ALFREDO MARGARIDO: OS ÚLTIMOS INÉDITOS – II – por António Cândido Franco

ideia1

Ao surrealismo voltou o escritor no final da vida, nos textos do Verão de 2010, derradeira reflexão escrita, o que mostra a importância que este movimento teve no seu percurso. Tratando-se dum texto passado ao papel pouco antes da morte, em época muito adiantada da vida, numa altura em que a doença já afectava de forma irremediável o autor, não lhe deixando tempo nem disposição para revisões, é natural que o escrito se ressinta destas circunstâncias adversas, impossibilitando a sua publicação tal como se encontra. Procedemos deste modo a uma selecção dos parágrafos que nos parecem mais próximos duma solução definitiva. Corrigimos erros evidentes que se devem ao facto de o texto ter sido escrito de forma directa numa antiga máquina de escrever, dando origem a trocas, faltas e repetições involuntárias de letras. Usámos ainda dalguma liberdade no campo da pontuação. No restante respeitámos o original de forma escrupulosa. Acrescentos nossos são sinalizados entre parênteses rectos; para os raros cortes no texto, em geral repetições, usamos reticências, entre parênteses curvos.

 [folha 1] O surrealismo português, como lugar português de invenção teórica e plástica, depende da maneira como o surrealismo foi engendrado, unindo a terra ao céu, mas não hesitando em salientar a maneira como [se dá], a partir de propostas nossas contemporâneas, (…) a complementaridade entre o subterrâneo e o mais radicalmente celeste. O homem depende das duas formas de expressão.

Noutro plano convém reter a maneira como o conde de Lautréamont, uruguaio de nascimento, (…) define a fronteira que permite o corte brutal entre as propostas poéticas e a força brutal da natureza, seja com a dureza do granito, seja recorrendo à possibilidade de modificar substancialmente o novelo onde se misturam a dureza do granito e a moleza do tecido.

Onde e quando se inicia o surrealismo? Podemos utilizar os documentos do século XVIII, mas sobretudo daqueles sustentado[s] pelo impresso, ou pela força dinâmica do além. Se o surrealismo francês, ele próprio marcado [pela] mobilização das formas literárias destinadas a servir este espaço de criação, é da maior importância: estamos colocados perante a necessidade de analisar o surrealismo. (…) //

[folha 2] O surrealismo português só adquiriu a sua estrutura a partir do momento em que se modificaram substancialmente os suportes teóricos capazes de permitir uma revisão do sistema significativo. Podemos simplesmente salientar a emergência de soluções remetendo para a densidade dos suportes, não pondo contudo de lado a possibilidade de encontrar as soluções que o surrealismo tinha introduzido na estrutura geral do surrealismo que, contudo, não punha nem pôs causa a solidez das propostas que nunca puseram em causa o surrealismo. Se o surrealismo apareceu pela primeira vez como projecto de transformação, não podemos ignorar a veemência do espaço. Ora convém salientar aqui o facto de o surrealismo estar enunciado para lá do seu enunciado. Não se pode ignorar a incerteza dos seus propósitos, sobretudo a partir da primeira década do século XX. Registemos a importância da estrutura que permitiu proceder ao inventário das figuras principais do século XX.

Se é certo verificar-se uma certa passividade por parte dos surrealistas, somos obrigados a dar-nos conta do surrealismo que fica a contas dos autores, mesmo se o surrealismo introduz uma maneira portuguesa de ver o surrealismo. Não se encontra em português uma solução técnica e literária. Quando podemos (…) dar-nos conta do surrealismo? Será, como quiseram certos inventores, nos anos finais do século [XIX] ou na primeira trintena que ocupa o espaço indo de 1900 a 1930 ou talvez 1945.

Os anos que começam com a banalização do modernismo coincidem com a banalização do modernismo, que assenta em dois pilares: o primeiro depende dos poetas algo modernistas (…), em cuja poesia se encontram os traços de Gomes Leal, ou de Cesário Verde. Ou seja a segunda metade do século XIX mobiliza a modernidade, que rompe com o passado rural, para o substituir pelo peso urbano, que foi injectado nas estruturas que deviam ser integradas na pressão exercida pelas formas clássicas, as quais pretendem manter-se fiéis à soma da criação que, provinda da Europa, tornou mais do que banais as formas estruturantes do que não sendo embora o surrealismo já são a violência da modernidade (…). //

[folha 3] O surrealismo manifestou-se de maneira violenta nos primeiros anos do século. Se as revoluções marcaram de maneira decidida as escolhas dos grupos sociais – tudo parece passar-se como se o surrealismo só pudesse integrar-se no espaço em via de mutação, durante o período em que foi possível verificar a maneira como o projecto surrealista dispunha dos meios indispensáveis à construção do objecto por meio do qual se torna possível interpretar o passado e medir a dimensão do futuro.

O surrealismo apareceu como uma estrutura de carácter dinâmico (…). Quando interrogamos a língua portuguesa para explicar a violência do passado, somos obrigados a contabilizar de maneira precisa os métodos com que podemos medir as estruturas. Pode pensar-se, de resto, que o surrealismo não encontra eco nas várias propostas de criação. Ora o que mais significa nesta produção, assenta no banal do quotidiano, quando nos solicitam os termos eficazes do movimento. Não faltará quem seja capaz de medir o presente e procurar injectar a modernidade. É contudo com isso que devemos contar para dar sentido às figuras da modernidade. Nem podemos esperar outra figuração, capaz de atacar do interior os projectos que marcam a dimensão do quotidiano. A verdade é que esta mobilização dos termos do passado não pode dissimular a importância destes objectos: o surrealismo [a que] se dá importância não pode furtar-se ao peso dos conceitos. De resto continua a vibrar-se com o surrealismo que injecta no espaço do imaginário as fórmulas mais adaptadas do espaço do imaginário.

Quando se registou a emergência do surrealismo foi para pôr em causa uma boa parte do surrealismo, devendo estabelecer-se um sistema capaz de dar sentido e força ao surrealismo, que entretanto fora capaz de recrutar uma grande parcela dos surrealistas. Não devendo nós esquecer que o surrealismo se instala nos espaços do imaginário, mobilizando os termos mais complexos. (…) //

O texto, escrito como se disse em condições de saúde muito desfavoráveis, disso duramente se ressentiu, pois não S,Toméveio sequer a contar com revisão ulterior. Nele se encontram porém elementos de valor para se entender o surrealismo, antes de mais a partir dos segmentos que o escritor seleccionou para reflexão (origem do surrealismo e vertente dupla; poesia de Lautréamont e natureza brutal; surrealismo português e seus antecedentes; abandono das estruturas rurais e violência da modernidade), que não teve infelizmente saúde e tempo para elaborar de forma consistente. Ao menos naquela parte que excita e move todo o grande ensaio, compreender o surrealismo passa por atender – alargando-as e desenvolvendo-as – as indicações que Margarido nos quis deixar pouco antes de partir.Nesse sentido podemos reputar como valiosas as três folhas finais que o escritor legou, por muito incompletas e fragmentárias que se apresentem, já que as indicações dadas surgem menos por razões históricas e explicativas, em geral as que movem hoje os intérpretes do surrealismo, do que por motivos substantivos à dinâmica criadora.

A.C.F.

[apresentação]

————–

Na foto: Alfredo Margarido em São Tomé.

Leave a Reply