por suprimir definitivamente a comunidade lusófona da Galiza, reduzindo o problema ao nível das denominadas “minorias linguísticas da Europa” […] (1991, 19-28: 387)
De Portugal:
Fernando Venâncio: “«Galego» e «Português» são dois nomes para uma mesma língua. […] os galegos exprimem-se, também eles, numa ‘norma’ própria, a ‘norma’ galega do nosso comum idioma.[…](2007):«Também não se insistirá na questão, entre todas magna, de serem galego e português um ou dois idiomas. Para o autor deste trabalho, eles são variantes dum só e mesmo idioma. Ou, reduzindo a questão ao essencial: todas as estruturas que distinguem galego e português das outras línguas românicas, têm-nas eles em comum. (2007, 3: 27); “hoje, todos os historiadores do Português sabem que o idioma nasceu na Galiza, que isto que aqui escrevo é UM PRODUTO GALEGO. Todas as fundamentais características do idioma estavam nele DEFINITIVAMENTE instaladas, séculos antes do vitorioso separatismo portucalense de 1140. Eles sabem, repito. Outra coisa é dizerem-no, assim, com todas as letras” (2012)
Malaca Casteleiro: “[…] na base deste projeto está a ideia, defendida por tantos, que o galego é uma variante linguística de uma língua comum que poderia ser língua galego-portuguesa, mas que as vicissitudes da história levaram a que fosse apenas língua portuguesa […] Mas, do ponto de vista do sistema fonológico, do sistema morfológico, não encontramos argumentos linguísticos, em minha perspetiva e de tantos outros, que justifiquem que se trate de uma língua diferente. Com certeza que há diferenças em relação ao sistema semântico ou lexical, mas não é o léxico que define o parentesco das línguas. (2008)
Carlos Reis: “o que está em causa não é só o conhecimento do outro em português mas também o reconhecimento do português do outro” (2010).
Joaquim Pinto da Silva: “Mas porque é que hoje, integrados numa Europa […], não retomamos o caminho da ciência e da verdade históricas e não afirmamos sem peias que Portugal é de matriz cultural essencialmente galega? Porque não se diz claramente que o galego é a nossa língua de partida, aquela de onde brotou a nossa variante, desenvolvida, apurada e internacionalizada, chamada português? […] (2009)
Renato Epifânio: “Fácil é de perceber que o que esteve em causa, nesse debate, foram duas vias possíveis para a resolução da questão galega: uma insistindo numa via isolacionista, que não levará senão, a curto-médio prazo, à completa extinção dessa singularidade linguístico-cultural; a outra, apostando antes numa crescente convergência com o espaço lusófono (não apenas com Portugal), sem qualquer fantasma de dissolução. A língua que se fala na Galiza será sempre uma variante singular da língua portuguesa, nessa acepção mais ampla e mais profunda do que é a Lusofonia” (2013)
Do Brasil:
Marcos Bagno: “o português é simplesmente o galego com outro nome. […] Se ela [a língua] é “atestada pelo menos desde o séc. VIII”, quando ainda não existia a entidade política chamada Portugal […] quando se faz alguma referência à língua da poesia medieval, o nome que aparece é galego. O termo galego-português foi cunhado como uma espécie de compromisso ideológico entre duas tensões: o reconhecimento de que a língua da poesia medieval era basicamente o galego, e o anseio, de inspiração nacionalista, de incorporar aquela produção literária ao patrimônio cultural do povo português.”(2012); “Desde que os romanos se estabeleceram na Galécia, ali foi se constituindo uma língua românica com características próprias e que, por causa do nome do lugar, só pode ser chamada de galego. E foi esse galego que se falou no Condado Portucalense e no reino de Portugal.” (2011, 191: 34-39)
Carlos Alberto Faraco: “Nota-se, entre os diplomatas e políticos, um enorme cuidado em “ignorar” o galego para evitar conflitos com o governo da Espanha. Ou seja, as razões de Estado parecem prevalecer nesta questão.” (2011) [“Se a reivindicação lusófona da Galiza está a criar contradições nos governantes portugueses -que evitam entrar em confronto com Espanha e, ao mesmo tempo, introduzir um elemento perigoso para o seu relato nacional-, no Brasil está a gozar de grande simpatia, por ser um jeito de recorrer à comunidade linguística comum -galeguia- sem passar pelas alfândegas portuguesas que ainda ressoam a colonialismo -lusofonia-.” (Nota da Redação de Galiza Livre, introduzindo a entrevista)]
E. Bechara: “Falar em reintegracionismo do galego é do ponto de vista lingüístico algo pleonástico porque não se pode reintegrar algo que nunca deixou de integrar. /E do ponto de vista lingüístico o galego é uma vertente desta realidade da língua histórica que se chama língua comum, que é o grande guarda chuva ideal, modalizado pela cultura que abriga todas as variedades lingüísticas de todos os quadrantes geográficos em que essa realidade maior que se chama língua portuguesa é falada e é escrita. De modo que do ponto de vista lingüístico, o galego nunca se separou do português como uma entidade que pertence a essa realidade histórica que caracteriza uma língua de civilização e de cultura como é o português” (2008).
