“Etnografia Transmontana – Crenças e Tradições de Barroso”, de António Fontes – por Inês Figueiras

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O Padre António Fontes é conhecido sobretudo pela organização dos Congressos de Medicina Popular de Vilar de Perdizes. Com a chancela de Âncora Editora, surge agora a quarta edição de Etnografia Transmontana – Crenças e Tradições de Barroso, de que nos dá conta Inês Figueiras.

Este mês regressa às livrarias o primeiro volume da obra Etnografia Transmontana – Crenças e Tradições de Barroso, de António Fontes (o famoso Padre Fontes), 40 anos depois da primeira edição – e 22 desde a última. Um feito de que poucos autores se podem orgulhar nesta época de superabundância, onde grande parte dos livros “morre” pouco depois de chegar às livrarias. A obra revela as raízes de um Portugal rural, genuíno, onde as tradições ainda vão sobrevivendo. Longe da agitação citadina, perdido e esquecido, o Barroso continua a viver parte dos seus usos e costumes. É das crenças, memórias e manifestações religiosas e profanas que este livro nos fala, incluindo as que ainda se cumprem e as que se esfumaram no tempo. As superstições, mezinhas, bruxarias, tradições do dia-a-dia e dos dias festivos, a sabedoria popular enchem estas páginas escritas num estilo simples e directo, sem pretensões académicas:  «O trajo, a nossa fala distinta da dos livros são aquilo que nos une e que nos diversifica, mas que nos identifica. Perder isso é perdermo-nos para sempre num passado que a história apenas lembrará, e não perdoará.» (p. 18)

 Destaca-se a interessante recolha de ditos populares sobre a amizade, o amor, homens e mulheres, a alimentação, o crime, a religião, a guerra, o dinheiro, a morte, os animais, o trabalho, os costumes, etc.  Por momentos, sentimo-nos nos lugares descritos no livro, como numa viagem no tempo e no espaço, sob a narrativa autêntica do Padre Fontes, que até muda algumas palavras para que as consigamos ler da forma como são ditas no Barroso.  Sabe como se descobre uma bruxa? E que os homens têm (tinham) direitos sobre as mulheres da terra? E sabe quais são os dez mandamentos do padre barrosão? Aqui encontra as respostas às perguntas que nunca imaginou fazer. Este é um importante registo do nosso património imaterial, que nos deixa com novas questões e nos dá vontade de pedir um novo livro, que estude as origens e os porquês destas crenças e tradições.

 O autor: António Fontes nasceu em Cambeses do Rio, Montalegre, em Fevereiro de 1940.  Terminou o curso de Teologia no Seminário de Vila Real em Junho de 1962. Foi pároco, de 1963 a 1971, em Pitões das Júnias e Tourém e, de 1966 a 1971, em Covelães. É actualmente, e desde 1971, padre nas freguesias de Mourilhe, Meixide, Soutelinho da Raia e Vilar de Perdizes, no concelho de Montalegre.  Fundou o jornal Notícias de Barroso. Licenciado em História pela Universidade do Porto, é autor de vários trabalhos de recolha etnográfica e investigação nas áreas de Antropologia, Arquitectura, Etnografia e Música. Organizou a representação de «O Auto da Paixão» e vários congressos internacionais: Arquitectura Popular, Caminhos de Santiago, História Medieval. Organiza, desde 1983, os Congressos de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, que anualmente levam a esta aldeia do concelho de Montalegre milhares de participantes.  Está representado nas seguintes antologias: As Chegas de Bois (organizador), Trás-os-Montes e Alto Douro e Da Literatura Popular à Literatura Infantil. É autor das obras Etnografia TransmontanaOs Chás dos Congressos de Vilar de PerdizesAras Romanas e Terras de Barroso Desaparecidas, e co-autor de vários títulos, nomeadamente Medicina PopularMitos, Crenzas e Costumes da Raia SecaMisarela – A Ponte do Diabo.

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