A URGÊNCIA DA LITERATURA – Literatura e Ensino – III – por Maria Alzira Seixo

(Conclusão)

Imagem2Ora o que fazem os professores por isto, ou contra isto? Quando não querem introduzir-se, também eles (muitos querem!, alguns estão lá!), nos tais «interesses», de que necessitam eles para pôr em prática isto, que é simples: ler textos e comentar com correcção aspectos do seu significado literário? De que precisam os professores para leccionar adequadamente? Precisam só de 4 coisas:

A. Antes de mais, os professores precisam de ser professores, com um lugar para ensinar e tendo compertência lectiva. E nem todos o podem fazer, devido a sucessivos desgovernos e deficiente formação; e porque a Universidade tem atravessado uma das suas maiores crises, ligada às falhas de financiamento e a outros factores até hoje incontroláveis – e as ESEs, de vocação mal interpretada, surgiram a substituir o papel das Humanidades, em prol de um tecnicismo que não sabe lidar com a Pedagogia.

Sofre assim o ensino de um didactismo despersonalizado (não distingue entre Pedagogia e Didáctica), pelo fito de concorrer com tecnologias de ponta (em vez de as entender como complementares!), sujeitando o indivíduo à massificação e agindo com erros crassos, ex. «dobrar» a palavra falada ou lida por visualizações de «power point» (o que seria patético se não fosse ridículo!), acto que é o emblema ignaro da comunicação falhada. Porque a acção da palavra (dita, ouvida ou escrita-lida) é a comunicação em significação pura mas directa (ao mesmo tempo simbólica e precisa), e o digitalismo, a formatação, o «dictat» mediático nela vêem (e com razão!) o inimigo nº 1, a originalidade que descarta a sua cópia, e daí o quererem secundarizã-la.

B. Os professores precisam de saber que ensinar Literatura (isto é, a Língua numa das suas acções fulcrais) é um acto pedagógico, o didactismo só lhe estabelece nexos. E, quando os professores conseguem ser professores, aquilo de que mais precisam é de saber o que é uma aula, como a devem dar, como proceder para manter o seu espaço-aula em forma produtiva, agradável, disciplinada e eficaz.

Há meio-século, dizia-se que os professores tinham vida regalada: aulas ou de manhã ou de tarde, umas reuniões, direcções disto ou daquilo, e pronto. Mas nos estágios, a que, como aluna de estagiários, eu assistia, e dos quais muito aproveitei, percebi que a relação professor-aluno se baseia na grande exigência de pensar o modo como se dá uma aula: com empenho e cálculo quanto ao modo de se transmitir a matéria, que NUNCA pode ser igual ao que vem nos livros – para isso é que se é professor: para explicar MELHOR, e de várias maneiras, o que os livros contêm. De modo que os bons alunos nem liam tais livros: só as selectas de textos e os apontamentos das aulas, alguma bibliografia, e muitas leituras livres!

Ora para configurar as aulas, os professores precisam de Programas que lhes permitam ensinar bem. Ensinar Português na sua relação com a enunciação imaginada que é a Literatura. Em vez de arrazoados de matéria lateral e tecnicista, em linguagem confusa e aberrante, hoje podem ter, ao menos, articulados decentes na programação, equilíbrio Linguística/ Literatura, Listas de Leituras onde se efectuam escolhas, proporcionando textos adequados ao que disse atrás. E que tornem os alunos aptos para a vida, com uma cultura de consciência.