Júlio César Barreto Rocha: “O que desejo relevar é o fato de que a língua portuguesa, como já se sabe de longuíssima data, não é propriamente portuguesa; ou seja, a língua falada em Portugal, queira-se ou não, veio de fora de suas fronteiras de hoje, e é anterior aos Cancioneiros galego-portugueses, anterior ao Estado português: nasceu numa terra que constitui o que ontem era a Gallaecia e ainda hoje é a Galiza, uma Comunidade Autônoma. Logo, o idioma aqui gerado e desenvolvido deve ser chamado de “galego”. […] Durante quase um milênio foi muito interessante para Portugal ignorar a existência da Galiza, pois isto mantinha o mito de que a língua dita portuguesa fora gerada e era originária exclusivamente de seu território, de seus habitantes, que englobavam os primeiros lusitanos. [..] Cabe destacar também que quando se fala no período de “formação da língua portuguesa”, fala-se na verdade da língua galega formada, mas que, como qualquer língua, está em constante deriva, […] A língua falada na Galiza, que é a real Pátria da Língua, que instituiu o sistema vocálico e a musicalidade do galego, faz-se presente no Brasil.” (1999, 58: 281-283-285-287-290)
Carlos Durão, fevereiro, 2014
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Referências bibliográficas, por ordem de citação:
M. Rodrigues Lapa, Limiar, Escolma de Poesía Galega, vol. I, p. 9, Galaxia, 1952
M. Rodrigues Lapa, em alocução na Exposição do Livro Galego, na Universidade de Aveiro, 16 julho 1982, publicada como “O problema linguístico da Galiza”, em Vol. I de Linguística e Sócio-linguística Galaico-Portuguesa, Temas de O Ensino, nos 4/5, 1985, pp. 39-40
E. Coseriu, “El gallego en la historia y en la actualidad”, II Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza, Actas, 1989, p. 800
E. Guerra da Cal, Futuro imemorial, Sá da Costa Editora, Lisboa, 1985, pp. 9-11; recolhido em Vol. II, 1986, de Temas de O Ensino, nos 6/10, “Linguística, sociolinguística e literatura galaico-luso-brasileira-africana de expressão portuguesa”
Grupo de Trabalho Galego de Londres, “Plan pedagóxico galego”, Grial, no 32, pp. 202-10, 1971, com separata
M. Rodrigues Lapa, “A recuperação literária do galego”, revista Colóquio/Letras, Lisboa, no 13, maio 1973, pp. 5-14, http://membres.multimania.fr/questione/academia/rodrigueslapa1.html; reproduzido em revista Grial, no 41, jul./ago./set. 1973, pp. 278-287 (e depois em Estudos galego-portugueses, op. cit., pp. 53-65) [constitui a resposta a uma “Carta de Santiago de Compostela” (“A expansión crecente da lingua galega”) que Ramón Piñeiro escrevera no no 8 da Colóquio, jul. 1972, pp. 75-77 (onde anteriormente também escrevera “Evolución do problema da lingua”, nº 2, jun. 1971, pp. 78-80)]
M. Rodrigues Lapa, “Princípios básicos para a criação de uma língua literária comum”, em Tradición, actualidade e futuro do galego. Actas do Coloquio de Tréveris, Xunta de Galicia, Santiago, 1982, pp. 235-236
M. Rodrigues Lapa, carta a C. Durão, 24 março 1981
M. Rodrigues Lapa, “A reintegração linguística galego-portuguesa – um drama que afecta a todos nós”, em revista Temas de O Ensino, nos 6/10, 1986, p. 26, antes publicado na revista Nova Renascença, Porto, outubro 1983
M. Rodrigues Lapa, “António Sérgio e o problema da língua literária”, em Estudos galego-portugueses, Sá da Costa Editora, Lisboa, 1979, pp. 125, 127 e 128
R. Lorenzo, em La Voz de Galicia, 4 julho 1982, p. 51
R. Lorenzo, entrevista a La Voz de Galicia, 4 abril 1981; recolhido em “Dimensões no processo normalizador de uma comunidade linguística: Galiza”, de A. Gil Hernández, Vol. II, op. cit., p. 272
R. Lorenzo, em El Ideal Gallego, 18 outubro 1981, “Unhas cantas reflexións sobre o galego”, em Mª das Dores Arribe Dopico, A. Gil Hernández, J. Carlos Rábade Castinheira e outros, Encontros Labaca, p. 81, nota 12
R. Lorenzo, entrevista ao Diario de Ferrol, 22 maio 2011, p. 29
I. Alonso Estraviz, “Qual a ortografia para a Galiza?”, revista NÓS, no 1, 1986, pp. 20-22
I. Alonso Estraviz, “A Galiza, os galegos e a língua segundo Rodrigues Lapa”, revista Agália, no 53, 1998, p.15
I. Alonso Estraviz, “Sobre ortografia galega, Grial, no 62, 1978, pp. 477-479, depois em Vol. I de Linguística e Sócio-linguística Galaico-Portuguesa, Temas de O Ensino, nos 4/5, 1985, pp. 111-112
A. Gil Hernández, “Epílogo para galegos, portugueses, brasileiros e africanos de expressom portuguesa/Dimensões no processo normalizador de uma comunidade linguística: Galiza”, Temas de O Ensino, nos 6/10, pp. 276-278, Vol. II, 1986