* Publicado em 27 de Abril de 2014 em Jornalistas Sem Fronteiras
Sobre esta ciência que é a prova dos “milagres” cometidos por alguém e que, feito isso, ganha lugar numa peanha nas igrejas não vou pronunciar-me. A hierarquia da Igreja tem os seus sábios, seus mitos e lendas, é uma instituição com vida própria, por isso presunção e água benta cada um serve-se à vontade.
Pouco direi também sobre o velho cardeal Roncalli, dito João XXIII, a não ser que a imagem de bonomia, modernidade e preocupação com os mais desfavorecidos que projectou para o exterior do Vaticano parece caber naquilo a que é prosaico chamar-se “santidade”. Por isso, fica-me a sensação um pouco amarga de que tal imagem foi agora recuperada com oportunismo para que o outro santo do dia não trepe sozinho aos altares.
Sobre o cardeal Vojtyla, dito João Paulo II, é legítimo pronunciar-se qualquer cidadão do mundo, católico ou não católico, crente ou não crente. Porque Vojtyla interferiu como poucos na formatação do mundo temporal seu contemporâneo e que solidamente lhe sucede.
Vojtyla correu mundo transmitindo a mensagem temporal, com disfarce espiritual, de regressão social com a qual tentou fechar caminhos abertos pelo próprio Roncalli. Vojtyla foi um dos três mosqueteiros – também são quatro sem forçar muito a nota, para que o paralelismo com a história de Dumas seja pleno – que fizeram do mundo aquilo que é hoje, um lugar nada recomendável.
Vojtyla foi um Ronald Regan que superou como actor – não era difícil – o seu amigo presidente norte-americano. Wojtyla foi uma madame Thatcher com báculo. Wojtyla foi hóspede do carniceiro Pinochet na mesma varanda de La Moneda usurpada ao presidente Salvador Allende, escolha democrática dos chilenos, quando não secara ainda o sangue dos democratas assassinados na arena do estádio nacional de Santiago.
Com estes companheiros de caminho, Wojtyla deu o amen à instauração da selvajaria neoliberal como governo mundial do mundo. Mais tarde fez discursos e escreveu encíclicas a condenar o dito cujo, mas o mal estava feito e a Igreja, que tanto diz servir os pobres, tem hoje umas boas dezenas ou centenas de milhões mais com que se entreter. Sobre a sua intervenção temporal e o modo como o mundo foi moldado nos anos oitenta e noventa, Wojtyla deixou uma herança específica, olhe-se com olhos de ver a sua Polónia natal e dispensam-se adendas.
Acresce, fugindo a todas as especulações, que Wojtyla herdou a cadeira papal ainda quente de João Paulo I, cuja morte inesperada aos 33 dias de pontificado, associada à pouca transparência com que o Vaticano lidou com ela, quase parece a emenda de um tremendo erro de casting do conclave cardinalício.
Na necessidade de juntar Roncalli à canonização relâmpago de Wojtyla nota-se, por tudo isto, alguma má consciência da sombria hierarquia vaticana. Provavelmente a promessa de arejamento trazida pelo argentino Francisco não chegou a tempo de corrigir a manobra. E a festa organizada a partir das cátedras de manipulação que são os púlpitos de tantas igrejas, consegue alimentar a magnificente operação de propaganda – mas não disfarça tudo.