CCB: DIA MUNDIAL DA POESIA – HOMENAGEM A VITORINO NEMÉSIO por Clara Castilho

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No Dia da Poesia, no Centro Cultural de Belém, dia 22 de Março, a Maratona da Leitura foi dedicada a Vitorino Nemesio, homenageado também com a exibição do documentário de Maria João Rocha, Viagem (1999).

Vitorino Nemésio dito por diferentes personalidades, com coordenação de Luis Lucas : Almeida Faria, António Carlos Cortez, Elisa Costa Pinto, Elisabete Caramelo, Fernando Pinto do Amaral, Guilherme d’Oliveira Martins, Ivo Castro, José Jorge Letria, Mafalda Viana, Maria Alzira Seixo, Vasco Graça Moura e Zeca Medeiros.

No início da sessão Fernando Pinto do Amaral (Plano Nacional de Leitura, um dos co-organizadores deste dia) realçou que se pretendeu homenagear não só o poeta, mas também a pessoa de Vitorino Nemésio que tanto influenciou a vida do nosso país. Isto, porque a homenagem que devemos fazer aos poetas quando já não estão vivos, é ler a sua poesia. No essencial, o que ficam são as obras. 10003254_258227947689447_1629847948_n

De entre os poemas lidos pelos convidados, busquei um dos da minha amiga Elisa Costa Pinto, especialista em literatura, que apresentou poemas muito interessantes e representativos de aspectos nem sempre lembrados na análise da obra do Mestre.

        O OVO

Enchi de Oeste a minha vida,
Como se o Sol, que estira os peixes,
Me desse a terra percorrida,
O mar curvado e um não-me-deixes.

Sol fui no arco dos dias
E, pesado
Na minha luz, já mais do que o meu fogo,
Levei as ondas frias,
O vento e a vida logo.

Tudo levei, coroado de horizonte;
O amor queimei na tarde vaga,
Com uma ilha defronte.

Mas, queria, mais que o mar, bater
Ainda as praias carregadas
De passos, conchas e do haver
De aves livres lá pousadas
Que já não posso recolher.

E um ovo,
Nada mais que um ovo,
Num punhado de pó, entre juncais,
Que desse vida, penas, povo
Para as aragens e areais.

     Vitorino Nemésio,

Nem toda a Noite a Vida (1953)

Ilustro com um quadro de outro homem açoriano, o pintor Domingos Rebelo, gentilmente cedido por seu neto.

 Domingos Rebêlo-Paisagem marítima-praia

Recorro a um texto de Maria Margarida Maia Gouveia ( A viagem em Vitorino Nemésio, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1986, pp. 119-122):

        “[…] o ovo é elemento simbólico-mítico de preferência de Nemésio. […] Em «O ovo» dá uma imagem da sua dependência afectiva, reitera a angústia de não poder silenciar o fascínio do mundo da sua meninice, das ilhas, do Oeste. Reconhecer a impossibilidade de repisar o perdido «[ … ] praias carregadas / De passos, conchas e do haver / Das aves livres lá pousadas») não refreia a audácia, embora comedida, de sonhar com outra vida.

 […] Um ovo que proporcionaria a revitalização do espaço físico e dele próprio. Porque é como elemento fecundado que Nemésio vê retrospectivamente a Ilha Perdida […]  com a qual mantém como que um elo letárgico.

 […] O que parece, pois, comum à poesia nemesiana e a estas páginas de prosa ensaística semificcional do conferencista de 1940 é o tema cosmogónico do ovo, seja no rochedo ou no mar, em todo o caso ponto de partida vital e ponto de partida para as «viagens» verbais de toda a criação poética nemesiana. Com feito, é esta força vital que parece impeli-lo renovadamente na busca da Ilha Perdida, cujo húmus arquetípico se situa no passado e cuja «corporalidade» sofre adaptações; a Ilha Perdida flutua, e em parte, regressa de tempos a tempos.”

Uma oportunidade para revisitar alguma obra de Vitorino Nemésio.

1 Comment

  1. * Espectacular esta homenagem a Vitorino Nemésio ,um poeta que poucos amantes da Poesia ainda lhe reconhecem valor ,até pq as obras apenas estão ao alcance em bibliotecas .Até esse gosto pela leitura está a ser guilhotado e a ileteracia cavalga a toda a sela .Maria *

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