C. Os professores precisam de Livros, obras de apoio, e não necessariamente de tipo ‘escolar’, que fazem da Literatura uma «instrumentação», e ela é o contrário disso. Não falo, pois, de Manuais, que são uma espécie de edições adulteradas da Bíblia (do Livro!), os Manuais são «vademecum»s onde se supõe que os meninos têm «o que é preciso» para saber o essencial da matéria, e os professores têm também «guias» para as suas lições. «GUIAS??!!!» Os professores, que, por definição, são «os que sabem», precisam de guias em que os autores são colegas orientados por editores??? Eu pensava que os editores é que precisavam de ser guiados por quem sabe ensinar… Um manual serve para fazer carpintaria, enfim, tudo o que se faz «com a mão», não é para «estar à mão»… que, neste caso, nem será ‘à mão de semear’, pois nada há neles que se semeie, e por isso a seara é sáfara. Olha, olha… um Manual para colocar a Literatura «à mão» dos professores, tinha graça!!! E os modelos de aulas?? HÁ PROFESSORES QUE SEGUEM MODELOS DE AULAS FEITOS POR OUTREM??? Aceitam ser formatados, e, em consequência, formatar os alunos??? São todos resultado de um acto de carimbar??? Porque, se é assim, então não são professores… É necessário, sim, na parte do Português prático, ensinar a fazer um relatório, um memorandum, uma petição, uma memória descritiva… Distinguir entre uma narração e uma descrição, mas não é o Manuel que ensina, é o Professor e a própria Literatura em si, em exemplos a analisar – e a análise de texto, não se esqueça, é o coração do ensino da Literatura! Sem ela, haverá muitos estudos sobre Literatura, mas não há estudos DE Literatura.

É para aí que tem de apontar o Professor, de modo a suscitar no Sujeito do conhecimento na relação pedagógica (que é o aluno!) as ideias latentes para a apreensão da realidade, através da comunicação de modos de apreensão do texto literário, na linguagem e pela linguagem. Essa é a actividade do Professor na aula de Português, com a Literatura, agindo com originalidade (com estilo!), competência, inventiva e senso.

Podemos até prescindir dos Manuais, não são precisos para nada! Os editores são necessários em outros tipos de obras: Textos Seleccionados de escritores do Programa, boas Gramáticas escritas em Português de Lei (e não «da» Lei…), edições cuidadas de obras sugeridas para as leituras do programa – edições ‘cuidadas’ significa: preparadas segundo critérios pedagógicos, que vão do rigor intelectual e crítico à concepção física do livro: em material leve e resistente, com boa mancha tipográfica, de custos acessíveis! Nada de peso, de carestia, de elocubrações gráficas de estética duvidosa.

 TERMINO: de que mais precisam os professores para o serem?

  1. Os professores precisam de Tempo! – condição para que o Professor ensine bem: o tempo! O professor precisa de ter tempo para preparar a aplicação do Programa à sua Turma, de tempo para preparar as aulas, de tempo para se actualizar. De ter tempo para pensar! Uma profissão que requer muita leitura, reflexão sobre ela, ideação de modelos originais de aulas, adaptação de problemas lectivos a casos discentes especiais, não se compadece com o dia de profissionais que o passam inteiro na Escola. A mente brilhante que entendeu que o professor devia estar na Escola a tempo inteiro, como os demais funcionários públicos, terá sido acometida por um ataque de estultícia! Dos outros professores, não sei – mas um professor de Letras, de qualquer disciplina e nível, NÃO É um funcionário do Ensino, é um funcionário público dedicado a uma «causa» específica: a de, no sector social central que é a Educação, preparar mentalmente o futuro cidadão para o manejo da Língua, para as representações do mundo circundante, através da correcta utilização da Linguagem Quotidiana e Literária, da Linguagem Que Age – e isso implica trabalho de preparação que ocupa muito tempo, em casa, e só na Escola se esta puder oferecer gabinetes, bibliotecas adequadas e um sossego propício à reflexão. Tem sido este o caso? Se não, e sendo esta questão crucial, pergunto: como exigir aproveitamento visível a alunos de professores que não podem estar aptos a leccionar?

É preciso pensar em tudo isto quando se regulamenta o ensino. É preciso pensar em tudo isto quando queremos ensinar. É preciso pensar em tudo isto se não queremos a sociedade dominada pela ignorância e pela iniquidade – e agir em conformidade, custe o que custar. Repito: custe o que custar, em todas as acepções da palavra «custar», e eu sei o que me tem custado, moralmente e materialmente, a mim. Mas sou Professora…

 

Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Comparatistas

11 de Janeiro de 2014

Maria Alzira Seixo

 

 

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