EDITORIAL – Dois europeus notáveis nascidos em 3 de Maio

Imagem2As efemérides são a nossa salvação, quando neste espaço diário de reflexão, não sentimos ânimo para, mais uma vez,  discorrer sobre as misérias que vão ocorrendo na aldeia global ou para perorar sobre o bando de vampiros que se abateu sobre Portugal – falamos dos que, chegados com patas de veludo, estão agora pendurados, de cabeça para baixo, ocupam a trave mestra e digerem a lauta refeição, e falamos também dos que adejam em redor e esperam a sua vez de se pendurar na apetecida trave. Uns e outros, comem tudo e não deixam nada. Vamos então recordar dois notáveis europeus nascidos em 3 de Maio.

 

A Europa nem é tão superior quanto às vezes, nós os europeus pensamos, nem tão miserável como noutras ocasiões  se nos afigura. No século XV se geraram muitos dos males que hoje nos afligem – a Europa, durante séculos aninhada em torno do seu umbigo, o Mare nostrum, tomava consciência da grandeza do planeta. Havia outras civilizações importantes – a velha Ásia, embrulhada na sua ancestral sabedoria que aceita as misérias humanas como coisa normal; a África, com uma concepção própria da organização social, parecendo menos «civilizada» do que a Ásia e a Europa, mas com uma civilização própria (em certas tribos, o avanço da Medicina era superior, operando-se cataratas de uma forma que na Europa só séculos depois seria possível. As Américas tinhem esplendorosas civilizações, mas estavam isoladas como se de outro planeta se tratasse. Foram os europeus que em poucas décadas deram ao planeta a sua real dimensão. Particularmente, os da nossa península. Ainda mais particularmente, os portugueses.

O século XV viu morrer a organização feudal e nascer uma nova ordem social baseada na troca mercantil e na acumulação do capital. A velha preponderãncia de estirpes nobiliárquicas, aninhadas em torno da benção papal, dava lugar à força das corporações e à pujança de uma nova classe dominante. Em breve, o próprio coração da Europa, que batia em Roma, se veria confrontado com a contestação reformista. Em dias 3 de Maio de anos diferentes da segunda metade do século XV, nasceram homens que, de certo simbolizam o nascimento do capitalismo. Em 1455, D. João II, o Principe Perfeito, e em 1469, Niccolò Maquiavel. D. João II foi o homem que deu corpo ao projecto de seu tio, o Infante D- Henrique, abrindo, com a ciência náutica disponível, as rotas marítimas que iriam agilizar o comércio internacional. Seus primos, a castelhana Isabel, e o catalão Fernando, travariam com ele uma disputa feroz, mas que foi o detonador da expansão europeia. As potências continentais, Inglaterra e França, perdiam força, iriam ser subalternizadas até que o fulgor dos estados peninsulares se esvaísse.

Outros dois europeus, estes do século XX, o catalão José Luis Sampedro e o italiano Antonio Gramsci, explicam a ascensão e queda do capitaalismo. José Luis Sampedro, escritor e humanista, lembrando que o capitalismo que tem as suas raízes na queda do feudalismo, no Renascimento, portanto, parece ter chegado até onde lhe era possível e que não estamos perante uma crise, mas sim perante as convulsões agónicas de um sistema que se esgotou. Gramsci explicando como o «moderno príncipe» se sobrepõs ao senhor feudal e como da organização feudal, se passou à estrutura corporativa e como desta se salta para o conceito de «vontade colectiva»…

Os europeus geram as doenças e descobrem as terapêuticas. Criam os bandos de vampiros e depois inventam os colares de dentes de alho que os afugentam. Os europeus não são tão bons como se julgam, nem tão maus como se diz.

 

 

 

, o homem que definiu o “moderno príncipe”.

 

 

 

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