De certa maneira, todos somos dramaturgos, actores, espectadores. Uns mais do que outros. Alguns com mais qualidade de representação/encenação. Mas a capacidade de elevar o pano literário e coreográfico inscreve-se na tradição das artes cénicas. Viale Moutinho desafia os palcos com quatro diálogos e um monólogo. O argumentário ajusta-se ao Realismo Histórico, em português neo-vicentino, espécie de Novos Autos da Lusitânia, Hispânia, Germânia. Os cenários dos sécs. XV/XVI não destoam assim tanto dos cenários dos sécs. XX/XXI. Bastará um relance pelos títulos: Terminou a Guerra, Aquele que se dispõe a dizer tudo, Crónica de um sem-abrigo, Monólogo do último soldado, A Sagrada Família do tempo da outra senhora.
Aqui se relembra, para além do corte do Verbo e do recorte plástico, que as guerras não acabam. Santas ou profanas. Descaradas ou encobertas. Terminou a Guerra? Franco dixit. Bush dixit. Obama dixit. Terminou um episódio. Reactiva-se ou transfere-se o teatro de operações. E que conclusão sobre o que se dispõe a dizer tudo? Não sentem o formatar de uma sociedade securitária, o aproximar de uma nebulosa totalitária? Heil Hitler! Então, invadia-se, explorava-se, torturava-se, deportava-se, fuzilava-se, cremava-se. Entre os alvos de limpeza estavam, na primeira linha de exclusão/liquidação, comunistas, judeus, ciganos, homossexuais. Hoje, voltam a estar na mira comunistas e ciganos (judeus e homossexuais, de momento, andam bem vistos). Heil Sarkozy? Estimados espectadores, e o que nos contará um sem-abrigo da Idade Média Electrónica? E não surpreendemos, no coliseum mediático, azougados repórteres, apregoadores da mercadoria contra o mérito, da decapitação social contra a identidade cultural? E depois da Sagrada Família não se instalou uma Laica Famiglia? Onde nos conduzirá este concurso de capos, esta cidadania de chips?
O Teatro de Viale usa luminotecnia, sonoplastia, personagens e máscaras de todos os séculos. Actual é o que nos faz compreender o passado e avisar o futuro. O Teatro de Viale é um teatro de urgência. Na companhia de Luís Veiga Leitão, Luís Pimentel, Erich Fried, José Gomes Ferreira, Francisco Molla. Poetas convocados para a denúncia da renúncia. Também para a grande farsa da paz e dos direitos num sistema beligerante/cleptocrático/alienatório. Em 1974, Sophia de Mello Breyner Andersen exclamou no 1.º de Maio: A Poesia está na rua. Em 2010, Viale Moutinho coloca um cartaz nos tapumes: O Teatro está na rua.

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