1. A história da desigualdade , segundo PIKETTY, em seis gráficos
JOHN CASSIDY, (New Yorker)
Parte II
(conclusão)
…
O gráfico 4 mostra o que tem estado a acontecer em seis países: Argentina, China, Colômbia, Índia, Indonésia e África do Sul. Mais uma vez, vemos a forma familiar da evolução da repartição em U: durante as últimas décadas, mais e mais rendimento tem vindo a acumular-se no topo da escala de rendimentos. Na maioria desses países, no entanto, a proporção que vai para os um por cento é, na verdade, um pouco menor relativamente ao que se verifica nos Estados Unidos. A única excepção é a Colômbia, onde as figuras são amplamente comparáveis. (Comparar gráfico 4 com o gráfico dois.) Não será difícil de notar que a Argentina, Indonésia e a África do Sul são nações altamente estratificadas e fortemente injustas. Mas, de acordo com esta medida, de qualquer forma, eles têm menos desigualdade do que os Estados Unidos. Apesar do crescimento recente de uma classe de novos-ricos altamente gastadores, o mesmo é verdadeiro para a China.
O quinto gráfico muda de objecto de análise, passa do rendimento para a riqueza, e assume uma perspectiva de longo prazo. Durante muito tempo nos séculos XIX e XX, as classes sociais dos países da Europa ocidental foram dominadas por uma elite cujo poder assentava na posse de terras e a elite endinheirada era a que possuía muita da terra e muita da riqueza. Os Estados Unidos tinham ricos e pobres, também, mas a riqueza estava espalhada de forma um pouco mais vasta. Em 1910, por exemplo, os um por cento na Europa possuíam aproximadamente sessenta e cinco por cento de toda a riqueza; no Estados Unidos, a proporção era de quarenta e cinco por cento.
Nas últimas décadas, os papéis foram invertidos. A elite endinheirada dos Estados Unidos superou as suas contrapartes no outro lado do Atlântico, e a riqueza tornou-se concentrada ainda mais no Estados Unidos do que na Europa. Em 2010, os um por cento americanos possuíam aproximadamente um terço de toda a riqueza: os um por cento europeus possuíam aproximadamente um quarto. Citando gráficos como estes, Piketty adverte que “o Novo Mundo pode estar à beira de se transformar na Europa velha da economia globalizada do século XXI. ”
O último gráfico é um pouco diferente. Refere-se à teoria de Piketty de que o capitalismo sofre de “uma contradição central”: quando a taxa de rentabilidade do capital excede a taxa de crescimento económico, a desigualdade tende a aumentar. (E isto é assim porque os lucros e outros tipos de rendimentos do capital tendem a crescer mais rapidamente do que os rendimentos do salário, que é o que a maioria das pessoas obtêm como rendimento .) A linha a roxo mostra a avaliação de Piketty sobre a taxa de rentabilidade do capital a nível mundial desde muito antes e até 2100. A linha a amarelo mostra a sua evolução quanto à taxa de crescimento global durante o mesmo período.
O aspecto importante a sublinhar é o seguinte: excluindo o período do fim do século XIX até ao início do século XXI, que é aproximadamente o que nós chamaríamos de modernidade, a taxa de crescimento esteve abaixo da taxa de rentabilidade , implicando o crescimento da desigualdade de forma sustentada. O século XX, longe de representar a normalidade, era uma excepção histórica que talvez seja muito pouco provável que venha a ser repetida, argumenta Piketty . Nas décadas seguintes, diz, a taxa de crescimento recuará muito provavelmente abaixo da taxa de rentabilidade e as “consequências para a dinâmica a longo prazo da distribuição da riqueza serão potencialmente terríveis.”
A projecção de Piketty é puramente trabalho de adivinhação, naturalmente. (Numa peça por mim escrita, eu sugiro um conjunto de situações em que se poderia pensar que Piketty possa vir a estar errado. ) Mas tem com base alguns argumentos sérios, e expressa muito o sentimento de muita gentes. Exactamente, como no resto do livro.”
JOHN CASSIDY, It’S INEQUALITY STORY IN SIX CHARTS
Charts adapted from the originals in Thomas Piketty’s “Capital in the Twenty-first Century.”
______
http://www.newyorker.com/online/blogs/johncassidy/2014/03/piketty-looks-at-inequality-in-six-charts.html
Para ler a Parte I deste trabalho de John Cassidy, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:
1. A HISTÓRIA DA DESIGUALDADE , SEGUNDO PIKETTY, EM SEIS GRÁFICOS JOHN CASSIDY, do NEW YORKER




