Em 1992, com organização e estudo de Mesquitela Lima, publicou-se o volume A poética de Sérgio Frusoni. Uma leitura antropológica (Lisboa, ICALP-Ministério da Educação), volume que revelou essencialmente o corpus poético de Sérgio Frusoni (1901-1975), poeta caboverdiano quase desconhecido, precedido de uma análise de âmbito antropológico. Esta publicação constituiu uma operação cultural de grande relevância, visto que aqui se reuniu a produção poética de um autor que, embora nascido em S. Vicente no princípio do século XX, era filho de italianos e com laços profundos em relação à cultura italiana, quanto mais não seja pelos períodos de tempo vividos em Itália (1920?-1925; 1931-1947), alguns dos quais certamente significativos e influentes na formação cultural do poeta. E não deixa de ser curiosa a escolha de viver em Itália durante dezasseis anos percorridos por uma história condicionada pelo fascismo, mas não sabemos as razões que o levaram a essa decisão.
Surpreendente, por isso, é o facto de Sérgio Frusoni ter produzido a sua obra poética em crioulo de S. Vicente – além destes poemas, há a referir Vangêle Contód d’Nôs Móda, espécie de versão poética do Evangelho, publicada pelos Capuchinhos Italianos com prefácio de Luís Romano -, sendo igualmente de sua autoria as traduções para português. Além disso, não é menos surpreendente a ausência de eventuais “modelos” italianos, visto que a poética de Frusoni, se exceptuarmos os sonetos e um ou outro caso sem o envolvimento prevalente da entropia local, é um produto que esteticamente dá continuidade à poesia narrativa da tradição popular, isto é, à poesia romance ligada, porém, à crónica minuta do corpo social. Neste sentido, frequentes são os exemplos de poesia dialogada, construída a partir de personagens (figuras) que apresentam o seu ponto de vista e que, relativamente à estrutura, se organizam através de “vozes” encadeadas. Este processo não está ausente de muitos romances da tradição lírica peninsular, transposta para as áreas lusófonas do Brasil e dos arquipélagos atlânticos, sendo uma componente não transcurável das técnicas da poesia popular.
Do estudo de Mesquitela Lima, tem particular interesse a parte que se refere à questão linguística, sobretudo o capítulo “A designação ‘crioulo’”, até por se tratar de problema complexo, na altura já objecto de algumas propostas nem sempre marcadas por critérios científicos e, o mais das vezes, conotadas por perspectivas de índole política. Tem razão por isso, aquele estudioso quando refere que «em relação ao dito ‘crioulo de Cabo Verde’, muitos autores tentaram explicações, mas parece-me que uma certa ambiguidade sempre prevaleceu […] na definição da sua identidade como língua e na caracterização da sua especificidade relativamente aos troncos linguísticos que lhe deram origem – o português e certas línguas da Costa da Guiné (no seu sentido lato)» (p.24). Partindo da análise do processo de formação e do sistema independente em relação aos ramos de origem, Mesquitela Lima propunha o abandono da terminologia, ainda em uso, de “dialectos crioulos” (depois substituída por “línguas crioulas”), avançando justamente que ao chamado crioulo se concedesse o estatuto de língua caboverdiana.
Quanto à “leitura antropológica” para que remete o subtítulo do volume, trata-se de uma análise que estabelece os pontos de sutura entre a poesia de Sérgio Frusoni e o quotidiano da cidade de Mindelo, numa simbiose que ultrapassa a simples ilustração da obra poética para, a partir dela, produzir um discurso onde transparecem os mitos, os ritos ou outros elementos distintivos da cultura caboverdiana.
PORTUGAL EM REVISTA FRANCESA (com Olivença, páginas 48-53):http://issuu.com/ijbabx/docs/viso-3 [15]
Em 2014-07-05 21:01, A Viag